Sobre políticos indecisos em tempo de decisões

Começo a escrever este artigo entre a primeira e a segunda volta das eleições legislativas francesas.

de Vasco Castro Pereira



Ainda com o outcome das presidenciais de Abril bem presente, o movimento Ensemble, do presidente Emmanuel Macron, partiu como favorito, venceu a primeira volta à tangente e irá manter, pelo menos, a maioria relativa dos deputados.



Também influenciados pelo resultado presidencial, no geral terrível para a esquerda, os partidos de esquerda - desde o PS de centro esquerda ao Partido Comunista, passando por ecologistas - uniram-se numa plataforma, liderada pelo França Insubmissa, de Mélenchon, mas abdicando de muito do radicalismo do candidato presidencial. E, pelo meio, a extrema direita de Marine Le Pen procura garantir um resultado sólido e um crescimento claro do número de deputados.



Como já disse, o Ensemble irá conseguir a maioria dos deputados, mas há territórios nos quais a segunda volta será disputada entre a NUPES, plataforma da união das esquerdas, e a Rassemblement National de Marine. As indicações de voto do Ensemble foram simples: entre a extrema direita e a esquerda não declaramos apoio a ninguém. E isto não incluiu apenas os territórios nos quais o candidato da NUPES era do PCF ou do França Insubmissa, mas também em casos de candidaturas lideradas pelo PS ou pelos Verdes (que, importa salientar, em França não são “vermelhos por dentro”, posicionam-se no espaço do centro esquerda social democrata e eurofederalista). Por outras palavras: entre o populismo, a xenofobia ou o racismo, e mais justiça social, combate às alterações climáticas ou uma reestruturação mais ou menos radical do modelo económico vigente, a direita liberal francesa não se consegue decidir.



Se sentiram alguma perigosidade nesta dúvida, é porque não perderam de todo o juízo. É efetivamente perigoso, sobretudo nos dias que correm, não tomar uma posição firme contra qualquer tipo de extremismo, populismo e discriminação, seja por eleitoralismo, seja por discriminação. Para um democrata, não deve haver dúvidas entre um projeto com diferenças ideológicas que podem ser debatidas no campo da democracia liberal e um projeto anti-democrático de ataque a direitos humanos fundamentais, liberdades e garantias.


Não há dúvida possível entre o projeto da NUPES para a sociedade francesa e o ideário neofascista de Marine Le Pen. Entre Le Pen e Mélenchon, poderiam levantar-se dúvidas na questão do discurso populista redutor “nós vs eles” existente dos dois lados, mas nunca vi nem ouvi o líder do França Insubmissa atacar a liberdade de imprensa ou direitos de minorias racializadas. Entre Le Pen (e a sua RN) e o PS? Ou os Verdes? É como eu, democrata de esquerda, ter dúvidas entre, num cenário tão assustador quanto irrealista, apoiar o PCTP-MRPP e a Iniciativa Liberal.



Não é de agora. Todos nós, democratas, tendemos a subvalorizar o perigo dos populismos e dos extremismos porque, na nossa bolha de privilégio, na qual aprendemos politics by the book e na qual não há lugar para sentimentos como desespero ou revolta contra o sistema vigente, eles nunca ganham. Muitos de nós não levámos a sério as presidenciais nos EUA em 2016, ou as presidenciais brasileiras de 2018, ou o Brexit, ou (em termos de “vitórias relativas”), as últimas legislativas ou as últimas presidenciais em Portugal, porque Trump, Bolsonaro, Farage ou Ventura nunca ganham. Até nos demos ao luxo de entrar em caprichos ideológicos, à direita e à esquerda, porque nem um lado nem outro representavam de forma pura as nossas ideias. Porquê fazer diferente, se é sabido que Trump, Bolsonaro, Farage ou Ventura nunca ganham?



Eis o problema: Trump, Bolsonaro e Farage ganharam. E Ventura não ganhou objetivamente, mas o Chega cresce a um ritmo acima do esperado pelo próprio presidente, e grande parte do povo já reconhece AV como principal oposição ao PS e a António Costa. E, ao contrário do que declarava outra profecia, essas vitórias não foram inconsequentes e tiveram impactos drasticamente negativos.


Nos EUA, para além de terem sido promovidas desigualdades económicas quase sem precedentes, Trump minou as instituições do sistema por dentro, a começar pelo Supremo Tribunal, fez aumentar a repressão policial e tirou os Estados Unidos dos Acordos de Paris.



No Brasil, todos os dias temos visto repressão contra minorias indígenas, ativistas e comunicação social, como aconteceu no caso recente do assassinato de Dom Philips e Bruno Pereira, e também a violência contra mulheres e comunidade LGBT+, e ainda uma gestão catastrófica da pandemia do covid-19, assentada no negacionismo.



O Brexit, que sempre foi levado até ao fim, trouxe uma nova realidade para a Europa, sem um aliado fundamental nos seus valores basilares, e para milhões de jovens britânicos que beneficiariam da livre circulação no espaço europeu, para além de ter despertado um trigger de ideias ultraconservadoras e islamofóbicas. O que havia antes não seria o mais ideal, seja política economicamente liberal para um militante de esquerda, seja um ideário socialista democrático para alguém de direita, mas qualquer um dos dois terá saudades do tempo em que se podia escolher entre estas duas (ou mais) realidades, e viver de forma harmoniosa com as mesmas, naquilo que é o jogo democrático.



