Raquel Gaspar: "As mulheres são o motor da sociedade e da mudança"

Eu acredito imenso nas mulheres. Uma mãe é o maior símbolo da sustentabilidade. Tu lutas para que aquilo que tu crias possa ter um futuro. De facto, sustentabilidade para mim é isto: é poder ensinar o que tens de melhor aos outros para que eles mesmo possam ser prósperos.

© Gustavo Figueiredo

Entrevista de António Vaz Pato

Estudante de Biologia, FCUL


com Margarida Pires e Afonso Barrocal



Raquel Gaspar é bióloga marinha e trabalha há muitos anos no Estuário do Sado. Após 20 dedicados à monitorização dos golfinhos-roazes, a investigadora decidiu fundar a Ocean Alive (OA), uma organização ambiental e de conservação da natureza cuja principal missão é a proteção das pradarias marinhas do Estuário do Sado, um habitat-chave para a vida marinha nesta região. É também a primeira cooperativa em Portugal dedicada à proteção do oceano. Raquel Gaspar e os restantes biólogos envolvidos na OA iniciaram um projecto original de monitorização deste ecosssistema recorrendo ao serviço das pescadoras e mariscadoras do estuário. O projecto foi baptizado de “Guardiãs do Mar”. Estivemos à conversa com a investigadora sobre o seu trabalho na organização, as acções desenvolvidas nos últimos anos e os projectos que esperam abraçar no futuro para proteger este habitat indispensável ao combate contra as alterações climáticas.



Como surgiu a OA? Qual foi o contexto da sua criação e quais eram os objectivos iniciais?


Durante 20 anos estudei os golfinhos-roazes (Turciops truncatus) do Estuário do Sado e enquanto investigadora, na altura, procurava compreender como poderíamos salvar estes animais e evitar que a população não continuasse em declínio. Durante esse tempo, analisei a evolução dos dados demográficos. Cheguei à conclusão que os golfinhos só poderiam expressar as melhores taxas de sobrevivência e fecundidade melhorando as condições naturais do habitat. De repente, compreendi que a minha vida tinha de dar uma volta e concentrar-se na proteção do habitat do qual eles dependem. Foi assim que conheci as pradarias marinhas. Entretanto tive os meu 3 filhos ao longo deste processo. E só depois de o meu mais novo ter feito 2 anos é que eu então me aventurei, despedi-me do emprego na Reserva Natural do Estuário do Sado e resolvi criar um projecto que tem como objectivo conservar as pradarias marinhas.


Falemos do projecto “Guardiãs do Mar”. Como surgiu a ideia de envolver a comunidade piscatória, nomeadamente as mulheres pescadoras, na proteção das pradarias e do estuário?


O projecto só nasceu com uma aliança com as mulheres pescadoras. Na altura, eu disse para mim mesma que não conseguia fazer aquilo sozinha. Olhava à minha volta e via outras mulheres em barcos de pesca. Portanto, decidi falar com elas porque sabia que tínhamos o mesmo interesse. Quase 100% da pesca no estuário depende directa ou indirectamente das pradarias marinhas. Os chocos, os robalos e as douradas usam este habitat como berçário (os indivíduos mais juvenis crescem neste habitat). Falei primeiro com 3 pescadoras, e nessa altura o projecto ainda estava muito incipiente. Foi só em 2016 que concorremos a um prémio, o Prémio de Ideias de Origem Portuguesa da Fundação Calouste Gulbenkian, e foi aí que o projecto cimentou. Nós percebemos que, como organização, o nosso objectivo era eliminar as ameaças e as práticas que provocavam a degradação das pradarias. E queríamos combater esses problemas através das pescadoras. Havia algum desemprego na comunidade piscatória, muito por culpa do desaparecimento dos recursos pesqueiros derivado da degradação do habitat. Nós queríamos dar resposta a esse desemprego, valorizando o conhecimento da Rosa, da Claúdia, da Fátima e de tantas outras pescadoras. Nesse sentido, criámos novas profissões: as educadoras marinhas, focadas na divulgação e sensibilização ambiental, e as monitoras marinhas, responsáveis por recolher informação sobre o estado das pradarias.


© Gustavo Figueiredo

Quantas pescadoras têm neste momento a trabalhar convosco?


Começámos com 3 guardiãs do mar e hoje em dia são 18 pescadoras. E temos muitas outras pessoas que trabalham connosco, como por exemplo a Sílvia (Tavares), que é responsável pelo programa educativo. A equipa operacional já flutuou bastante, consoante a tesouraria que tínhamos disponível.


Quais foram os maiores desafios desde o lançamento projecto até hoje?


