Vou começar a investir, o que devo saber sobre mim?

O mundo dos investimentos está na moda. Vemo-lo em reels e em tiktoks, quer seja o mundo alucinante das criptomoedas e dos NFTs, ou mercados mais tradicionais. Livros, Podcasts e Gurus abundam, e arrisco-me a dizer que até existe um mercado paralelo, onde esquemas e ídolos (praticamente como se de uma seita religiosa se tratasse) faturam mais da sua reputação do que dos investimentos que apregoam.

de Gonçalo Brites Ferreira



Mas se estás disposto a tentar mudar a tua vida, de alguma forma, ou simplesmente gostavas de experimentar ou sentir a sensação de fazeres o teu primeiro investimento, este texto poderá vir a servir como um guia para ti. Bem, se o teu propósito for saber sobre os fundamentos da avaliação das ações, ou dos principais modelos de avaliação da viabilidade de investimentos, talvez não seja assim tanto. Contudo, deixo-te aqui em baixo algumas ratoeiras que a evolução da espécie deixou ficar no teu cérebro que te podem a levar a decisões erradas.


Em primeiro lugar, a forma como olhamos o mundo. Pode parecer trabalho a mais para um só cronista, porém, vou tentar.


Encaramos o mundo como uma série de vitórias e derrotas. Eu sei que pode parecer pouco elaborado, mas não anda muito longe disto.

Se te perguntar quem está mais satisfeito: Alguém que tinha 1 milhão de euros e perdeu 500 mil ou um sujeito que tinha 300 mil e ganhou 100 mil?


A resposta pode parecer óbvia, e, de facto, é. No entanto, isto revela um pouco sobre a nossa forma de pensar: aquele sujeito que agora tem 500 mil euros continua a deter mais recursos do que o sujeito que apenas tem 400 mil e pode, numa ótica mais direta, saciar mais necessidades do que aquele que apenas tem 400 mil. A verdade é que nós não pensamos assim, e sabemos que aquele que perdeu 500 mil e estará, neste momento, à beira de um pico de tensão.


Isto leva-me ao segundo ponto: a nossa aversão à perda.


Errar é humano. Ter medo de errar também. Falta-nos apenas reconhecer a dificuldade que temos em admitir os nossos erros. Mais uma vez, nos investimentos, a coisa anda muito à volta disto. Sabemos que errar faz parte da nossa natureza, e isso gera um medo em nós.

Então, do alto da sapiência, temos medo de perder o que já ganhamos, e como não queremos admitir o que já perdemos, vamos à procura de recuperá-lo. Este comportamento faz de nós sensíveis a pequenas variações nos preços das ações, e quando ganhos mínimos acontecem temos tendência para vendermos os ativos de imediato. Porém, o contrário não acontece. Quando uma ação aparenta estar em queda, ou está mesmo em queda, temos tendência para culpar a especulação, e argumentar que o preço voltará a subir rapidamente. Contudo, cada situação tem as suas especificidades.


Em terceiro lugar, o excesso de confiança e o poder das emoções.


Raiva, Gratidão, Justiça, entre outros, vão ter impacto nas tuas decisões de investimento. Desde logo, na forma como processas a informação e a forma como a recordas, e, em si, as indicações que as emoções nos transmitem, o que não de todo desejável, se procuras tomar uma decisão racional.


Existem estudos que indicam que certas pessoas compram uma ação de uma empresa simplesmente porque a viram num outdoor na rua com o seu nome. Também somos mais propensos a investir em ações de empresas do país onde vivemos porque estamos mais familiarizados com as mesmas: até a temperatura do dia ou a sua duração tem impacto na tua atitude em relação a que ação comprar.


Portanto, o conselho que te deixo é este: antes de investir, importa não apenas investigar a fundo sobre o tipo de empresa, perspetivas de futuro mercado, etc... Importa também descobrir o porquê de ela ter despertado interesse em ti, visto que poderás estar a ser levado por um qualquer viés de tomada de decisão que poderá, embora subtilmente, estar do lado oposto aos teus interesses. Lembra-te que, mesmo depois de teres comprado, eles vão estar sempre presentes.