Sobre o filme "La Haine"

Kassovitz, ironicamente numa das cenas, demonstra rapidamente um cartaz na rua que aclama a globalização: “Le monde est à vous”. Saïd risca apenas uma letra e substitui-a, confirmando claramente o contraste subliminar deste conceito: “Le monde est à nous”.





Crónica Aspas Aspas de Afonso Abecasis Gomes



Quando La Haine, de Mathieu Kassovitz, estreou pela primeira vez, em França, no ano de 1995, causou alguma agitação, devido a várias razões. A mais polémica terá sido pela discussão e representação dos subúrbios parisienses, os “banlieues”, ao retratarem o desemprego, a exclusão social, os conflitos raciais, a decadência urbana, a criminalidade e a violência. A outra foi motivada pela imagem depreciativa que a polícia tem no filme, considerada racista e opressiva. A última, e talvez a mais importante de todas, justificava-se pela ilustração da obra acerca dos problemas socio-culturais franceses.


A primeira cena, uma das mais emblemáticas introduções que já vi, demonstra um cocktail molotov a incidir a Terra, enquanto uma voz pronuncia: “Esta é a história de um homem que cai dum edifício de cinquenta andares. Durante a queda, vai-se assegurando de que está bem: Jusqu’ici tout va bien. Jusqu’ici tout va bien. Jusqu’ici tout va bien... Mas o importante não é a queda. É a aterragem.”.


A mesma história é proposta no próprio filme, com a sociedade a refletir o “homem que salta”. Ao introduzir esta declaração, Kassovitz anuncia a sua intenção de realizar uma análise ao irreversível colapso da França, da sociedade Ocidental, talvez até do próprio mundo, destruído pelo ódio, tomando como pretexto a desordem que invadiu os subúrbios de Paris em 1993, após a morte de um jovem de 16 anos, Makomé Bowole, natural do Zaire – atual República Democrática do Congo – que se encontrava sob custódia policial.

A escolha dos três protagonistas, um Argelino – Saïd; um Judeu - Vinz; e um Negro de ascendência africana – Hubert, que representam três minorias historicamente perseguidas, tem a intenção de incentivar a provocação a um grau ainda mais explícito, expressando, assim, um princípio que, confrontando um assunto universal, torna-se (in)direto e manifesta o detalhe.


O enredo do filme é marcado pela descoberta dum revólver por Vinz, que pertence a um polícia que o havia perdido durante os violentos motins do dia anterior, nos subúrbios de Paris. É esta ação que marca uma cadeia de eventos, sem uma ligação precisa de causa-efeito, mas que se acumulam um em cima do outro.


A atmosfera nas vizinhanças da capital é exaltante e o trio, perturbado pelo estado de saúde do seu amigo Abdel, em coma no hospital, por ter sido torturado pela polícia pouco antes dos mesmos motins, desenvolvem a sua luta, pessoal e pública, contra as autoridades: o primeiro símbolo da ordem social e do poder institucionalizado.


O absurdo da violência encontra, junto da escolha de fazer um filme a preto e branco – evitando, assim, a espetacularidade - uma razão na vida dos três jovens: esta violência, embora não seja totalmente explícita, torna-se palpável, num ponto de rutura em cada momento. É como se, em cada situação, ela fosse inevitável, desde a luta entre a juventude e a polícia ou os protagonistas e o grupo de skinheads.


Numa visão mais ideológica, Kassovitz, numa das suas entrevistas, pretende mostrar que o único impulso subserviente, existente no mundo ocidental, é o potencial explosivo da massa sub-proletária, ideologicamente livre, dos subúrbios metropolitanos e sem qualquer tipo de subordinação. No entanto, essa mesma violência nunca cria formas de expressão eficientes: para Kassovitz, é a prova de como as sociedades capitalistas conseguem funcionar sem o equivalente do socialismo, agora desestabilizado e “morto”. O filme mostra uma marginalidade variada e fragmentada, em detrimento duma união.


Há também um conflito de idades, onde o trio é oposto aos adultos que, quando estão presentes, parecem pertencer a outro mundo ou são uma presença a evitar, demonstrado uma impotência e dúvida sobre a estrutura familiar, claramente em falta.


Outro aspeto fundamental representado ao longo destes 98 minutos, presente no “verlan” (calão dos subúrbios parisienses), no influente rap americano e francês, nas músicas de Bob Marley, nos grandes filmes de Hollywood (a obsessão de Vinz por Taxi Driver e a respetiva e emblemática cena na casa de banho), nas massas multiétnicas, no comportamento policial, no uso indiscriminatório de drogas, é a simbologia da vida real: o panorama do desconforto metropolitano da sociedade pós-industrial.


La Haine é a testemunha da vida que floresce para lá de Paris; os subúrbios repletos de juventude rebelde que tenta rejeitar o papel que lhe é imposto pelo exterior: desde pequenos confrontos com a polícia, de onde nascem motins e uma consciência de “guerra” organizada, entre uma linha que separa quem vive no centro e nos “banlieues”. Entre uma capital, vivida como um sonho ou uma espécie de paraíso, do qual os protagonistas são inevitavelmente expulsos, e os inquietantes e abandonados subúrbios.


Assim, Kassovitz, ironicamente numa das cenas, demonstra rapidamente um cartaz na rua que aclama a globalização: “Le monde est à vous”. Saïd risca apenas uma letra e substitui-a, confirmando claramente o contraste subliminar deste conceito: “Le monde est à nous”.


Até a relação entre os 3 amigos e a cultura/media é inexistente, quase que inútil naquela comunidade. A cena da discussão com o grupo de repórteres retrata como as televisões espectacularizam os motins, usando os subúrbios como uma fonte de “trash news”. Da mesma maneira, a cena onde o trio se encontra numa galeria de arte é o perfeito exemplo de que a cultura e a tradição não conseguem mudar a vida dos marginalizados, quase como uma luta entre alta cultura e cultura de massas, reforçando o enclave da urbe francesa.


La Haine é, de facto, O Ódio, uma ressonância dos problemas estruturais e sociais que ainda hoje afetam a França e toda a complexidade do processo de inserção das massas migratórias, mas também a Europa, embebida numa verdadeira crise de refugiados, onde o choque cultural está longe de terminar. Até do outro lado do Atlântico a realidade não escapa a esta caracterização, particularmente ao comportamento das autoridades americanas face a quem não seja, essencialmente, branco.


No fundo, trata-se de uma Ode crua a este encontro entre a Globalização e a Sociedade Ocidental.