Superstição

Crónica de Beatriz Viana


Acordei de manhã com Superstition de Stevie Wonder preso na cabeça, mas da minha boca não sai um único som, muito menos assobio. Quem canta antes do pequeno-almoço, chora antes de sol-posto. Tenho um grande dia pela frente, nada pode correr mal. Visto-me rapidamente, cuecas azuis e camisola do avesso.


Entro na cozinha ainda desarrumada do jantar de ontem, e há azeite entornado na banca. Limpo rapidamente e, pelo sim, pelo não, atiro um bocadinho de sal no ombro esquerdo. Faço café calmamente e pesco as bolhas de ar que ficam em cima com a colher. Sento-me bem longe do canto da mesa, enquanto como exatamente 14 colheres de corn flakes com leite frio. Tenho comichão na palma da mão: é na esquerda ou na direita, quando dizem que vou perder dinheiro?


São 11:11. Não encontro as chaves do carro, é melhor atar o pano da cozinha à perna da mesa, a ver se aparecem, enquanto lavo os dentes e penteio o cabelo. Repito: vais arrasar, vais arrasar, vais arrasar. Ocorrem-me todos os cenários que podem acabar mal, bato três vezes na madeira: que o diabo seja cego, surdo e mudo. Preciso de calma, já foi há 7 anos que parti aquele espelho.


Chove, mas só abro o guarda-chuva depois de sentir as primeiras pingas. Caminho com passos largos e quase não reparo no escadote do prédio em construção. Desvio-me com destreza, mas dou 3 passos para trás. Raios. Traço duas cruzes com os pés no chão. Gato preto avistado, preciso de ver outro, rápido, para anular o efeito: okay, está ali mais um.


Chego finalmente ao edifício da reunião: pé direito, pé esquerdo. Tenho as orelhas quentes, será dos nervos?


“Pode aguardar junto da sala 13”.