Vamos ao teatro? #1



de Henrique Raínho


Teatro Religioso

Teatro Profano Teatro Secular Teatro Pós-Dramático

Teatro Político

Teatro do Oprimido

Teatro Invisível

Teatro Pobre Teatro da Crueldade

Teatro de Revista

Teatro Musical

Teatro Comercial

Teatro Documental


Nesta média lista de nomes que tanto podem denominar uma “escola teatral” como uma companhia ou só uma brincadeira de, também, médio gosto, estão representadas várias maneiras de fazer teatro por este mundo fora. De fazer, de pensar, de analisar... enfim, pelo menos 13 maneiras de encaixilhar o ato teatral (questionemo-nos acerca desta necessidade mais tarde, sim?).


A minha pergunta é: qualquer que seja o tipo, porquê ir ao teatro hoje?

Porque é que alguém há de se agasalhar nos dias frios, para sair de casa, em direção a uma sala onde, por acaso, está a acontecer um espetáculo, pagar um bilhete (se for o caso), e ver uma pessoa ou um grupo de gente a contar uma história, ilustrar um conceito etc., a comunicar algo consigo? Vários companheiros artistas diriam que um “porque sim” bastaria, uma vez que a utilidade do ato teatral será pouca ou nenhuma.


Eu concordo com a primeira parte, mas longe estou de concordar com a segunda. Não me custaria nada admitir que a razão que me levou a assistir um ato teatral não foi nenhuma folha de sala, ou descrição brilhante que recebi de alguém que viu uma outra récita, mas antes uma tão simples vontade de ver algo ou uma confluência de circunstâncias que me levaram àquele ato teatral.


Por outro lado, importar-me-ia de admitir que aquilo que vi não surtiu nenhum efeito emotivo ou reflexivo, não só pela forma do ato teatral, mas também pelo conteúdo que o ato procurava demonstrar, contar ou transparecer naquele momento. Se saio de um espetáculo e não sou capaz de refletir sobre o que assisti e tirar conclusões sobre algum aspeto do que me apresentaram, das duas uma: ou tenho um catálogo de referências muito reduzido (super possível, por vezes) ou a criação precisa de trabalho.


Quanto à primeira, todas as criações correm o risco de utilizar referências que nem todos detêm, e isso é normal. Pode até essa utilização ser um dos motores de reflexão. Quanto à segunda, esse será, para mim, um espetáculo parco, que careceu de ligação com o público, que não comunicou.


Por isto, neste momento, acredito que o ato teatral tem utilidade, e que esta se pode manifestar ao nível da estimulação reflexiva do indivíduo a que se propõe chegar. Creio que toda e qualquer oportunidade de estimular o pensamento do outro, seja um amigo, um familiar ou uma plateia, não deve ser desperdiçada!

Uma professora minha de interpretação dizia com um peso igual de orgulho e responsabilidade: a nossa profissão tem o dom de parar o tempo das pessoas. Sempre retirei mais o sentido de responsabilidade desta frase do que propriamente o do orgulho.


Para mim, cada espetáculo é uma oportunidade de vermos uma história ou um conceito pelos corpos e vozes de outros seres humanos e de partilhar um momento, uma ideia, uma reflexão sobre o que vimos, ouvimos, com o amigo que nos acompanhou, com a nossa família ou alguém que apanhamos na rua com uma folha de sala desse espetáculo.

E que maravilha é poder pensar, refletir sobre o mundo, sobre a cidade, sobre as pessoas, sobre as relações, enfim... sobre o que quer que seja, e esse ato político e social de pensar, de refletir, partir de uma experiência partilhada.


Os meus companheiros artistas que acreditam que a arte não tem utilidade: eles não defendem que se deva deixar de fazer arte. Acreditam sim - e que crença tão sadia - que as coisas que não servem para nada são tão ou mais importantes para cada um de nós como aquilo que a Pirâmide de Maslow ditaria ser prioritário. E porque será?