Sara Barros Leitão e a Beleza, não de matar fascistas, mas de um Clube de Leitura

Heróides é o nome do novo Clube de Leitura Feminista criado por Sara Barros Leitão, inspirado pelo livro de Ovídio – onde as heroínas da mitologia romana e grega, que foram negligenciadas, escreviam cartas aos seus amantes.

Crónica de Mafalda Guedes Vaz

Licenciada em Direito, FDUL


Sara e Heróides são dois nomes que devemos guardar na memória para a notícia que trago hoje. Porquê? Porque estes se traduzem num sinal de esperança para 2021 e numa excelente forma de acabar este tão detestado ano de 2020.


Sara Barros Leitão, natural do Porto, tem 30 anos e é atriz, encenadora e dramaturga. É politicamente ativa, feminista e habita nela uma vontade gritante de mudar o mundo. A sua palavra preferida é “Revolução”. Esta atriz, que tudo tem para singrar, recebeu, no passado dia 15 de Dezembro, o Prémio Revelação Ageas Teatro Nacional D. Maria II.


O Prémio Revelação tem o valor pecuniário de 5000€ e é “atribuído anualmente a um profissional de teatro, que tenha até 30 anos de idade, e cujo trabalho artístico se tenha destacado no ano anterior à atribuição do Prémio”. O júri foi composto por 15 grandes profissionais – Albano Jerónimo, Álvaro Correia, Beatriz Batarda, Carlos Avilez, Catarina Barros, Cristina Carvalhal, Inês Barahona, John Romão, José António Tenente, Marta Carreiras, Mónica Garnel, Nuno Cardoso, Rui Horta, Rui Pina Coelho e Tónan Quito.


2019, o ano a que o prémio se refere, foi de escolhas difíceis na vida de Sara - deu aulas, escreveu e criou. Foi um ano em que decidiu escrever e construir dois espetáculos, encenou-se a si mesma e a outros, confiou que era isto o que queria realmente fazer e foi através do Prémio Revelação que viu o seu currículo artístico ser reconhecido.


Já em 2020, integrou o elenco da peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, de Tiago Rodrigues, que continuará em cena em 2021, e criou “Cassandra”, financiado através do valor alcançado com a obtenção do Prémio Revelação.


A estrutura de criação artística a que me refiro, Cassandra, tem planeado para 2021 três projetos – um Espetáculo (“Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa”), um Podcast e um Clube do Livro. Neste dia, em que o nosso Jornal Crónico decide lançar as suas sugestões literárias, seria impossível não falar sobre este último projeto.


Heróides é o nome do seu Clube de Leitura Feminista, inspirado pelo livro de Ovídio – onde as heroínas da mitologia romana e grega, que de certa forma foram negligenciadas, escreviam cartas aos seus amantes.


Foram já revelados onze de doze livros, escolhidos por pessoas convidadas pela atriz – convidados estes que Sara admira e com quem quer aprender, como Sara Carinhas, Shahd Wadi ou Marco Mendonça. Dos livros, podemos destacar “Todos Devemos Ser Feministas”, de Chimamanda Ngozi Adichie; “As Ondas”, de Virginia Woolf ou “Medeia”, de Eurípides. Todos os livros têm até um valor de 20€ e aconselha-se que sejam comprados numa livraria de bairro, de forma a ajudar o comércio local.


As regras para pertencer a este clube são as seguintes: possuir um dispositivo eletrónico com acesso à internet (as sessões terão lugar na plataforma Zoom); ter vontade de escutar, debater e aprender; não serão permitidos discursos que atentem contra a Constituição; as sessões não serão gravadas e, portanto, quem participar não deve captar ou divulgar as imagens das mesmas. A 1 de janeiro de 2021 abrem as inscrições para a primeira sessão online, que terá lugar dia 30 de janeiro, sábado, das 11h às 13h. A inscrição é gratuita.


Sabemos que a injustiça da desigualdade é algo que incomoda Sara e que a faz mover, por isso acredito que este clube possa ajudar a combater alguma desta desigualdade existente. Numa das várias entrevistas que Sara deu, a atriz refere que desvalorizar o feminismo é descaracterizar e descredibilizar as lutas e as pessoas que estão invisibilizadas. Não devemos desvalorizar um testemunho - devemos ter, pelo contrário, a humildade de, muitas vezes, assumir que nos encontramos numa situação de privilégio e tentar utilizá-lo para ajudar quem não se encontra na mesma situação. O Feminismo permite ver e atuar nessas desigualdades. Este Clube de Leitura, através das suas conversas informais, promete permitir esse mesmo debate, numa época em que a sociedade necessita tanto de ouvir estas vozes.


Que alegria e quão importante é poder aliar a leitura e a discussão de um livro, com um tema que é tão fundamental para a sociedade, onde toda a gente pode ser ouvida. Dito isto, tudo parece culminar para a inevitabilidade do sucesso de Sara, Cassandra e Heróides.


De uma jovem de 23 anos que não quer viver na ausência de inquietações de pensamento – obrigada Sara.