Uma morte branca

Em “De Profundis, Valsa Lenta”, José Cardoso Pires confere um rosto e uma identidade a uma patologia que muitos verga por ano, por dia, por hora – o acidente vascular cerebral.

de Inês Moreira


Este livro, escrito como relato autobiográfico, disseca o percurso lento e vertiginoso de recuperação pós-AVC do escritor, que ficou temporariamente desprovido de memória e com o centro da fala e da escrita profundamente afetado, lesão que podia tê-lo encerrado numa existência em incomunicabilidade total. Por algum tempo, Cardoso Pires viveu preso na pele desse “Outro” - afásico, amnésico, frágil – ser deambulante da enfermaria de Neurologia de Santa Maria.


O testemunho nasceu com a ajuda de terceiros, em 1997, 2 anos após ter sofrido a agressão. Acabou por falecer em 1998, vítima de um outro AVC.



No prefácio o Professor João Lobo Antunes escreveu:

"Devo dizer-lhe que é escassa a produção literária sobre a doença vascular cerebral. A razão é simples: é que ela seca fonte de onde brota o pensamento, ou perturba o rio por onde ele se escoa, e assim é difícil, se não impossível, explicar aos outros como se dissolve a memória, se suspende a fala, se embota a sensibilidade, se contém o gesto. “

Neste pequeno livro de 72 páginas nasce um profundo registo da despersonalização subjacente à “desmemória”: esvai-se a ponte que une um rosto a um nome, um cheiro a um lugar, uma palavra a um significado. Dos afetos de uma vida, resta pouco mais que coisa nenhuma.


Alheio ao rigor científico que, na minha opinião, deve cingir-se aos clínicos, Cardoso Pires oferece-nos a perspetiva do doente em geral: a vivência não autónoma da fragilidade acidental, o anónimo deserto da perda de memória, a estrada tortuosa da doença.


Perde-se a concepção do tempo, desde a sua divisão em passado, presente e futuro até à forma como se sente o tempo e, consequentemente, se vive as relações, reféns de um nevoeiro que teima em demorar. Perdidas essas conotações que conferem identidade, resta "o constante e desinteressado desinteresse do homem desabitado de pessoas e de lugares, de tempo e de sentimentos."


"Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá a luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso. Verdade, também isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido."

O escritor regressou ao mundo dos “realmente vivos” e criou este íntimo retrato um ano antes de falecer, no entanto, muitos nunca chegam a voltar.No final, permanece a pergunta: para onde vamos quando a memória parte primeiro que nós?