Uma Mini Não Faz Mal A Ninguém

Atualizado: 2 de Abr de 2020

E que sorte é vivermos tão perto dum sítio que nos dá tanta coisa boa! Está mesmo a pedir! MAS depois lembrei-me. Isto é vacilar.


Texto de Francisco Geraldes Barba

Do segmento Aspas Aspas, reservado a crónicas dos leitores


Espero que estejam a ter cabeça para todos estes dias em casa! A verdade é que já apetece mesmo mesmo sair...! Decidi escrever este texto depois de pensar numa coisa muito simples e que primeiro me parecia muito tranquila, mas que não era bem assim, de todo!

Voltei de Itália há 14 dias, faz hoje o tempo que todos me recomendaram que ficasse em casa em isolamento...! Tenho a sorte de viver numa quinta e poder dar umas voltas aqui por dentro e uma casa grande que me deixa ir mudando de espaços! Além disso, tenho muito trabalho da faculdade, agora que tudo é avaliado com trabalhos e os professores viraram youtubers que temos de seguir! No meio disto tudo, faz um mês que não estou com amigos (em Itália estive 15 dias a trabalhar num laboratório onde conhecia muito pouca gente), muito menos da minha idade. Por muitos irmãos que tenha, estou sozinho em casa com os meus pais e pouco estamos porque “isolamento”.

A umas horas de acabar este tempo em que poderiam aparecer sintomas, estou muito saudável, acho que mais do que o normal até! Sem sintomas nenhuns e com corridas e séries de exercícios que só as minhas irmãs e o Tato me poriam a fazer. Bem em forma! E ontem tive uma ótima ideia...! O Tato (grande amigo, grande primo, grande companhia) está em isolamento também há tanto tempo como eu, se nenhum de nós tem sintomas e visto que mora aqui tão perto, amanhã vou agarrar no carro (até faço uso da carta de condução que ainda cheira a nova), vou até casa dele, levamos umas minis e vamos para um sítio qualquer isolado no Tejo estar um bocado! Na galhofa, sem stress, tudo desinfetado, do melhor! E que sorte é vivermos tão perto dum sítio que nos dá tanta coisa boa! Está mesmo a pedir!

MAS

depois lembrei-me. Isto é vacilar. Isto é quebrar a única medida que se mostra eficiente em abrandar o contágio. E estava tão convencido de ser uma boa ideia como agora sei que não posso. Não nos podemos desleixar nisto! Os números da DGS mostram-se cada vez mais confusos, inconclusivos, incoerentes. Os cenários dos nossos vizinhos não são nada animadores e, lá porque ainda não temos medidas oficiais de recolher obrigatório, estamos numa guerra, uma guerra contra um vírus, uma guerra contra o egoísmo, quanto mais não seja uma guerra mental, um desafio à nossa capacidade de sermos humanos o suficiente para, mesmo na condição privilegiada de animais sociais, ficarmos em casa. Para não olharmos ao que nos apetece, mas sermos, sim, Humanos. Humanos que pensam na sociedade, nos cuidados de saúde, nas pessoas que precisam de assistência médica pelas tantas outras razões que nos levam aos hospitais, tendo agora o seu socorro condicionado por toda a logística hospitalar que o vírus tem exigido. Humanos conscientes que pensam as suas saídas de casa com base na ajuda urgente e não no risco desnecessário.

Aquela corrida com um amigo no jardim, que fica a meio caminho das nossas casas, o ir ao supermercado com a falsa sensação de segurança por ter passado já o tempo de quarentena e todos os outros cenários que nos podem levar a ser menos exigentes connosco próprios, com o que temos que pedir uns aos outros, são tudo pequenas coisas que complicam muito. Estamos em estado de emergência e cada vez mais devíamos sentir que assim é.


E por isso amanhã, mesmo com todas as seguranças de tempo, desinfetantes e metros de distância, não vou sair.