Zoonoses, um problema atual com ancestralidade: o caso da tuberculose animal

A tuberculose animal mostra-se com um problema ancestral com significado atual. Nunca como antes compreender zoonoses se demonstrou uma tarefa crucial, em particular, neste novo mundo em que o contacto próximo entre humanos e animal selvagens tem aumentado e em que o número de doenças zoonóticas tenderá igualmente a aumentar.

Em parceria com:



Crónica de André Pereira

Estudante de Doutoramento em Microbiologia



Coronavírus, novo coronavírus, covid, SARS-CoV-2 são algumas das diferentes designações utilizadas nos últimos meses para denominar o vírus responsável pela atual crise pandémica. Certamente uns termos serão mais corretos que outros, dependendo do contexto, mas isso fica para uma próxima crónica. Apesar das muitas designações, a realidade é que pouco se sabe sobre este novo vírus que surgiu tão de repente nas nossas vidas. No entanto, uma coisa parece certa, este vírus é uma zoonose. Mas, o que é isto de zoonose? Bem, é qualquer microrganismo, seja ele um vírus, uma bactéria ou um fungo, transmitido de um animal para os humanos e que nestes cause doença.





De acordo com a Organização Mundial de Saúde, as doenças zoonóticas representam 75% das doenças infecciosas novas ou emergentes. Na lista das mais importantes zoonoses a nível mundial encontra-se a tuberculose animal. Esta doença é causada por uma bactéria chamada Mycobacterium bovis, que possui elevada semelhança com a bactéria que normalmente causa a tuberculose em humanos, Mycobacterium tuberculosis. A mesma organização estima que, em 2019, existiram cerca de 140 mil novos casos de tuberculose zoonótica a nível mundial, resultando em 11400 mortes (8,1%!). A maioria dos casos (>80%) regista-se em África e Sudeste Asiático. No entanto, estes números estarão subestimados devido à falta de rastreios e à difícil diferenciação entre casos de tuberculose e tuberculose zoonótica.


Na União Europeia, e de acordo com a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar e do Centro Europeu de Controlo e Prevenção de Doenças, em 2018, foram registados 182 casos de tuberculose zoonótica em humanos, em 11 estados-membros, incluindo 2 casos em Portugal e 45 casos em Espanha. Isto corresponde a 0,4% dos casos de tuberculose em humanos. Pode parecer pouco, mas se pensarmos que o tratamento tem a duração média de 12 meses e que a doença tem uma taxa de mortalidade de 13%, talvez mudemos rapidamente de ideias.


Este longo período de tratamento deve-se à camada protetora espessa destas bactérias, o que lhes confere uma resistência natural a muitos antibióticos. A juntar a isto, o sistema imunitário responde à invasão por estas bactérias através do seu aprisionamento evitando a sua dispersão pelo organismo. Este mecanismo cumpre muito bem a sua função, mas também impede a atuação de muitos antibióticos. Por esse motivo, existe um cocktail de 4 antibióticos normalmente utilizado para o tratamento da tuberculose, mas a bactéria que causa a tuberculose zoonótica é naturalmente resistente a um deles (pirazinamida). Adicionalmente, algumas podem ainda ter resistência a outros dois antibióticos deste cocktail (rifampicina e isoniazida). A estas bactérias chamamos de multirresistentes! O combate a este tipo de bactérias é muito difícil, levando muitas vezes à morte por falta de alternativas terapêuticas.




Esta é uma doença de progressão lenta, e existência de longos períodos de latência que, em condições nas quais o sistema imunitário está mais debilitado, pode evoluir para doença ativa, sendo altamente contagiosa. As bactérias tendem a acumular-se em órgãos do sistema linfático e respiratório, sendo excretadas através de diversas secreções como aerossóis oro-nasais, fezes e urina. Assim, a transmissão pode ocorrer de modo direto, através do contacto de proximidade, ou de modo indireto, através da ingestão de alimentos de origem animal contaminados, nomeadamente lacticínios não pasteurizados e carne ou derivados pouco cozinhados.


Mas quais as pessoas em maior risco de contrair a doença? Qualquer pessoa que no seu dia-a-dia tenha grande proximidade com animais potencialmente infetados. Os veterinários, produtores de gado, tratadores em jardins zoológicos, caçadores, trabalhadores em matadouros e talhantes são apenas alguns exemplos.


Sendo este um problema com magnitude mundial, que medidas estão a ser tomadas? A Organização Mundial de Saúde, a Organização da Alimentação e Agricultura das Nações Unidas, a Organização Mundial de Saúde Animal e a União Internacional contra a Tuberculose e Doenças Pulmonares uniram esforços em 2017 e lançaram o primeiro roteiro para enfrentar a tuberculose zoonótica baseado no conceito de “Uma Só Saúde” que define o melhoramento das bases científicas, a redução da transmissão na interface animal-humano e o reforço das abordagens intersetoriais e colaborativas como as principais temáticas a desenvolver.


Mas e a nível nacional? Uma vez que o principal reservatório da doença são os bovinos e que a doença não apresenta sintomas característicos nesta espécie, o controlo baseia-se essencialmente em 3 pilares: (1) deteção atempada em vida através de uma injeção dada no pescoço do animal para detetar a presença de anticorpos contra a bactéria através do surgimento de um inchaço (prova de intradermotuberculinização); (2) abate obrigatório dos animais suspeitos com indemnização dos produtores; e (3) posterior teste laboratorial de confirmação da infeção através do isolamento da bactéria em cultura e/ou deteção da bactéria por microscopia. Nos concelhos fronteiriços com Espanha da região Centro e Alentejo, os animais de caça maior (javalis e veados) são também vigiados, sendo sujeitos a um exame inicial obrigatório para deteção de lesões sugestivas de tuberculose, seguido de eliminação adequada dos subprodutos e das peças de caça suspeitas e posterior teste laboratorial de confirmação da infeção.


A eficácia destas medidas tem sido reconhecida com uma diminuição progressiva dos valores de prevalência ao longo dos anos, porém, nos últimos 5 anos, os valores têm permanecido relativamente baixos (<0,05%), mas estáveis, tendo-se provado difícil a eliminação total da doença de território nacional. Mas exceções existem, com o Algarve a ser considerado uma região oficialmente indemne de tuberculose, desde 2012.

Mas serão os problemas resultantes apenas de saúde pública? Não, a tuberculose animal apresenta outros fatores de preocupação como o elevado impacto económico no sector agropecuário com elevadas perdas de produção bovina e de rejeição de carcaças em matadouro, no sector comercial com restrição ao comércio de animais e produtos derivados, e no Orçamento do Estado pelos custos diretos na implementação do plano de controlo e erradicação da doença.


Assim, a tuberculose animal mostra-se com um problema ancestral com significado atual. Nunca como antes compreender zoonoses se demonstrou uma tarefa crucial, em particular, neste novo mundo em que o contacto próximo entre humanos e animal selvagens tem aumentado e em que o número de doenças zoonóticas tenderá igualmente a aumentar.