Um Fado Assim-Assim

Cada palavra, gesto, resultado é visto, encarado e anotado e, para os mais atentos, é extremamente notável que anda tudo aos papéis. E, claro, agora o único milagre português é como é que ainda temos chão para andar ou algo com que sonhar.

Crónica de Maria Madalena Freire

Licenciada em Ciências da Comunicação na NOVA-FCSH

A ilustre Amália Rodrigues faria cem anos no passado dia 1 de julho, sendo o centenário comemorado neste mês de julho do invulgar ano 2020. Se a artista internacionalmente reconhecida estivesse viva, continuaria a cantar-nos os seus maiores lamentos e a vocalizar o desgosto do país por isto ou por aquilo.


Por norma, os meus amigos historiadores informam-me que não se analisam casos hipotéticos, mas sim o que de facto aconteceu. Contudo, é sempre interessante - e um exercício bastante divertido - colocar uns quantos “se’s” no dia a dia. Como, por exemplo, se faz muito hoje em dia em relação ao tal vírus que ainda anda por aí - pelo que consta - “Ah se tivéssemos desconfinado mais lentamente se calhar não estaríamos assim”, “Ah se o vírus não tivesse vindo, estaríamos a prosperar economicamente!”, são alguns exemplos do que por aí se houve nas vozes abafadas pelas máscaras na rua. Portanto, com certeza, Amália estaria agora a olhar para o país e para os portugueses com um sentimento de que, de facto, nada muda quando tudo muda e que nós, como se tem dito muito também, ou somos bestiais ou somos bestas.


Somos um povo de exageros, é verdade, ou algo está óptimo, incrível, exepcional, de chorar e pedir por mais ou algo está terrível, péssimo, uma vergonha, que venha o Diabo e escolha! Podemos pegar em diversos exemplos antes de chegar ao atual, ao cerne deste texto - já perceberam que não vim aqui falar de Amália, deixo isso para outra altura. No mundial de 2014 éramos a pior seleção de sempre, nem passámos a fase de grupos e Cristiano Ronaldo não estava no seu melhor e só jogava bem quando era pelo Real Madrid. Já no Europeu de 2016, apesar da haver aquela descrença imensa ao início, no final, quando o título surgiu, éramos invencíveis, implacáveis, a melhor seleção da Europa e ninguém nos parava (note-se que na fase de grupos só passámos por uma nova regra instituída do terceiro melhor num grupo, sendo que antes só passavam os dois primeiros, e que chegámos à final com apenas um jogo ganho nos 90 minutos regulares).


Falemos da Eurovisão. Como sabem, muita gente gostava da música apresentada por Salvador e Luísa Sobral, mas como sempre achávamos que era muito melancólico, um bocado seca, monótona e que nunca iria passar na Eurovisão porque o que eles gostam é de fogo de artificio e danças exuberantes. A maior parte dos portugueses nem acompanhava já a Eurovisão, ritual antes apregoado nas casas das famílias portuguesas. De repente, Salvador conquistou os europeus e a música era a melodia mais bela composta desde há muito tempo, que a música portuguesa era, de facto, única e que finalmente éramos o exemplo de música de qualidade, de valor e de muita profundidade e sentimento - remetendo sempre para o orgulho que Amália sentiria se estivesse viva (não, não é desta que vou falar de Amália).


Em Março de 2020, já o vírus se tinha andado a divertir pelos países da Europa e Portugal continuava a ter casos suspeitos que davam sempre negativo. E nós celebrávamos, “este não nos apanha”. Chegou o primeiro, nós rimos. Os casos começaram a aumentar, era normal, mas fomos verificando a curva a achatar e os portugueses a ficar em casa, muito ordeiros, contrariamente ao que se diz de nós. O SNS não esteve sobrecarregado, a taxa de mortalidade é das mais baixas, mesmo com a população envelhecida que temos, o rácio do contágio era pequeno. Tornámo-nos o milagre português no estrangeiro, éramos exemplo, mais uma vez de peito cheio sorrimos, fizemos hábito da máscara e começámos a desconfinar com toda a confiança e segurança. Para a crise que é, até pareciam tempos tranquilos em que tudo e todos se encontravam em concordância na Assembleia da República e o próprio Primeiro Ministro apoiou um candidato, por norma, apoiado pelo maior partido da oposição. As “politiquices” pareciam ter adormecido em prol da saúde pública e nós portugueses unimo-nos. Os meios de comunicação social conseguiram até não ceder à tentação de falar única e exclusivamente da covid-19, abrindo espaço na sua programação para o caso de Tancos, Isabel dos Santos, Orçamento Suplementar e os mais variados assuntos que poderiam ser finalmente abordados em esplanada, para evitar o evidente elefante.


