Somos ou não?

Crónica de Vasco Maldonado Correia

Estudante de Comunicação Social e Cultural na UCP


Decorrem, neste momento, protestos contra a violência policial por todos os Estados Unidos. Desta vez, o foco é no Kenosha, Wisconsin, onde Jacob Blake, um afro-americano de 29 anos, foi baleado 7 vezes por um agente da polícia. Ao contrário do que aconteceu recentemente com George Floyd, Blake não morreu, mas encontra-se paralisado e não sabe se poderá voltar a andar. O incidente é apenas mais um, juntando-se aos inúmeros relatos de abusos policiais contra afro-americanos, dos quais não só Blake e Floyd se tornaram bandeira, mas também Breonna Taylor e Rayshard Brooks o são.


Ao mesmo tempo, em Portugal discute-se o racismo. O homicídio com motivações racistas de Bruno Candé por um idoso na principal avenida de Moscavide fez novamente soar os alarmes da discriminação racial no país. Infelizmente, ainda não avançámos na discussão. O debate do racismo em Portugal, ao longo dos últimos meses, especialmente desde os acontecimentos em Minneapolis, tem-se feito baseado numa simples premissa: “É Portugal um país racista?” Há quem grite que sim. Há quem jure a pés juntos que não. E nisto temos ficado. “Ai é, é.” “Ai não, que não é.” “É, sim senhor.” “Olha que não é.”


A infantilidade do discurso não é uma característica unicamente portuguesa, mas não deixa de estar presente na nossa opinião pública. Todos nós já teremos assistido – ou teremos mesmo participado – no debate sobre se existiu fascismo em Portugal, como se a resposta final mudasse alguma coisa ao que realmente aconteceu até 1974. A opinião pública é viciada em rotular para simplificar, e dinamita qualquer conversa que se possa ter em favor do progresso. Por isso, de pouco vale discutir se Portugal é um país racista ou não. Não passa de um autocolante – e não de um penso – que se coloca em cima do problema à espera que resolva alguma coisa.


Há muitas partes envolvidas neste debate. Algumas bem intencionadas, outras não tanto:


1 – Há as que acreditam que Portugal é, de facto, um país racista, e que pretendem, logicamente, resolver o problema;


2 – Há também as que, não acreditando que seja um problema geral, não deixam de conseguir identificar alguns sintomas, entendendo que o racismo que existir na sociedade tem que se combater, como grave problema social que é;


3 – Há os parasitas, que não tendo interesse no conteúdo do problema, vêm na sua existência uma boa plataforma para fazer barulho, aparecer, ganhar votos, e que por isso não têm também qualquer interesse no fim do debate, porque isso significaria a perda dessa mesma plataforma;


4 – E, por último, admitindo a existência de outros grupos mais minoritários, há uma grande franja da sociedade, vinda maioritariamente da classe média, que nunca passou pelo problema, muito menos lhe dedicou muita atenção, e por isso se está a marimbar para a situação. Lamentavelmente, o debate tem sido travado entre os primeiros e os terceiros. Os segundos são cada vez mais raros, e a indiferença (e falta de pachorra) dos quartos têm ajudado a estagnar o progresso. Os anti-racismo, tendo logicamente interesse na propagação do debate, e os anti-anti-racismo (queira lá isso dizer o que quer) tornam a pergunta “Seremos mesmo um país racista?” num ciclo sem fim à vista, que tanto se irá eternizar, que quando se chegar a uma resposta final, já ninguém saberá qual era o objetivo da discussão. Mas este arrastar só beneficia os negacionistas. E isso vê-se nas constantes “contra-manifestações” reacionárias.


Além disso, a pergunta é tão vaga que 2 pessoas podem estar a discutir coisas completamente diferentes sem o saber. O que é, sequer, um país racista? É um país que não tenha leis contra o problema? Ou um país em que todos os cidadãos são racistas? É outra coisa diferente? Provavelmente. Mas haverá uma resposta universal? E se sim, todos que estão envolvidos no debate a conhecem? Enquanto isto não for estabelecido – e nunca o vai ser – o debate vai continuar a emperrar.


É muito importante refletir sobre os nossos preconceitos, e sobre como a indiferença e desconhecimento das nossas próprias falhas prejudica quem está, teoricamente, abaixo de nós. Mas esta luta pela supremacia lexical não beneficia ninguém que queira realmente a mudança.


Por isso mesmo, o pragmatismo é urgente. Para não alimentar populismos, o mais sensato será aceitar que se existem, de facto, “focos isolados de racismo”, então é urgente combatê-los. Há racismo, combata-se. É urgente mudar o debate. Em vez de “Somos ou não racistas?”, devíamos estar já a pensar como anular o racismo existente na sociedade. Porque para uns, o racismo é pouco, para uns é assim-assim, e para outros é muito. Independentemente da posição, negar o problema é a maior prova de desonestidade possível. Que ele existe, todos (menos os radicais) estamos de acordo. Então, feito o diagnóstico, está na hora de pôr mãos à obra. Nos Estados Unidos, foi dado esse passo, e já se discutem as reformas policiais e prisionais.


Por cá, que o debate também se centre no mais importante. Que nos foquemos em garantir melhores condições de habitação para todos, maior inclusão, investimento e consciencialização nas escolas, mais civismo na opinião pública, menos marginalização de minorias. Não deixemos que a recolha de dados étnico-raciais continue a ser adiada em Portugal. Até lá, os resultados das sondagens da European Social Survey terão de servir. Nos últimos tempos, houve bastantes propostas aprovadas no Parlamento que vão no sentido destas melhorias, mas pouca gente as conhece. Estudá-las, e perceber quem votou a favor e contra, é um grande salto na direção certa. Porque ficar preso num debate único e infindável não serve, temos que ir mais longe. O fosso entre as classes sociais só exponencia o racismo. E, se o quisermos combater, é por aí mesmo que temos que começar.