Um dia Histórico

A Escola Nacional de Saúde Pública estima que apenas 2% dos portugueses recusa a vacina para a covid-19. No entanto, 65% preferem “aguardar” até serem vacinados, um sinal claro de desinformação e desconfiança por parte da população.

Por Maria Madalena Freire

Mestrado em Jornalismo NOVA-FCSH

Não creio que seja sensacionalista, apenas sentimentalista. A minha mãe sempre me disse que vivia tudo com muita emoção - tanto para o bom, como para o mau. Neste dia, 27 de Dezembro de 2020, Portugal iniciará o processo de vacinação pelo território nacional. Esta pode ser a tal luz ao fundo de um dos maiores túneis (ou pelo menos um túnel com trânsito) de que tanto esperávamos.


A Escola Nacional de Saúde Pública estima que apenas 2% dos portugueses recusa a vacina para a covid-19. No entanto, 65% preferem “aguardar” até serem vacinados, um sinal claro de desinformação e desconfiança por parte da população.


Vamos ao factos.


“Normalmente, as vacinas demoram uma década a serem desenvolvidas. Porém, para a covid-19 nem 1 ano demorou. Não é de confiança, nem credível.”


Resposta: Esta é uma das maiores e mais aliciantes justificações para a recusa da vacina.


Desde os interesses económicos das farmacêuticas para faturar com a sua rapidez, até ao “saltar” de fases pelas mesmas, o tempo que levou à vacina chegar causa incertezas. O que se apressou foi a logística, não o processo científico em si. Para que uma vacina seja aprovada e aplicada, são necessários inúmeros processos burocráticos. Até, muitas vezes, estas são travadas na aprovação por interesses econômicos de outras empresas ou farmacêuticas. Algo que, na pandemia, não faria sentido, dado que ninguém beneficiaria do seu entrave. Nisto, as fases do processo não foram “saltadas”, mas feitas em simultâneo, exemplo disso será a produção da mesma ao mesmo tempo que se esperava que fosse aprovada (na esperança que fosse, de facto)


Não só isso, mas a base da vacina da covid-19 já tem origem no SARS e MERS, que surgiram em 2002 e 2012, respetivamente. Dessa forma, os cientistas já conheciam a biologia dessa família de vírus, como é que se comportava e a sua fraqueza — a "proteína da espícula" (os 'espinhos' que formam a 'coroa' do coronavírus). É, então, uma vacina sustentada num estudo com já 20 anos.


Como é que a vacina funciona, de facto. (covid-19 vaccine for dummies)


Tendo como base a vacina da Pfizer e da Moderna, até é francamente compreensível o funcionamento da vacina no nosso sistema. A covid-19 (Sars-cov-2) é constituída por espículos de proteína cujos utiliza para penetrar as células humanas, infetando. Daí, o alvo para o tratamento seria esse, o verdadeiro causador da infecção.


Simplificando, as vacinas desenvolvidas por estas empresas usam tecnologia mRNA. É introduzido no corpo um mensageiro de ácido ribonucleico, que contém informação genética sobre o vírus. A partir daí, com essa informação, o próprio corpo produz a tal proteína única localizada nos “espigões” do coronavírus. Consequentemente, o sistema imunitário reconhece que este elemento é “estranho” ao corpo, produzindo anticorpos contra a dita proteína. Assim, após a produção desses anticorpos no sistema, os espigões com a proteína da covid-19 já não conseguirão penetrar as células do nosso sistema, agora com defesas suficientes para combater a infeção.


Não penso que seja necessário abordar os microchips de controlo que vêm com a vacina, simplesmente não leiam George Orwell mais que uma vez e não levem o livro de forma literal.


É um dia histórico, Graça Freitas sabe-o, Marta Temido sabe-o e qualquer pessoa informada o sabe. Não tomar a vacina é desconfiar por desconhecer. Conheçam os factos, confiem na ciência e tomaremos um copo quando o dia chegar.