Restaurante Caçana, São Lourenço da Montaria

Crónica de Joana Garrido Amorim

Estudante de Economia na Faculdade de Economia do Porto


Restaurante Caçana, São Lourenço da Montaria, Viana do Castelo


Fica lá num alto. É de difícil acesso, demora a chegar. Passam-se várias freguesias, muito airosas, de estradas limpas, floridas, cheias de bom ar. Amonde, por exemplo, que freguesia bem cuidada. Será Social-Democrata? Ahah não sei. O meu avô dizia-me sempre que reconhecia cuidado no trato a algum sítio, era porque era social-democrata.


É num monte, as pessoas trabalham nos campos, e o verão cansa. Tem estado um calor insuportável. Há medo dos incêndios, a floresta é densa e é dela que vivem as gentes.

Fazes curva à esquerda, curva à direita, mete segunda senão deixas o carro ir abaixo, toca a andar, não aceleres muito que não consegues ver se vêm carros da frente.

As casas são modestas, mas ostentam o ar de festa com que Deus as abençoou.

É fim de tarde, o nevoeiro tinha levantado por completo. Do alto vê-se o vale. Ao fundo, réstias de nuvens a pairar no ar encobrem o pôr do sol. Olhas o horizonte, deslocas o pescoço para trás e encolhes os ombros. Que conchego.

Já cai orvalho, a esplanada é coberta por guarda-sóis. Havia uma mesa disponível. Tínhamos chegado no momento em que uns motards se haviam levantado da mesa. Um casal com duas filhas. Sai primeiro a mulher com a filha e vai deitando olhares ao marido para se levantar. Faz de conta que não vê e serve-se do último copo de champarrião e de uma bucha de pão. Deixa a mesa livre para nós.

Pede-se champarrião. De 1L? é melhor, não te esqueças das curvas. A loiça é de barro torrado. Vem a tigela do champarrião, um cântaro e os copos. O cântaro serve para tirar o champarrião da tigela para os copos. Os copos são pintados à mão e têm desenhos e dizeres originais- “é obrigatório beber”. Sabe muito bem a acompanhar com uns petiscos típicos do Alto Minho.

Assim se termina uma tarde e se começa uma noite. Vem tudo ao mesmo. Olhas para o lado e a tigela, o cântaro e os copos adornam as mesas. É engraçado vir-se cá com um grupo grande, o ambiente proporciona à festa e à conversa. Não há etiqueta, só podes usar o palito. Também há quem esteja sozinho.

Ao meu lado, numa mesa com a tigela, o cântaro e o copo. 1L é a medida mínima. Há curvas, não nos podemos esquecer. Não há alojamentos locais, a população vive dos seus cultivos. Usa corsários pretos com bolsos até ao joelho. Lentamente, desaperta um dos bolsos e retira vagarosamente um pacote “ALESTO”, amendoins torrados. Estica, sobe a perna e suporta-a na cadeira da frente. Tem uns sapatos com sola vibrom, não dá para perceber a marca porque estão com muito pó. Barba rija que desce uns centímetros abaixo do queixo. Cabelo resoluto, está constantemente a puxá-lo para trás. Vem mais 1L. Acho que manifestei a minha admiração no rosto e que notou.


Já estava há algum tempo a reparar-lhe.

Ergueu novamente as pernas. Mais um punhado de amendoins. Enquanto isso, na mesa ao lado pedia-se cafés e brindava-se com bagaço com mel. Risos por todo o lado. Insultos apanhava-os no ar. Concentrei-me no barulho daquela esplanada, coberta pelos guarda-sóis, porque estava relento. Reinavam as gargalhadas. Cada vez que se falava, tinha de ser mais alto, para conseguir sobrepor-se a voz e ser-se ouvido.


O tal do lado fechava os olhos. Estaria o champarrião a fazer efeito? Ou concentrar-se-ia nos risos dos demais e partilhar assim dessa espiritualidade? Levanta-se, dirige-se à mesa dos cafés e do bagaço com mel e pede um cigarro e lume. Agradece, vai sentar-se outra vez. Fica a olhar o horizonte. Já não se vê o sol. Só a lua ilumina. A luz é branca e as nuvens chegaram até ao vale. Volta a fechar os olhos.

O que acontecerá se fechar os olhos? Fecho os olhos também. Abstraio-me das gargalhadas, ficam no fundo. Sinto o cheiro que sobe até ao cimo. Cheiro brasas acabadas de assar. Cheiro terra húmida, acabada de regar, pela fresca. Sinto mais frio. Há um rio perto que forma uma clareira. Quais serão os animais que reinam estas terras?


“Para terminar um cafezinho e um bagacinho?”


“Ah não, não, obrigada. Já é tarde, a viagem até casa ainda é longa, e há... muitas curvas.”


“Oh (risos), as curvas aqui fazem-se de olhos fechados.”