São estes os nossos “Loucos Anos 20”?

Um século depois, as vontades são as mesmas. Mudaram-se os tempos, mas não se mudaram as vontades. Mas não se enganem, a História não se repete

Crónica Aspas Aspas de Inês Serra

Estudante de Direito na Universidade Nova de Lisboa



A minha professora de História sempre nos ensinou “a História não se repete!! Isso é um erro”. Entendo o que ela queria dizer, não estejamos nós a retirar a unicidade de cada acontecimento histórico, resumindo-o a apenas mais um que vai cair no cesto das “epidemias”, das “crises”, das “guerras”. Não devemos retirar os adornos e especificidades de cada situação com que nos deparamos, caindo na falácia de as tornar quadradas, isto é, todas iguais.


Mas se a história não se repete, certamente que se reflete.


Há uns perturbados e complicados 4 meses entramos em 2020. Os “nossos” anos 20. Escusado será dizer que não se trata simplesmente da década de 20 do século XXI... são os loucos anos 20. Os nossos loucos anos 20.


Recuemos exatamente um século. Deparamo-nos com uma década marcada por uma ânsia de viver, uma sede insaciável de aproveitar a vida, partilhada por todos os que tinham passado pela novidade horrorífica que foi a primeira guerra. Postura compreensível. Poucos anos antes, todos passavam por uma crise social, cultural e económica instaurada com a guerra. Muitos perderam os seus entes queridos, deixando muitos planos a metade, muitas palavras por dizer.


Ora, curar um excesso leva normalmente a um outro excesso. O que faltou em lazer, diversão e leveza na vida, em tempos, havia agora de sobra. Festas, serões, carros, vestidos... televisões, jóias, álcool, sexo, casarões, tudo o que de alguma forma servisse de droga alucinogénica que fazia esquecer as feridas deixadas por um passado de destruição.

Acrescente-se novamente 100 anos à equação. Um organismo que não vemos veio mudar a vida tal e qual como a conhecemos, assim como a nossa forma de olhar para ela. As nossas vidas calmas, serenas e afastadas de qualquer guerra (na verdade não tão longe assim) foram postas em pausa. Os nossos planos, festas, viagens, trabalhos e negócios foram, em parte, colocados em modo stand by. Hoje estamos fechados em casa e, fora as horas de trabalho e o tão conhecido workout de quarentena, estamos parados. Parados, com tempo de sobra que não sabemos se as nossas mãos conseguem preencher. Fomos obrigados a parar a corrida que é o nosso dia-a-dia e a ficar em casa.


Não me interpretem mal, há 50 mil formas de ocupar o nosso tempo em casa de forma a não estarmos literalmente parados. No entanto, para as nossas vidas apressadas, ficar em casa é contranatura, contraproducente. A nossa casa é o local de descanso, onde chegamos todos os dias estafados e com uma vontade colossal de enfiar os pés na cama. Agora, a vontade mudou. Ansiamos pelo dia em que possamos tirar os pés da cama e colocá-los na rua, a caminho do trabalho, a caminho de um jantar com amigos, até mesmo a caminho do comboio ou do metro. Quem diria.


Cresceu a vontade de viver. As coisas pequeninas e banais de sempre, são agora a nossa vontade primeira. Queremos sair de casa. Não importa para onde. Queremos andar na rua só por poder andar na rua. Queremos ir à praia, encontrar amigos, viajar, correr, ir dançar a um bar, dizer o que nos ficou preso no peito por medo de dizer, fazer aquilo que faltou a coragem para fazer. Queremos viver, não só sobreviver.


Um século depois, as vontades são as mesmas. Mudaram-se os tempos, mas não se mudaram as vontades. Mas não se enganem, a História não se repete.


Gosto principalmente de acreditar que não se repete porque conseguimos olhar para as parecenças com o passado e perceber que, se continuarmos na mesma estrada, vai dar errado. “O que seria” de nós saber que vai dar errado e não fazer nada para mudar. Quantas vezes já não olhamos para a História e pensamos “claro que ia dar torto, já sabiam e mesmo assim continuaram... imbecis?


Queremos viver os nossos loucos anos 20, e daqui para a frente certamente que loucos eles serão. Mas há que notar a loucura que pretendemos assumir. Não vamos nós acabar por ser loucos ao ponto de embater num novo Crash, não meramente económico (que virá inevitavelmente), mas climático também. Que esta nossa vontade de viver, de recuperar os dias fechados em casa, de recuperar a produção perdida, não nos faça destruir completamente o sítio que nos dá vida.


Que sejamos loucos ao ponto de amar sem hesitações, de confiar nos nossos instintos e de nos atirarmos de cabeça ao que sempre quisemos fazer, mas nunca conseguimos. Mas por favor, não sejamos loucos ao ponto deitar ao lixo os progressos conseguidos com esta pandemia (ainda que poucos), especialmente os ambientais. Não sejamos loucos ao ponto de destruir por completo o lugar que habitamos. Porque se assim for, não restam dúvidas... A História não se repete. Acaba.