Uma pandemia silenciosa

De qualquer das formas, Pedro tinha tido a coragem hercúlea de, naquele dia, sair de casa para dar um passeio algo longo até ao Farol da cidade, de máscara e luvas, numa povoação com mais gado bovino que humano, arriscando-se a ficar infetado pelo vírus pandémico: “Tudo menos isso, tudo menos isso”, pensava ele, enquanto dava graças pelos seus dois pais, há já quase uma década, terem sido transferidos para um universo sem pandemias.


Crónica de Henrique Simões dos Reis

Estudante de Medicina na NOVA Medical School



O Pedro achava-se saudável, porque ninguém lhe tinha dito o contrário. Às vezes, quando ia a casa da avó a seguir à escola, ainda recebia algumas palavras de encorajamento enquanto comia o seu bolo mármore preferido: “Come, come meu querido, que estás a crescer”. O Pedro estava nas sete quintas e em cada uma delas descobria um deleite diferente: ora um arroz doce polvilhado com canela ou um leite de creme; ora uma fatia de bebinca do restaurante indiano local ou um bolo de chocolate; ora fatias douradas que a pastelaria da rua da escola fazia fora da época natalícia ou um mil folhas; E só às vezes, porque a mãe tinha ouvido dizer que comer fruta era importante, um bolo de iogurte com três gomos de uma tangerina anã.


Passados 27 anos, desde que saíra da casa da sua já então falecida avó para nunca lá entrar outra vez, chegou à sua vivenda, conservando, evidentemente, os mesmos hábitos da altura, de comer muito e mal, visto que, de facto, não parara de crescer. Sentou-se na sua poltrona de cabedal, já desgastada com o roçar dos anos que haviam passado desde que o seu pai se sentara nela pela primeira vez. Quase de um só gesto, agarrava o comando e ligava a televisão depois de carregar indistintamente com o seu polegar gordo nas quatro primeiras teclas, sem mostrar preferência por qualquer um dos pivôs que lhe faria companhia aquela noite. Aquele com a voz grave e com as pausas excessivamente demoradas sempre que transmitia uma mensagem que parecia querer humidificar os olhos dos ouvintes com as suas próprias lágrimas, começava: “A síndrome de Kawasaki atinge crianças com menos de 8 anos que testaram positivo para o SARS-CoV-2. Uma manifestação pós-infecciosa, que causa vasculites...” Em princípio, Pedro, com 40 anos, estaria a salvo, mas não conseguia deixar de pensar que o termo Kawasaki era demasiado parecido com o nome da segunda cidade japonesa onde havia caído uma bomba atómica, Nagasaki, para que se pudesse tratar de uma benévola coincidência e isso só o assustara mais. De qualquer das formas, Pedro tinha tido a coragem hercúlea de, naquele dia, sair de casa para dar um passeio algo longo até ao Farol da cidade, de máscara e luvas, numa povoação com mais gado bovino que humano, arriscando-se a ficar infetado pelo vírus pandémico: “Tudo menos isso, tudo menos isso”, pensava ele, enquanto dava graças pelos seus dois pais, há já quase uma década, terem sido transferidos para um universo sem pandemias.


Era uma noite de primavera e o Pedro acabara de se deitar depois de um banho que o livrara de todas as gotas de suor que havia acumulado na sua primeira caminhada ao ponto mais a oeste da cidade, desde que a pandemia começara. Deitara-se sem colocar as meias e era assim que descobria ano após ano que o bom tempo havia chegado para ficar. Quando acordou com a escassa luz que entrara pela porta entreaberta, sentia-se mais cansado pela noite repleta de pesadelos do que pelo dia que a precedeu. Os seus sonhos envolviam sempre uma partícula contaminada com o Vírus que viera dos antípodas do planeta e que entrava pela janela aberta de uma casa escolhida ao acaso, culminando com um desfecho fatal para todos os membros da família que habitavam a moradia. Embora abatido e sem alento, levantava o seu pesado abdómen da cama, quando reparou em pequenas manchas de sangue pintalgadas nos lençóis, cuja disposição parecia acompanhar os movimentos bruscos feitos pelo seu pé também atormentado pelos vívidos pesadelos noturnos. Quase como relampejando, vieram-lhe imagens do pai à cabeça, quando olhou para a planta do seu pé e viu uma ferida em carne viva que certamente teria feito na caminhada do dia anterior. O seu pai, no ano em que morreu, tinha uma ferida semelhante que, tal com no seu caso, não lhe causara dor nenhuma, mesmo à medida que os meses se passavam e a ferida, que não cicatrizava, lhe carcomia o resto do pé. No mesmo instante, apercebeu-se de outros aspetos que achava curiosos no pai, talvez não fossem meras casualidades, mas manifestações patológicas de uma condição hereditária que o assolava a ele também. Tal como o pai, percebia ele agora, comia, bebia e urinava com muita frequência, a sua visão deteriorara-se e nem o seu próprio pé sentia a mesma dor do seu braço quando o beliscava. No entanto, tudo isto tinha pouca importância, porque uma pandemia havia deflagrado e o Pedro não tencionava abandonar o seu seguro lar num passeio, tendo como destino o covil do lobo, que se assinalava com uma cruz vermelha.


Passado um mês, o Pedro ainda não tinha saído de casa, à exceção de uma única vez em que foi ao supermercado, entre coxeios, reabastecer a sua dispensa sem fundo. Um dia, decidiu olhar de soslaio para o seu pé e este havia adquirido cores funestas, talvez pressagiando um final próximo. Para se abstrair do que acabara de ver, dirigiu-se com dificuldade ao frigorífico e pegou no ultimo pedaço do bolo mármore enquanto se tentava lembrar de quando tivera visto pela última vez o frigorífico sem este bolo, sem sucesso. De regresso à poltrona, abrindo antes a janela mais próxima de si, sentou-se resfolegando pelo penoso caminho que havia percorrido desde a cozinha. De súbito, uma rajada de vento atravessa a sala, fazendo cair com estrondo no soalho de madeira, o pé que há muito tempo já não era seu. O Pedro morreu passados uns instantes, sem nunca descobrir que morrera com diabetes e com a arma do crime na sua mão, com a sentença final de morte imediata, num tribunal injusto que o acusara de suicídio voluntário. Pelo menos não morrera de covid-19.


Este texto tenciona abordar duas questões.


1. Diabetes e literacia na saúde

Atualmente, a doença pandémica diabetes mellitus é a 7ª causa de morte no mundo, afetando12,7% da população portuguesa entre os 20 e os 79 anos. É a principal causa de cegueira, amputação traumática e aproximadamente 1/3 dos doentes com insuficiência renal crónica em hemodiálise, juntamente com 1/3 dos internamentos por AVC e por enfarte agudo do miocárdio são de pacientes diabéticos. Na maior parte dos casos previne-se com um estilo de vida saudável.


2. Diminuição de diagnósticos urgentes na altura da pandemia

Os médicos nas unidades de saúde interrogam-se sobre a diminuição do número de doentes com AVC e enfarte cardíaco que têm chegado às urgências. Uma das hipóteses que se coloca é a dos doentes terem receio de contrair a covid-19, havendo muitos que não percecionam de forma correta a relação risco-benefício.