Remar contra a maré (numa piscina)

Sermos do contra apenas com o objetivo de estarmos do lado certo da História, de sermos relembrados como os heróis, é uma verdadeira perda de tempo. Em particular, se estivermos a pôr vidas em perigo com isso. Por vezes, talvez seja bom afastarmo-nos dessa cruzada e estarmos dispostos a mudar de opinião, seja em relação às vacinas ou a outro assunto qualquer.
Ilustração de Luísa Figueiredo

Crónica de João Moreira da Silva


Numa entrevista recente à Revista Visão, Rutger Bregman enfatizava o papel dos desobedientes na história da humanidade, sublinhando que a história é feita de homens e mulheres que, apesar de impopulares nas suas épocas por terem ido contra o pensamento dominante, são agora reconhecidos e aplaudidos pelas grandes massas. O facto de terem remado contra a maré foi “o combustível da mudança”, explicava o historiador. A ideia exposta por Bregman não é nova para nenhum de nós. Ao longo da nossa infância e adolescência, as aulas de História sempre se focaram nos “grandes homens” (sim, tendencialmente homens) que mudaram o rumo do mundo através dos seus feitos ousados e polémicos. Copérnico foi preso por heresia contra a Igreja Católica por ter apresentado a teoria heliocêntrica; Martinho Lutero foi excomungado pelo Papa Leão X pelas suas propostas de reforma na Igreja; Martin Luther King Jr. foi preso (29 vezes) e assassinado pelo seu papel no Movimento dos Direitos Civis dos EUA. Hoje, todos eles são figuras consensuais entre as massas, reconhecidas pelos seus grandes feitos nas respetivas áreas.


Esta forma de ensinar a História - particularmente influenciada pela Great Man Theory, segundo a qual a História pode ser contada apenas com base em figuras influentes das respetivas épocas -, conduz-nos a uma ideia de rebeldia contra o status quo como um grande motor de mudança. Homens e mulheres tiveram de remar contra a maré para abolir a escravatura, garantir o direito ao voto universal, resistir e lutar contra o colonialismo, ou, mais recentemente, combater a emergência climática. Caso estes milhões de pessoas (e não apenas um indivíduo, note-se), ao longo de séculos, não se tivessem juntado nestas lutas, a mudança não teria acontecido.


Perante esta narrativa, em particular tendo em conta o heroísmo dos atos destes rebeldes, a maioria das pessoas irá questionar-se, mais tarde ou mais cedo, se estará do “lado certo da História.” Ignorando toda a relatividade desta expressão - o que é o lado certo para uns será o lado errado para tantos outros -, é tentador abraçarmos a ideia de que devemos lutar contra o sistema, uma vez que todos estes heróis lutaram contra ele, e eles estavam do lado certo. Em primeiro plano, esta pode ser uma conclusão equilibrada: podemos e devemos questionar todas as leis que nos são aplicadas, todas as regras que nos ditam e todos os sistemas em que estamos inseridos, de qualquer natureza. Desta forma, poderemos lutar contra sistemas repressivos, pela igualdade e liberdade. Contudo, o problema põe-se quando aplicamos uma fórmula geral, algo como “se estar do lado certo da história implica lutar contra o status quo, então lutarei sempre contra ele”, para nos elevarmos à categoria de herói. Todo o processo de questionar as leis e sistemas cai por terra se já sabemos que, à partida, seremos contra eles. O processo de pensar antes de agir é ignorado: contestar torna-se numa questão meramente performativa, não fundada em qualquer ideologia. Deixamos de saber porque protestamos.


Não consigo deixar de enquadrar os movimentos anti-vacinas (os famosos negacionistas) como parte deste fenómeno. Como se pode aferir ao navegar pelas suas páginas no Facebook (recomendo a travessia), tanto nacionais como internacionais, estes movimentos não se limitam a questionar e contestar as medidas de combate à pandemia, ou a segurança e eficácia das vacinas. Caso fosse esse o caso, ainda estaríamos no plano do debate público saudável: todos podem e devem levantar as suas dúvidas e inquietações, procurando esclarecê-las com quem faz da sua vida o estudo das mesmas (médicos e cientistas). No entanto, este já não é o caso. Através da criação de teorias da conspiração e de constantes comparações com o regime nazi (que, por sinal, se opunha à vacinação obrigatória) e com o Apartheid sul-africano, o movimento negacionista impõe-se como estando no lado certo da História, colocando-se ao lado de todos os injustiçados que tiveram de remar contra a maré ao longo dos séculos. Estão confiantes que serão relembrados como os grandes heróis da sua época, sem dúvida. Os Great Men que previram as mentiras vendidas pelos governos durante a pandemia - uma espécie de Nelson Mandela dos tempos modernos, mas com um megafone para gritar com o Ferro Rodrigues à hora de almoço.


Estes movimentos antissistema (não apenas anti-vacinas) são conjunto de pessoas que canaliza os seus ódios pelos políticos, governos e elites mundiais - alguns destes perfeitamente justificados - numa tentativa de serem heróis a toda a força. O problema, claro está, é que não basta ser contra o sistema. Não basta querer ficar do lado certo da História através da oposição a tudo e todos. Como refere Bregman, “muito do mal que há no mundo é cometido por pessoas que acreditam genuinamente estar do lado certo da História.”


Talvez o mais adequado (e provavelmente mais aborrecido para quem gosta de uma boa história de ação) será deixar de contar a História como uma narrativa de bons e maus, de certos e errados. Ao expormos a História desta forma, colocamos um dilema perante todos aqueles que a ouvem: ou estão do lado certo, ou estão do lado errado - e, se querem ser heróis, têm de defender o nosso lado com todas as vossas forças para serem relembrados. Esta forma redutora de explicar os eventos ao longo de séculos tem a grande desvantagem de continuar a criar inimigos que lutam pela propriedade do lado bom. Enquanto que a ideia de serem relembrados como os heróis da História os guia, a ideia de ficarem lembrados como os vilões abomina-os. Na verdade, não há necessidade de existir esta pressão - como dizia o Almirante Gouveia e Melo, “quem se julga importante tem de ler aquelas placas no cemitério.” Ou, como me contava em tempos outra pessoa, “os nomes das ruas das cidades são a prova viva de que os homens mais célebres de uma determinada época são rapidamente esquecidos pelas gerações seguintes.”


Enfim: sermos do contra apenas com o objetivo de estarmos do lado certo da História, de sermos relembrados como os heróis, é uma verdadeira perda de tempo. Em particular, se estivermos a pôr vidas em perigo com isso. Por vezes, talvez seja bom afastarmo-nos dessa cruzada e estarmos dispostos a mudar de opinião, seja em relação às vacinas ou a outro assunto qualquer. Quando remamos contra a maré sem um propósito evidente, sem procurar ouvir antes todos os argumentos dos vários lados, fazemos figuras tristes - como se estivéssemos num pequeno bote de madeira no meio do oceano, a lutar contra as ondas gigantes enquanto gritamos desenfreadamente pela nossa vida, quando na verdade estamos numa boia em forma de flamingo numa pequena piscina municipal com algumas crianças a olhar para nós de forma muito estranha enquanto saem lentamente da água porque está lá um senhor maluco que quer ficar do lado certo da História.