O meu maior desafio hoje foi quando ganhámos o financiamento da iniciativa “Não Há Planeta B”. O nosso projecto chamava-se “O Mar Dá Bom Clima”, e nós tínhamos formado as pescadoras para serem agentes na sua comunidade e alertar para o papel das pradarias nas alterações climáticas. E esse projecto posso considerar como uma luta perdida. Por mais que eu explicasse às pescadoras que as plantas das pradarias tinham uma grande importância como sumidouros de carbono, elas respondiam sempre que o papel mais importante era a produção de oxigénio. Este conceito é a coisa mais complicada de lhes pôr na cabeça e, portanto, o maior desafio até agora foi essa falha na transmissão de conhecimento para as pescadoras. Há outro desafio, mas eu já aprendi a viver com ele: quando uma guardiã desiste do projecto. Faz parte, é a flutuação da vida.


Foi criado um grupo feminino de propósito ou foi simplesmente uma coincidência o facto de haver mais mulheres envolvidas nas actividades piscatórias no estuário?


Foi de propósito. Eu acredito imenso nas mulheres. Uma mãe é o maior símbolo da sustentabilidade. Tu lutas para que aquilo que tu crias possa ter um futuro. De facto, sustentabilidade para mim é isto: é poder ensinar o que tens de melhor aos outros para que eles mesmo possam ser prósperos. Eu acredito que as mulheres são o motor da sociedade e da mudança. As mulheres podem inspirar e mudar os outros.


Através de que acções a OA desenvolve a sua vertente de educação e sensibilização ambiental?


Nós temos um programa de educação marinha. Esse programa de educação marinha tem 3 componentes. Uma da vertentes é a candidatura a projectos para comunicar conceitos-chave. Envolvemos escolas, capacitámos professores especificamente para o tema das pradarias marinhas. Este projecto fracassou um bocadinho porque foi feito durante a pandemia. No final, ainda conseguimos fazer um fórum com vários professores, estudantes e muitas entidades, ONG’s e cientistas para responder à pergunta “Que futuro queremos para as pradarias?”. Outra forma é através do interesse de outras entidades, que nos compram serviços educativos. A terceira é a Summer School, que é feita para jovens do ensino secundário ou superior. Temos conseguido trazer sobretudo alunos estrangeiros para aprender connosco durante uma semana. O nosso eixo de actuação não é tanto a transmissão de conceitos, o nosso foco é a mudança de comportamentos. Há três problemas a ser combatidos no estuário através da alteração de hábitos: o lixo da mariscagem, centrado no problema das embalagens de sal; o segundo problema são as âncoras e as amarrações dos barcos que destroem as pradarias; e o terceiro problema é a pesca destrutiva.



© Ocean Alive

Em tempo de pandemia, como foi a adaptação da OA? Que acções esperam desenvolver no futuro?


A pandemia foi terrível para a OA. Tínhamos inúmeros projectos a decorrer, nomeadamente as acções educativas com os alunos, que tiveram de ser interrompidas. Em termos de organização, foi horrível e maravilhoso ao mesmo tempo. Horrível porque fomos mesmo ao fundo a nível financeiro. Nós não temos subsídios, como muitas pessoas pensam, nós vendemos serviços e actividades educativas, candidatamo-nos a financiamentos e ganhamos prémios. Foi assim que fomos financiando o projecto. Todo o nosso modelo de negócio foi por água abaixo. Foi um balde de água fria mas foi maravilhoso porque nos obrigou a reinventar. Pensem na adaptação das espécies quando há adversidades ambientais. É análogo.


Por exemplo, o conhecido princípio da perturbação intermédia* (em Ecologia este princípio defende que, para que um ecossistema possa ser mais resiliente e diverso, é necessário um grau moderado de perturbações, como por exemplo incêndios ou outros eventos).


Sim, somos obrigados a adaptar-nos. Descobri que tinha uma folha em branco à minha frente. Tínhamos um caminho até aqui que estava a dar resultado sem esforço de divulgação. Mas agora tínhamos de inventar uma coisa do zero. E na página em branco eu vi aquilo que mais queria: reflorestar o mar. A pandemia deu-nos hipótese de agarrarmos na OA e recriarmos as nossas fontes de receitas na direção do restauro das pradarias. Há estratégias de restauro assentes na replantação, mas no caso das pradarias a estratégia de maior sucesso é a eliminação das ameaças, o que era exactamente aquilo que fazíamos no passado. Portanto decidimos mudar o conteúdo da mensagem no sentido da reflorestação das pradarias.



© Hugo Marques / National Geographic

E essa mensagem acaba por ser mais facilmente compreendida pelo público. As pessoas conseguem reconhecer a reflorestação em ambiente terrestre e associam essa ideia ao sucesso ambiental. As pradarias, contudo, estão fora da percepção visual do público e não há uma associação rápida à ideia básica de reflorestação. A partir do momento em que vocês utilizam a palavra “reflorestação”, a mensagem torna-se mais apelativa.


Sim, é verdade, e no momento em que gritámos cá para fora esta ideia, o interesse na organização voltou. Conseguimos, assim sem mais nem menos, interesses privados para nos ajudar com esta missão.


Já nos descreveu os principais desafios que a OA enfrentou ao longo da sua existência e principalmente este teste mais difícil no último ano. A pergunta que se impõe depois disto é: quais são os ensinamentos mais importantes que trazem convosco desta experiência?