Importa, no entanto, referir algo que é complicado de assumir para um dos “lados”, mas que tem sido consistente em todos os casos: quem quase sempre abre a porta aos extremistas, quer na política interna quer nas relações internacionais, seja com apoios, seja com indecisões, é a direita.



O que aconteceu em França é só um de vários casos que representam a forma leviana como o centro direita desvaloriza ou até acolhe a extrema direita. Portugal foi um bom exemplo, com situações que vão desde o acordo entre PSD e Chega nos Açores à ameaça de um acordo semelhante no Continente, não esquecendo todo o percurso do CDS, um partido notável para a democracia portuguesa, mas que albergou a pior direita pós-25 de Abril e, com Paulo Portas, adquiriu uma retórica anti-ciganos.


Outros casos, mais ou menos conhecidos, incluem o apoio dos neoliberais chilenos ao neofascista JA Kast, ou coligações entre partidos de centro direita e extrema direita em Itália, em Espanha ou nos Países Baixos. No plano internacional, há inventário para todos os gostos: Margaret Thatcher apoiou a ditadura de Augusto Pinochet, Thatcher e Cavaco Silva recusaram apoiar Nelson Mandela por o considerarem “um terrorista de extrema esquerda”, vários partidos do Partido Popular Europeu, entre eles o PSD e o CDS, recusaram condenar o totalitário húngaro Viktor Orbán e o seu partido Fidesz e, questionada sobre qual seria o seu sentido de voto no Brasil, Assunção Cristas disse que, entre votar num extremista de direita ou um candidato de centro esquerda, preferia não votar.



Alguém certamente estará a perguntar-se o porquê de eu não ter ainda falado da extrema esquerda, ou de regimes totalitários de esquerda, ou até de ditaduras fora do espaço político da direita. O facto é que encontrar algo que ligue o centro esquerda ou a esquerda moderada a esses regimes é como encontrar uma agulha no palheiro, e na esquerda radical não encontramos muito mais do que apoios simbólicos a alguns regimes iliberais de esquerda, sendo que, em muitos destes casos, como na América Latina, o apoio acaba por ser fundamental numa luta contra o imperialismo estadunidense.



Dito isto, não só não encontramos esses apoios e conexões, como mais rápido encontramos apoios financeiros a esses terríveis regimes de esquerda no centro e na própria direita, ao mesmo tempo que procuram sinalizar a sua virtude liberal apontando o dedo às esquerdas. Ora vejamos: em Portugal, o único partido que sempre denunciou a oligarquia angolana, de um regime que se assume como socialista, foi o Bloco de Esquerda. Enquanto isso, PSD e CDS beneficiavam dos milhões angolanos e segue-se o Chega na contenda.


O único político português proibido de entrar na China é o “terrível esquerdista” Francisco Louçã, pelas críticas ao regime totalitário e repressivo que é o socialismo com características chinesas. Quem parece ter gostado muito do socialismo com características chinesas? João Cotrim de Figueiredo, quando presidiu ao Turismo de Portugal.



Outro país que anda sempre na boca da nossa direita? Venezuela. Socialismo? Venezuela. Justiça social? Venezuela. BE, CDU, ala esquerda do PS? Venezuela. Bastante criativo, mas confesso que a mim Venezuela me lembra mais as negociatas de José Sócrates aquando do Magalhães, ou dos contratos milionários assinados por Paulo Portas com o governo de Chávez. Por fim, agora está na moda colar a esquerda à Rússia e a Putin. Quem acenou com vistos gold para atrair investimento de oligarcas russos? Quem se reuniu 25 vezes com Putin, incluindo em belos almoços e jantares para reforçar a amizade entre governos? Não foi o PCP. Nem o BE. Foram, respetivamente, Paulo Portas e Durão Barroso.



Há muitos motivos sobre os quais poderia especular. Desde o capitalismo no seu estado puro depender da exploração e da desumanização do trabalhador, a dar jeito encontrar um bode expiatório entre as minorias para não culpar o grande capital, a não ser efetivamente possível aplicar todo o programa neoliberal sem alguma forma de repressão sobre o desespero das massas. Seja isso, sejam puros caprichos ideológicos, prefiro não me focar tanto nisso, e mais em reiterar a chamada de atenção, com particular ênfase à direita, para o que está em causa.



Acreditámos, e alguns de nós ainda acreditam, que conseguimos fazer da bolha política um filme de Hollywood em que os maus nunca ganham, mas os maus ganham, estão a ganhar e vão aos poucos subvertendo essa realidade de finais felizes. É preciso termos uma postura de responsabilidade para garantir que esses erros não se repetem. E também perceber porque é que estes populistas iliberais continuam a ter tanto apoio. Mas isso é uma conversa para outro artigo e, já agora, uma conversa que é precisamente preferível acontecer em democracia.



P.S.: À data da publicação, já sabemos o resultado da segunda volta das eleições francesas. Ao mesmo tempo que o movimento liderado por Macron perdeu a maioria absoluta, a Rassemblement National consolidou-se como terceira força política e teve um resultado histórico, não menos interessante do que o da NUPES. Parabéns aos envolvidos.