No entanto, o que seria de um bom português sem os seus desatinos? As discordâncias começaram a surgir no parlamento, as indiretas de culpabilidade a surgir nas entrevistas exclusivas, os erros de comunicação do governo e da DGS, as medidas sem sentido implementadas, os casos a aumentar na Grande Lisboa, a TAP num vai não vai, acusações interinas no PS, Rui Rio a negar o racismo, enfim, um dia normal dos tempos pré-covid. Porém, como esses tempos já só existem no passado e, por muito que gostemos do saudosismo e de os relembrar e reviver, estes acontecimentos parecem ainda mais pesados do que eram, na altura.


Cada palavra, gesto, resultado é visto, encarado e anotado e, para os mais atentos, é extremamente notável que anda tudo aos papéis. E, claro, agora o único milagre português é como é que ainda temos chão para andar ou algo com que sonhar. Não quero ser terrivelmente pessimista, hábito forçosamente nosso (já repararam que adoro anunciar características aportuguesadas?), mas quando temos um PM que tudo o que faz é sorrir para os jornalistas e ajeitar os óculos - que claramente precisa de apertar no oculista - que opção é que tenho? Para haver um equilibrio, para se chegar ao ponto realista e ter os pontos nos i’s, é preciso contrabalançar o estrondoso optimismo de Costa com o tenebroso pessimismo do cidadão comum português. Pode ser que, assim, alguém concilie ambos e avance com qualquer coisa de concreto.


Portanto, fomos excepcionais no confinamento, somos um desastre no desconfinamento. O problema foi a venda de peixe inicial de que éramos uns heróis. Pois agora somos vilão, nem os britânicos nos querem e, quando isso acontece, já sabemos que não há muito mais margem de manobra. É muito raro um britânico descartar a possibilidade de se metamorfosear em lagosta em pleno verão algarvio. O meu irmão sempre me disse, quanto mais expectativas tenho dos outros e de mim, mais desiludida fico depois e, de facto, foi mesmo isso que se sucedeu. Batemos as nossas palminhas, cantámos as nossas músicas, fizemos aqueles vídeos amorosos que apareciam no final do telejornal da SIC com o nosso novo Camões - Rodrigo Guedes de Carvalho — e tudo parecia melhorar porque tivemos um comportamento exemplar. Os números, agora, sobem um pouco, o rácio de contágio é o segundo maior da europa - onde vários países tiveram uma curva maior que a nossa, sendo o seu decréscimo, consequentemente maior e considerável - e pronto, castigam-nos: Tiram-nos as bebidas alcoólicas. E somos terríveis, péssimos, uns indisciplinados, mal formados, não temos contenção em nada e nem podemos beber para esquecer esse fado terrível que nos assombra desde a delimitação das nossas fronteiras.


O que quero concluir com isto é que o português tem de ser relembrado vezes e vezes sem conta que é meramente medíocre. Não somos óptimos, não somos terríveis, somos médio. Somos aquele café das cinco da tarde combinado à ultima hora, em que pensamos “até ia um cafezinho”, aquele filme que a sinopse não nos cativou muito, mas precisávamos de ocupar a tarde e “até se vê bem”, ou aquele jantar que nos fazem com restos de carne e batata palha que “até se come”. A culpa do não reconhecimento da mediocridade é de todos os poetas, músicos e artistas que ou tanto vangloriavam Portugal e os portugueses, como nos criticavam nas suas farpas e mal dizeres. Mas, lá está, eram portugueses, não sabem dosear o sentimento. O que se devia ter feito era responder sempre com racionalidade: conquista de Ceuta? Foi ok. Plantação do pinhal de Leiria? Deu jeito. A obra de Camões? Lê-se. Revoluções pacíficas? Até nem foram más. O que temos que definir logo à partida é que somos “assim-assim” e nunca mais nos desiludimos.


Se Amália estivesse viva, dir-lhe-ia isto tudo e pedir-lhe-ia para me cantar o Fado Português. Ela perguntar-me-ia "qual?" e eu responderia “o melhor”. De seguida, cantaria o fado que eu mais detesto. Acho isto, porque ser-se português é amar imensamente algo e esperar o pior disso. E é por isso que somos o melhor povo, mas o pior país.