Sem palavras para o cinema

O que é que se faz no primeiro Domingo de cada mês? Se já se cruzaram com a nova rubrica do Jornal Crónico – “Isto não é um cachimbo, é arte ao Domingo” –, saberão certamente como ocupar o melhor dia da semana. No meu caso, no primeiro Domingo deste mês, não foi um cachimbo, foi o Museu de Serralves e os seus jardins.

de Teresa Brito e Faro



Contava aproveitar a manhã com um passeio de t-shirt no treetop, sob o sol abrasador de fevereiro, esperar que a multidão de famílias que fez fila antes da hora de abertura evadisse o museu e finalmente ir ter com Ai Weiwei, Mark Bradford, Louise Bourgeois e Christina Kubisch. Concretizou-se o plano, mas corri as exposições destes artistas com a pressa de quem não queria ser levada às cavalitas lá para fora, à frente daqueles espanhóis todos, por um segurança que tinha melhores planos para aquele dia de trabalho.



Não perdi a manhã a analisar a flora, nem a andar por cima das copas das árvores – ganhei-a numa exposição cuja existência desconhecia, na Casa do Cinema Manoel Oliveira.



“O Princípio da Incerteza” intersecta as obras de Agustina Bessa-Luís e Manoel de Oliveira, que colaboraram em inúmeras adaptações cinematográficas de textos da autora.


No contexto português, será difícil encontrar uma parceria entre autores de áreas diferentes com tanta relevância como esta, o que levou António Preto, curador, a inaugurar a exposição em dezembro do ano passado.



Numa pequena sala, concentram-se tesouros que datam das décadas de 80 e 90: rascunhos, guiões, cadernos, livros anotados, cartas e artigos de jornal. Em vários ecrãs, são reproduzidas diferentes cenas das adaptações – são mais de dez textos de Agustina que habitam a obra cinematográfica do cineasta, dos quais sete foram expressamente encomendados.



Esta relação criativa não foi pacífica ao longo dos anos, o que se reflete nas trocas de impressões que encontramos nas cartas e apontamentos expostos. Pelo que depreendemos das repetidas discussões e provocações, não restam dúvidas de que tinham visões muito diferentes sobre a arte que, em conjunto, produziam. Ainda assim, o tom com o qual se dirigiam não era senão de enorme admiração, respeito e amizade.


Depois de uma zanga provocada pelo filme “O Convento” (1995), que levou Agustina a exigir que o seu nome fosse retirado do genérico, reconciliaram-se rapidamente e trabalharam juntos até 2005.



Viviam estas desavenças como se Agustina personificasse a literatura e Oliveira o cinema. A primeira com os seus textos complexos, de difícil adaptação por lhes faltar uma narrativa linear e convidativa. O segundo com uma enorme vontade de traduzir o génio da autora para o ecrã, com uma grande preocupação literária e dando peso à palavra, cedendo aqui e ali para que esta continuasse a corresponder às suas solicitações.


O cineasta preocupava-se, naturalmente, com o projeto final do filme, enquanto a autora vincava os termos e condições de utilização do seu trabalho: o rigor e a preservação da sua visão original e sincera da obra.



O documentário de Daniel Segre, “Conversas no Porto”, é essencialmente uma conversa entre os dois, onde discutem – no sentido estrito da palavra – sentimentos, memórias e visões sobre a criação artística. Se as palavras instigadoras constantes das cartas não chegassem, fica aqui a prova de que os dois tinham poucos pontos de convergência. Apenas graças à teimosia de ambos é que a sua colaboração marcou o cenário cultural português da forma que fez e é desta colisão que nascem os frutos mais brilhantes dos autores.



Num depoimento publicado em 2006 sobre Manoel de Oliveira, Agustina escreveu “A função própria do cinema é apaixonar. Outras artes são mais medidas pela meditação. Mas tudo o que é visual encontra logo o coração das pessoas e as faz comover e sonhar.” Parece-me que tenha acertado em parte: o visual pode encontrar corações e é verdade que o cinema deve apaixonar, mas não o faz sem uma boa história.