O primeiro ensinamento é que há excepções. Nós montámos o projecto “Mariscar sem lixo” para eliminar o mau habito dos mariscadores em deixar as embalagens de sal no estuário. Nós conseguimos fazer uma grande alteração de comportamentos, a ponto de achar que seria possível erradicar a 100% este problema. Na Festa dos Pescadores, que decorre todos os anos durante 3 dias, nós costumamos falar com as pessoas alertando-as para esta causa. Nós somos uma associação que trabalha em proximidade com as pessoas, graças à nossa rede de voluntários e às guardiãs do mar. Houve um ano nessa Festa dos Pescadores em que descobrimos 7 embalagens de sal e foi muito frustrante. Na altura, a Dina, uma das guardiãs, disse-me, “Raquel, tu tens de entender uma coisa: vai haver sempre excepções”. A nossa missão é mudar comportamentos e, portanto, queremos ver resultados. Mas a verdade é que vai sempre haver excepções.

Outro ensinamento surge quando me interrogo: De que lado quero estar em relação ao inimigo? E uma das coisas mais importantes para mim é hoje poder estar sentada ao lado do inimigo. São oportunidades que nos dão para conversar com ele e poder mudá-lo por dentro. Isto torna-se especialmente importante no contexto das dragagens do Estuário do Sado. Quando nos foi dada a oportunidade de reunir com a Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS), eu de repente senti um poder enorme. Estar sentada ao lado da administração é completamente diferente de estar do outro lado a apontar-lhe o dedo. Esta foi a maior das lições: a importância do nosso posicionamento.


Fotografia: Ricardo Lopes/Público

Na realidade, a primeira pradaria soterrada não foi por culpa das dragagens, foi responsabilidade da SECIL (cimenteira com actividade na Serra da Arrábida).


Sim, eu estive em contacto desde o primeiro dia com a SECIL e houve um dia em que lhes disse: “Eu só trabalho convosco se isto foi feito desta maneira”. E na realidade eles mudaram depois dessa conversa. A maior parte das pessoas não entende isto: julgam que uma ONG está contra o inimigo, não se senta com o inimigo. E este será certamente dos maiores desafios para a OA, quando tornarmos público que vamos trabalhar com a SECIL na estratégia de reflorestação das pradarias. O público ficará com a impressão de que isto não faz sentido nenhum. Mas eu tenho a consciência completamente tranquila. Este é o lado da solução. Se nós queremos mudar comportamentos, temos de ter boas relações com todos, incluindo com o “inimigo”.


Uma das principais forças que a OA tem desenvolvido nos últimos tempos é justamente o poder de lobbying junto das empresas e entidades nessa mudança de acções e hábitos prejudiciais para o meio ambiente e para a conservação.


Sim, mas isso não quer dizer que não devam existir outras ONG’s que apontem o dedo. Tem de haver associações dos dois lados, incluindo ONG’s que trabalhem por dentro. Eu não sou uma pessoa de conflitos, sou uma pessoa de paz e procuro consensos. Acho que a sociedade tem de ter estas duas vertentes.


Reunir consensos faz parte do trabalho de conservação. É importante garantir uma base de estabilidade para a proteção e manutenção destes habitats não só para nós mas também para as gerações seguintes. Acha que esta noção escapa muitas vezes aos decisores políticos?


Sim, de certa forma, mas um feito fantástico que alcançámos foi pôr os políticos a falar de pradarias marinhas. A Lei de Bases do Clima já as contempla. Os programas políticos do PS e do Bloco de Esquerda sobre clima também já incluem menções a este habitat. Em janeiro conseguimos que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) se reunisse com os investigadores que estudam o carbono azul (o carbono sequestrado e armazenado em habitats marinhos, dos quais as pradarias e os sapais) e chamámos-lhes a atenção para um facto que eles não sabiam: uma floresta marinha consegue captar 30 vezes mais carbono do que uma floresta terrestre. Conseguimos, nesse momento, que Portugal, através da APA, aceitasse as pradarias e os sapais como sumidouros naturais de carbono, passando a integrar a lista de emissores/sumidouros de CO2. Num ano, atingimos objectivos extraordinários em termos de lobbying.


E o reconhecimento é o primeiro passo para tomar acções.


Sim, e ver o caminho que fizemos até hoje é a prova de que é possível partir da base para chegar ao topo do poder político, exercendo uma influência importante na mudança de perspectivas ao nível da governação.

Fotografia: Jornal Rostos

E pensam em replicar o projecto da OA noutras áreas húmidas costeiras de Portugal?


O nosso objectivo é mesmo inspirar outras ONG’s locais. Não queremos que a OA vá para lá tomar conta, queremos dar a alavanca necessária a outras associações. Nós acreditamos que o oceano pode ser gerido e protegido pelas comunidades locais. Transmitiremos sempre o savoir-faire, mas o fim último é deixar as comunidades tomar conta.

É como diz o ditado: não pesques o peixe, ensina a pescar.


É isso mesmo, é essa a mensagem que queremos comunicar.