Vale a pena?

Vamos ao teatro? #3















de Henrique Raínho


Enquanto procuro um tema cativante sobre o qual vos escrever debato-me com esta ideia que tem tanto de prosaica, como de imponente: mas isto vale a pena? Vale a pena escrever sobre peças de teatro, concertos, livros, etc.?


No dia em que enviei a última crónica, rebentou a guerra na Ucrânia. De um momento para o outro, os blocos noticiosos passam de cobrir a pandemia, o governo e as peripécias das eleições, para mares de analistas e comentadores que analisam, sob os mais variadíssimos pontos de vista, este conflito. A par disto, imagens de refugiados (que palavra familiar, não acham?) ucranianos que deixam a sua terra, a sua casa, para fugir para outro país ou para levar familiares à fronteira e voltar para se juntar à resistência.


Posto isto, volto a perguntar, caríssimos, vale a pena?

No próprio dia em que rebenta a guerra, partilhei com os meus colegas cronicamente inconformados que sentia que não podíamos desistir de escrever, pois no momento em que parássemos, aí sim, estaríamos perdidos.


Pergunto novamente, e perdoem-me, mas é uma questão que tem tanto de cronológica, como de poética: vale a pena?


Pois bem, este cronista cronicamente inconformado que vos escreve não tem a certeza se vale a pena ou não, mas tem a certeza que, independentemente da resposta, parar não é uma opção.


Deixar de contemplar e pensar a arte, a beleza e a palavra é a morte do artista e de qualquer outro trabalhador neste mundo.

É cortarmos com o nosso direito à felicidade, ao belo, à fruição, deixando o pensamento à deriva num escuro apagado, desprovido de brilho, de pensamento e, principalmente, de liberdade.

Como já escrevi com outras letras, acredito que a arte pode exercer o poder da reflexão do espectador, o que, a par com a capacidade e eventual vontade de discordar, culmina num exercício de pensamento livre, impulsionado (não conduzido por estreitos carris) pelas imagens, pelos sons ou pelos movimentos que um quadro, uma peça ou uma coreografia sugerem.


Desta maneira, deixar de escrever seria deixar-me vencer pelo medo e pela impotência. Não deixarei, não deixaremos, não nos deixaremos vencer.

E não nos falta inspiração (in)felizmente. Bastarão dois exemplos tocantes das últimas semanas. O primeiro: a Orquestra Sinfónica de Kiev que ocupa, 14 dias depois do início da guerra, a praça central de Kiev, para tocar o hino nacional da Ucrânia. O segundo: os membros da Ópera de Odessa que, em frente ao edifício, tocam e cantam “Va, pensiero”, também conhecida como “Coro dos escravos Hebreus”, com uma letra que reflete a saudade de uma terra natal.

Estas pessoas são de uma arte e de uma coragem incríveis, merecendo a nossa homenagem e sendo inspiração para mim. E espero que para muitos mais.