Roma, Cidade Aberta


Crónica de Afonso Abecassis

Estudante de Pós Graduação em Estudos Estratégicos e de Segurança


Pela década de 1940, o cinema já tinha desenvolvido algumas das suas bases. O mundo tinha visto o advento do som e da cor, das épicas aventuras e dos íntimos romances.


Mas ainda havia espaço para um filme aparecer e tudo mudar. Em 1945 esse filme foi Roma, Cidade Aberta de Roberto Rossellini - nascido das ruínas devastadas de Itália no pós-Segunda Guerra Mundial. Martin Scorsese chamou ao neorrealismo italiano o momento mais precioso da história do cinema. É fácil de perceber porquê - estes são filmes que se focavam na vida e na humanidade do dia-a-dia; das pessoas em situações duras e difíceis. Não se concentravam em heróis corajosos ou na vida luxuosa de uma elite rica. Não eram devaneios de Hollywood, mas sim um holofote sobre a vida dos pobres, desesperados e oprimidos.


Roma, Cidade Aberta é visto como um dos filmes mais influentes já alguma vez feito. E apesar de não ter sido o primeiro filme neorrealista, iniciou o movimento, revigorou o cinema pelo mundo fora e mergulhou a Itália na sua era dourada da sétima arte. Mas para compreender realmente o impacto do neorrealismo italiano, é importante ver o tipo de filmes que surgiram no país antes da guerra.


Voltando às origens do cinema, a Itália foi responsável por alguns dos filmes mais inovadores, desde um dos primeiros épicos de blockbuster como Cabiria (1914) até filmes futuristas experimentais de vanguarda como Thaïs (1917). Desde o início, o cinema italiano era uma força dominante. No entanto, no final da primeira guerra mundial, a indústria cinematográfica do país começou a enfrentar alguns problemas. Os fundos desesperadamente necessários haviam sido desviados para o esforço da guerra e havia uma concorrência séria por parte das indústrias e estúdios na Europa e nos EUA.


Apesar dos seus grandes começos, o cinema italiano estava praticamente falido - até à ascensão do fascismo e de Benito Mussolini em 1922. Tal como a maioria dos estados fascistas e totalitários, o governo de Mussolini procurou controlar a indústria cinematográfica como meio de propaganda. Na década de 1930 tinha estabelecido um dos maiores estúdios de cinema de toda a Europa, completo com o slogan: "O cinema é a arma mais poderosa". Os filmes produzidos sob o governo de Mussolini não eram explicitamente fascistas em tom, mas foram construídos com um patriotismo e nacionalismo extremos, refletindo uma visão da Itália que o Duce procurava. Embora o país produzisse alguns géneros diferentes, de longe o mais popular era o dos "telefones brancos".


Eram essencialmente, à época, cópias de comédias de Hollywood, focando-se no glamour e na vida dos ricos, reforçando os valores familiares tradicionais, a obediência à autoridade e a manutenção do status quo. Estes filmes foram proibidos de examinar os problemas sociais com que a Itália se defrontava na altura. Em vez de dar ao público uma visão do mundo à sua volta, deu-lhes uma imagem idealizada do que poderia ser uma suposta vida num estado fascista. Numa época de horror indescritível e guerra, os filmes dos "telefones brancos" tentaram pacificar uma população pobre.


O nome do movimento veio do uso frequente de telefones como adereços, um símbolo de luxo inimaginável na altura para a maioria dos italianos. É inacreditável que, numa época de sofrimento mundial, houvesse uma proliferação de filmes tão ocos, vazios e alheios às circunstâncias morais como os filmes comerciais desses anos. Foi em oposição a estes filmes que o neorrealismo italiano emergiu. As suas origens remontam à Ossessione de Luchino Visconti de 1943 onde na sua estreia, o filho de Mussolini, Vittorio, um crítico de cinema, saiu do teatro furioso, alegando que a representação do filme não fazia jus à grande Itália.


Mais tarde, nesse ano, os Aliados invadiram a Sicília, Roma foi fortemente bombardeada, o governo fascista caiu e foi substituído por um governo fantoche da Alemanha Nazi - a República Socialista Italiana. A ocupação de Itália viu muitos italianos subjugados à pobreza extrema, fome e privação. Durante este tempo, a indústria cinematográfica quase que desapareceu, mas alguns realizadores ainda estavam comprometidos à causa social de mostrar a realidade que os rodeava com as suas câmaras.


Em 1944 Rossellini iniciou a produção de Roma, Cidade Aberta, marcando o verdadeiro início do neorrealismo italiano. Devido à falta de equipamento técnico adequado e o facto de Roma estar em ruínas, o ambiente desolado deu ao neorrealismo as suas características singulares. O próprio Rossellini teve de comprar películas de cinema no mercado negro, reunindo diferentes tipos de stocks, que faziam variar a qualidade da imagem, combinando com filmagens numa câmara portátil, o que levou a uma sensação de autenticidade e um estilo documental, como se os eventos capturados tivessem realmente acontecido, reminiscientes dos recentes horrores que haviam assolado a capital. As filmagens começaram apenas dois meses após o fim da ocupação, tornando palpável os lugares de Roma, todos eles contando uma história atormentada.


Rossellini disse que os seus filmes nasceram de uma enorme necessidade de contar a verdade, e de manter uma posição moral mais do que um estilo, ampliando o sentido da realidade. O legado de Roma, Cidade Aberta daria origem a várias obras-primas do neorrealismo italiano, como Ladrões de bicicletas (1948), Umberto D (1952) ou Shoeshine (1946). Nos finais da década de 1950 o movimento desvaneceu-se, à medida que a vida em Itália se tornava cada vez menos difícil e as pessoas tentavam ultrapassar o trauma coletivo deixado pela guerra.


O neorrealismo italiano pode ter desaparecido, mas no seu legado ficou uma grande questão, que ainda hoje nos faz pensar: para que serve o Cinema? Alguns filmes são feitos apenas para entreter, outros fazem grandes declarações políticas ou filosóficas. Rossellini provou que o Cinema pode ser sobre nós. Todos nós. O mundo em que habitamos e como este nos afeta.