Trump, Kanye e o espetáculo feito política

Nota prévia: o uso dos pronomes femininos e masculinos alternados é uma escolha própria da autora para que não tenha uma escrita discriminatória, nem tender para nenhum dos lado, de acordo com a sua visão.



Crónica de Inês Tielas


Quando Trump foi eleito, alguns ficaram surpreendidos, outras nem tanto, mas certamente todos souberam, nesse momento, que se havia inaugurado um novo momento da política norte-americana e mundial.


O que é que Trump trouxe de diferente? Há quem diga que é a retórica hiper-nacionalista, como se os Estados Unidos não fossem, desde a Segunda Guerra Mundial, o país que mais nacionalismo injeta desavergonhadamente nos seus cidadãos. Outros consideram que as suas ideias conservadoras e hiper-capitalistas são mais perigosas que as de outros presidentes, como se Trump tivesse inventado os travel bans, os campos de detenção de imigrantes, os presentes fiscais a empresas multi-milionárias com base nas falhadas premissas da economia trickle-down ou o desdém pelos factos ao nível presidencial (lembram-se de quando se jurou a pés juntos que havia ADM (Armas de destruição maciça) no Iraque? Ou de como, ignorando toda a evidência científica, presidente atrás de presidente decidiu enfrentar as crises do HIV, do consumo de droga, e da saúde reprodutiva como se fossem cruzadas morais?). Não, Trump não se distingue pelo nacionalismo, conservadorismo ou amor cego ao capitalismo. Aquilo que Trump trouxe de novo para a política internacional, e que novos pretendentes ao trono começam a imitar, é a arte do espetáculo.


Não quero com isto dizer que as políticas de Donald Trump não são perigosas, apenas que, quando comparadas com as de outros presidentes, há mais continuidades que ruturas. Não é ao nível da policy, mas sim ao nível do discurso que se encontram as diferenças mais substanciais: os presidentes anteriores sentiam a necessidade de fingir que o que diziam era verdade e empiricamente comprovável, mesmo que não o fosse. Os outros presidentes sentiam-se atados a convenções de decoro e de discurso, não se consideravam livres de aparecer claramente drogados em público, nem de dizer tudo e o seu contrário no espaço de minutos. Trump quebrou com tudo isso: em voz estrondosa e cheia de gralhas, tem a coragem (ou o descaramento) de dizer qualquer parvoíce sabendo que nenhum dos seus votantes se vai lembrar do que ele disse, apenas da forma como ele o disse, e que as suas oponentes se vão esforçar tanto em analisar e gozar com o que ele diz que se vão esquecer de reparar no que é que ele faz. Trump preencheu de tal forma o espaço público com a sua voz e os seus maneirismos que, em certo sentido, fez da Presidência o reality show mais badalado dos últimos quatro anos, oferecendo-se a si mesmo uma liberdade de atuação sem precedentes: os campos de concentração da ICE ( U.S. Immigration and Customs Enforcement, semelhante ao SEF português) não conseguem competir com o quão hilariante é o último monólogo delirante de Trump, pois simplesmente nada é espetacular que chegue para fazer frente à estrela da companhia – pelo menos até à pandemia ter começado a desfazer a cortina de fumo que, durante quatro anos, manteve a sua reputação e popularidade a salvo de qualquer crítica, escândalo ou crime.


Passados quatro anos as mossas são muitas, mas, se calhar, a consequência mais visível foi o quanto a forma de estar de Trump na política se tornou atraente. O primeiro a tentar imitar este estilo foi o bilionário Michael Bloomberg, cuja falta de credibilidade selou o seu destino – Trump consegue exibir-se rodeado de ouro e luxos e mesmo assim convencer-nos de que tem os mesmos interesses que a middle america, enquanto Bloomberg nunca deixou de parecer um vilão rico e poderoso dos filmes da Pixar. O mais recente copycat é, potencialmente, mais perigoso: Kanye West.


Kanye West já brinca com a ideia de se candidatar à presidência dos EUA há anos, mas poucas pensaram que alguma vez seria mais do que um meme, sobretudo desde que se tornou num dos melhores amigos de Trump. Contudo, agora parece ser a sério: o rapper já avançou alguns pontos do seu programa político, que conjuga críticas à brutalidade policial com posições cristãs altamente conservadoras, contando com o apoio de alguns bilionários, incluindo o CEO da Tesla, Elon Musk. O que é que tudo isto quer dizer?


Quer Kanye tenha sucesso ou não, a sua candidatura e, sobretudo, os moldes em que ela está a ser feita, são sinais de que Trump poderá muito bem sair da Casa Branca, mas que o trumpismo vai ficar estampado no imaginário político americano durante algum tempo. Kanye disse, em várias ocasiões, que “não é político”, “nem democrata, nem republicano” e que “não é preciso concordar com o Trump para se gostar dele”, pois aquilo que é verdadeiramente atraente em Trump é a sua “masculinidade” e o seu “método não-político de falar” por ser “futurista” e “capaz de vencer o modo politicamente correcto de comunicação”. Por outro lado, são também conhecidas as suas contradições políticas, oscilando entre a defesa das comunidades afroamericanas para a culpabilização das mesmas conforme lhe apeteça e a sua profunda ignorância e desinteresse de tudo o que seja história ou atualidade. A única coisa que importa para Kanye é o seu papel enquanto novo profeta, líder do rebanho, convencido de que tudo o que acha está certo e que a sua palavra é final – faz lembrar alguém, não faz?


Este modo de fazer política que da primazia à estética sobre o conteúdo não é novo, mas nem por isso deixa de ser experienciado enquanto novidade e, portanto, como apetecível. A camada mais rica da população sente-se particularmente atraída por esta espetacularidade, quiçá por ter fundos para manter a máquina de ilusões a funcionar indefinidamente, escondendo-se nos bastidores enquanto se fazem cortes ao estado social, oferecem descontos fiscais aos seus pares, criminalizam os sectores mais pobres e desfavorecidos da sociedade e esboçam estratégias que assegurem que o estado e as suas empresas multimilionárias dormem juntos todas as noites, em conchinha, como deve ser.

A candidatura de Kanye West e o apoio que parte do 1% está pronto para lhe dar não são mais do que a continuação dos últimos anos: depois de um presidente que tornou a política num espetáculo, aparecem novos atores que querem polir essa ferramenta, tornando-a mais jovem e mais atraente, mas não por isso menos conservadora ou doentia, aliando o egocentrismo apolítico e narcisista de Kanye, com a visão de futuro cyberpunk da elite económica. De pouco nos servirá repetir os erros que desde 2016 não deixámos de cometer: Kanye é risível, mas não é motivo para brincadeiras, pois tem os fundos, os apoios e os fãs para se tornar numa ameaça séria, se não agora, então daqui a quatro anos.


O espetáculo constante permite à cidadã comum libertar-se do fardo de pensar, tornando-se numa espectadora permanente, especada à espera de que o fim do mundo ponha fim ao seu aborrecimento, enquanto outorga liberdade quase total às elites para fazerem o que quiserem sem consequências – o escrutínio perde o seu poder se ninguém lhe prestar atenção. Trump abriu as comportas, que já estavam entreabertas, e fechá-las vai implicar mais esforço do que aquele que Biden consegue oferecer. Assim, Kanye pode não ganhar agora, mas só o apoio que tem já é uma vitória e uma manifestação das consequências estruturais que os últimos quatro anos tiveram na psique americana coletiva. Enquanto ao centro e à esquerda se continua com medo de imaginar novos futuros, a direita está pronta para uma nova era – e Kanye representa apenas a nova e melhorada versão desse movimento cleptocrata.