Rosa de Hiroshima

É assim que a cidade se apresenta, brilhante sob os holofotes do mundo, calorosa e firme na memória comum, mas endurecida pela falsa solidariedade e pela estigmatização. Há distância entre a história de quem relembra os momentos de terror e a cidade de vidro.



Crónica de Carolina Peixoto de Carvalho

Para a rubrica Aspas Aspas



Hiroshima floresce entre o negro nevoeiro do passado. Pelas ruas surpreendentemente frias espalham-se 1.19 milhões de cabeças, entre arranha-céus de vidro e luxuosos shopping centres, à espera da chamada da noite, popular e excêntrica. É uma cidade de verdes e azuis vibrantes, pintados sobre largas avenidas e espaços abertos. No entanto, é também uma cidade de “memorialização”. Mais de 75 monumentos, grandes e pequenos, brotam como ervas daninhas em parques e calçadas, como se o vento da memória os tivesse dispersado pela cidade. Assim, ao mesmo tempo que a cidade cresce e evolui, todos relembramos Hiroshima como palco da primeira explosão nuclear, utilizada como arma, a 6 de Agosto de 1945.


As árvores genealógicas da cidade, que à época da desgraça não tinha mais de 135.000 pessoas, parecem inexoravelmente traçáveis aos Hibakushas. Esta comunidade, composta por aqueles que viveram o horror, fecha-se na viva coletividade humana para suportar a frágil memória do passado, criando uma triste mitologia que nos tenta precaver do próximo e fatal encontro nuclear. No entanto, por estranho que pareça, os poucos sobreviventes vivem na escuridão da vergonha, manchados pelo condicionamento genético. As pessoas comuns falam de veneno, os intelectuais de radiação. Numa terra destinada a morrer, os Hibakushas são a semente do horror, a peste que não infesta, mas assusta.


É assim que a cidade se apresenta, brilhante sob os holofotes do mundo, calorosa e firme na memória comum, mas endurecida pela falsa solidariedade e pela estigmatização. Há distância entre a história de quem relembra os momentos de terror e a cidade de vidro. O encontro súbito com o fim deixou nas vítimas um tema perpétuo e inabalável: a proximidade e o encontro com a morte, assim como o voraz senso de culpa, personificados nos olhos vácuos dos mortos. Como sombra, o medo da morte vaga pelo imaginário, uma fotografia fatalista de horrores próximos.


Mas será que o mundo ocidental vive o stress pós-traumático de segunda geração, a ferida simbiótica pelo horror da desumanização? Quais foram as consequências deste cenário de devastação na jovem paz de um mundo há pouco seguro?


Na partícula de pó que é a minha vida, dança clara a memória do conto sensacionalista de uma infância vivida durante a guerra fria, reino gelado da assombração da bomba. A voz do meu pai, como música de fundo, dissemina relatos de monstros genéticos e ameaças distantes de um fim catastrófico. Esta arma imoral derramou no mundo a inelutável hipocondria do extermínio longo e desconhecido, que foge aos olhos e inunda o impalpável. Estamos todos vagamente atingidos pela genbakusho, a doença indefinida e maleável que exala dos tentáculos da bomba.


Se, naquela manhã de Agosto, o “menino” não tivesse descido dos céus para jogar à destruição, o que seria hoje do mundo? Difícil dizer... Numa luta voraz contra o senso de culpa o mundo recolhe-se na incerteza: libertação necessária ou crueldade atroz? A história é sempre contada pelo vencedor e, na devastação atómica, pouco fica dos que perderam.


Este engenho apresenta-se assim ele próprio marcado pelo oxímoro. Se de um lado é sórdido e escorregadio, tem, também, nas suas mãos, o poder de babel, o fatal trunfo na manga, sempre mais implícito nas questões políticas. Se alguma coisa parecíamos ter compreendido dos anos de tensão sucessivos à guerra, nos já 75 anos de memória podemos agora ver essa consciência a librar-se ligeira, rasgada como confettis de papel. Que terror nos invade à simples possibilidade do fim do mundo atrás de um botão vermelho, quão próximo o dedo.


O que representa a bomba se não a total aniquilação, a enorme espada de Dâmocles, que vibra, sempre mais próxima, sobre as nossas cabeças? Se por um lado foi o fim de uma guerra sanguinolenta e terrível, será também a fim do mundo como o conhecemos. A próxima guerra mundial combater-se-á com as pedras.