Schubert e Lux Frágil: n'"A Boca do Lobo"?


No passado dia 16 de Janeiro, assistiu-se a uma união improvável entre música clássica, pintura ao vivo, refugiados e uma discoteca. Martim Sousa Tavares, o maestro de 28 anos que procura livrar a música clássica do seu estigma de erudição, escolheu levá-la ao Lux Frágil. A iniciativa constitui, sem dúvida, um passo no caminho da aproximação deste género musical a um público que o pode sentir distante.


Este foi o primeiro, de um ciclo de seis concertos denominado “A Boca do Lobo”, título que é revelador de uma certa ousadia que o projecto transparece, não deixando de transmitir a sua ambição. As sessões decorrerão uma vez por mês no Lux, até ao mês de Junho. Segundo o site do projecto, “A Boca do Lobo é sobre utopia. É uma aventura em direção a territórios desconhecidos de excitação e desafio (...) existe porque a arte não pode estar viva se não for guiada pela descoberta”.


Neste primeiro espectáculo, foi explorada a temática dos refugiados. Com a participação de artistas escolhidos tendo em conta as suas experiências pessoais nessa difícil posição, quem se encontrava no Lux às 22h deixou-se imergir numa interpretação da obra “Viagem de Inverno” de Schubert, em piano e voz, aliada a uma sessão de pintura ao vivo. Para cada um dos 24 andamentos da peça, escritos a partir de 24 poemas de Wilhelm Müller, o artista plástico produziu uma tela, em tempo real, relacionada com a interpretação musical que acontecia e se ouvia. As pinturas foram sendo expostas no próprio espaço do concerto e o valor da sua venda doado a uma instituição de caridade para refugiados.


A proposta, tal como foi explicada pelo curador no início do espectáculo, consistia em que o público se entregasse a um exercício de “perda consciente”, característica do refugiado que está ciente do que deixa para trás, mas que mesmo assim arrisca a mudança. A disposição da sala procura incentivar este movimento: não é possível assistir à interpretação da peça do compositor austríaco e à pintura ao vivo de Fidel Évora, em simultâneo, forçando o indivíduo a escolher em contínuo a que parte do espectáculo quer assistir. Para cada um dos 24 andamentos da peça, que retrata uma migração melancólica, o artista plástico produziu uma tela relacionada com a interpretação musical que acontecia ao mesmo tempo.


O emblemático espaço de diversão nocturna lisboeta não poderia ter sido melhor escolhido. Apesar da sua audácia artística não ser desconhecida a quem o frequenta, não deixa de surpreender ver uma iniciativa construída em torno da música clássica ser proposta no espaço de uma discoteca.


A proposta deste ciclo de concertos é, certamente, inovadora e ambiciosa, tem o objectivo de “inspirar novos significados e fazer da música caminho para pensar e sentir para além do quotidiano”. Sendo apresentada num formato refrescante, promete atrair público diversificado, disposto a viver experiências únicas e irrepetíveis e a desconstruir a imagem que tem da música clássica e do seu modo convencional de apresentação.

Francisco Proença de Carvalho