Um passo gigante para o Homem, um pequeno passo para a Humanidade

Atualizado: 11 de Dez de 2020


É irónico que a distância à nossa Mãe Terra seja diretamente proporcional ao nosso distanciamento emocional da mesma. Depois de a termos despido, desgastado e aterrorizado, viramos agora as nossas atenções para a sua querida irmã Lua. Será que daqui a 100 anos também nos cansaremos dela, depois de a termos chupado até ao tutano e de a termos abandonado sem piedade?


"Man of the moon looks with patience", de J.B.Yeats


Crónica de Beatriz Machado

Estudante da FCT-NOVA



O relógio batia 20h17min, o célebre dia de 20 de julho de 1969 já quase findava, quando Neil Armstrong pisava pela primeira vez a face lunar da nossa querida irmã. No meio da panóplia de pensamentos que o atingiam, certamente o mais gritante, certamente, não seria onde é que o próximo Four Seasons teria a melhor vista da zona. No entanto, passados 50 fugazes anos, parece que é esta a pergunta que faz mover o turismo lunar.


Turismo lunar… A primeira vez que ouvi falar deste conceito achei a conjugação de palavras engraçada, parecia um conceito saído de um filme futurista, algo tão distante no futuro que eu nem tinha de me preocupar em adaptar-me a uma realidade onde essas duas palavras coexistissem com uma jovem adulta nascida no virar do século. Mas o ser humano surpreende-se a si próprio, reinventando-se uma e outra vez.


O Homo Sapiens, desde os primórdios da sua existência, procura o melhor e o maior, é um lema inscrito nos nossos genes, fazendo-nos inerentemente audazes e astutos, o que é nítido na breve história da humanidade. O progresso nunca soou tão alto e glorioso, a materialização dos sonhos dos nossos antepassados parece-nos agora obsoleta, impulsionando, assim, a materialização dos nossos, apenas para ficar novamente obsoleta num par de décadas e a este processo cíclico damos o nome de progresso.


Tem a sua piada que o progresso seja, em certa parte, impulsionado pelo medo de sermos esquecidos, o velho paradigma doloroso da pequenez humana. Queremos sentir-nos menos pequenos, queremos provar uns aos outros que não somos insignificantes, que não somos vulneráveis ao esquecimento. Soa a masculinidade frágil só que, desta vez, podemos afirmar que é um caso agudo de humanidade frágil; rebelamo-nos contra algo inevitável, como se não tivéssemos lido os termos e condições previamente.


É irónico que a distância à nossa Mãe Terra seja diretamente proporcional ao nosso distanciamento emocional da mesma. Depois de a termos despido, desgastado e aterrorizado, viramos agora as nossas atenções para a sua querida irmã Lua. Será que daqui a 100 anos também nos cansaremos dela, depois de a termos chupado até ao tutano e de a termos abandonado sem piedade?


Mas não temos de ir mais longe, basta abrir os olhos e prestar atenção ao nosso redor, tudo tem o preço, até os sonhos. Os momentos eureka, as descobertas há muito esperadas, as ideias fora de série e os sonhos que querem tornar-se realidade estão presentes em todas as faixas etárias; mentes brilhantes e ambiciosas encontram-se em recantos surpreendentes, tanto nas camadas mais jovens, como também nas mais maduras. Assim sendo, como se faz a seleção de quais ideias devem ser financiadas? Ora a resposta volta a ser uma pergunta, talvez a mais batida deste século, “qual delas trará mais lucro?”. É todo um jogo de xadrez, onde os peões são estas mesmas mentes, a rainha as grandes corporações e o lucro é o rei, que deve ser protegido a todo o custo. Os peões são explorados e os seus sonhos são monetizados sem dó, como se tivessem sido produzidos em massa, mas eles nada podem fazer, pois sem a rainha, a defesa que fariam ao rei seria fracassada e seria xeque-mate.

Encontramo-nos à mercê do mais habilidoso jogador de xadrez que já existiu, o capitalismo. Nós que o promovemos a esse título, somos agora prisioneiros do menino dos nossos olhos e mesmo que o quiséssemos destituir, já seria tarde demais, não saberíamos por onde ou com quem começar.


Em contraste, se recuarmos aos séculos passados, o progresso era amplamente encorajado em nome de algo superior, imensurável, de valor inestimável, em nome do conhecimento e, se me perguntarem, parecia uma motivação mais nobre.


Não me interpretem mal, não sou nenhuma ludista dos tempos modernos que anda por aí a partir à martelada cada computador que vê, muito pelo contrário, sou uma progressista acérrima, cada célula do meu corpo vibra com novas descobertas, novas pesquisas, novas informações seja em que campo for, no entanto, a sentimental em mim não consegue deixar de pensar que, de alguma forma, o progresso desumaniza e é desumano. Posso estar a sofrer de problemas de abandono, sim, é possível.


Tenho a certeza que o meu antigo professor de Filosofia ficaria felicíssimo ao observar que uma das suas antigas alunas estava com uma dor de cabeça filosófica. Já dizia Sócrates, “a vida está cheia de questões e os idiotas estão cheios de respostas”, é reconfortante saber que não pertenço ao grupo dos idiotas então, visto que as questões se amontoam à medida que o tempo passa. E respostas? Nem vistas.


Enquanto me encontrava embrenhada à procura de uma conclusão impossível para este quebra-cabeças, uma memória ocorre-me… O ar convidativo e ameno de verão rodeava a Beatriz pequenina enquanto estava a andar com entusiasmo de baloiço, mas algo lhe chama a atenção: o céu naquela noite estava hipnótico e a menina não conseguia deixar de olhar para uma estrelinha azul, que tinha um nome parecido com o seu, até que cai desequilibrada. A sua mãe veio acudi-la com um tom misto de graça e sermão ‘Filha, olha sempre para o céu, mas mantém os pés na terra` .Como por magia, acho que a resposta já não é tão impossível assim, afinal temos um currículo interessante em sermos peritos a tirar o prefixo maldoso desta palavra.