Uma senhora portuguesa

Se o contentamento fosse de regras, bastava-me muito pouco. Podia ficar uma tarde inteira a olhar para as suas obras. E rir-me-ia às gargalhadas, mesmo a saber todas as linhas.

de Joana Garrido Amorim



Um anjo pode ser uma senhora de Aljubarrota e a mulher não precisa de ser delicada para encontrar a sua ostentação., recuperando as origens de um Portugal envelhecido na sua transformação.


É na sua confusão, no seu inquieto, no seu feio, que se encontra a sátira do nosso Portugal. Não é o Portugal de Lisboa ou do Porto, mas o das suas terras. Daqueles que por aí vivem com a raiva e a desordem intrínseca.

Aos pares, rabugentos e velhos, à espera do seu dia. Daqueles barrigudos que maltratam as suas mulheres e não respeitam a delicadeza grotesca da sua presença e do seu íntimo.

Moribundo e cansado, um retrato de Portugal descansa nas suas obras e da lei da morte se vai libertando.


Já há algum tempo, chegara a casa com o seu Pastéis do Aborto, impresso em papel autocolante, e colei-o no bordo das capas da minha estante. Pergunta-me, minha mãe, se encontrarei concentração, naquele descontentamento. E a verdade é que o refúgio da sua arte, num país torto como o nosso, cheio de problemas e de chatices, satiricamente traz-me contentamento. Porque o ridiculariza na complexidade das tarefas de fácil resolução, como são as domésticas.


Assim, naquele autocolante, geram-se monólogos de tratamento do meu descontentamento, ridicularizando e insultando estes que por aí andam, uns que parecem fantoches e, outros, cucos a dar o meio-dia.