Que país é este?


Não podemos continuar a ter uma política desligada dos cidadãos a quem ela é dirigida, que não lhes oferece o que precisam, que não os ouve para tomar decisões e não se responsabiliza perante eles.

Fonte: Público

Crónica de Francisco Lemos Araújo



Com 23 anos reconheço que o meu conhecimento político (e não só) é ainda limitado. Interesso-me pela política há poucos anos, mas procuro, como qualquer pessoa que desenvolve novos interesses, informar-me e estudar o que foi e quem foram os protagonistas do passado. Reconheço nisso um papel importante na aprendizagem, nomeadamente, para evitar os mesmos erros.


Confesso, no entanto, que não gosto de o discutir, porque nessas discussões muitas vezes se comete o erro de procurar no passado as respostas para os problemas do futuro. Se for para ter discussões no presente iguais às que se tiveram em 2000, 2010..., não contem comigo, porque não vejo como é possível preparar o país para 2022, 2023 e em diante se continuamos presos a 2012, 2013...


Hoje vamos a meio de 2021. O último ano e meio não tem sido fácil – há por aí uma pandemia ao que parece – e todos tivemos de nos adaptar a esta nova vida e lutar para manter a sanidade.


Mas parece que o país político não o conseguiu fazer (e não é de agora). Andamos num estado de completo descontrolo, no qual eu não me revejo. Não me revejo neste “normal” da classe política.


Vejamos apenas alguns exemplos recentes.


O líder do PSD, a cada sondagem que sai e demonstra a sua estagnação nas intenções de voto, recorre ao Twitter para um uso excessivo de emojis, tentativas de piada e de frases irónicas. Em vez de reflexão interna, Rui Rio prefere desvalorizar os sinais constantes que tem recebido de que talvez este não seja o caminho certo.


Fonte: Público


Há cerca de uma semana veio ao de cima que a Câmara Municipal de Lisboa enviou ao longo dos últimos anos dados pessoais de ativistas que se manifestaram, em Lisboa, contra certos regimes para os governos desses países.


Da parte de Fernando Medina tivemos um pedido de desculpa rápido e sem grande sentimento, para logo a seguir acusar quem falou do assunto de aproveitamento político. Ai de alguém que tente responsabilizar um político em funções por uma violação gravíssima e inaceitável do direito à privacidade desses ativistas praticada pela sua Câmara Municipal durante o seu mandato. Não se faz.


Medina mandou fazer uma auditoria aos procedimentos adotados, a qual revelou que dos 58 protestos que ocorreram entre 2018 e 2021, a CML enviou dados de ativistas para as embaixadas dos países visados em 52. Quais as conclusões? A culpa é dos serviços que andam a ignorar um despacho de 2013 e a solução passa por uma série de alterações orgânicas a nível de competências.


Da parte do Governo pouco ouvimos, e o que se disse mais valia não ter sido dito, porque radicou numa tentativa de infantilização da população. Ninguém acredita que seja com um pedido leve que os tais regimes visados apaguem os dados dos ativistas.


Uns dias depois temos o arraial liberal, do qual chegam imagens de jogos de setas e tiro com arco, tendo como alvos as caras de membros do Governo e de outros políticos, como se fosse algo naturalíssimo e aceitável. Pelos vistos, a Juventude Socialista já o tinha feito no passado, mas aproveito para recordar que o argumento “se ele pode, eu também posso” não é propriamente aceitável. Até porque a política, à partida, é feita por adultos e não por crianças de 8 anos.



Fonte: Jornal de Notícias

Vou olhando para estes sucessivos acontecimentos e penso se já não merecíamos mais que isto.


Uns ficam revoltados quando se levanta a mínima onda de indignação por algo que merece indignação, enquanto outros menosprezam a inteligência dos portugueses com desculpas esfarrapadas e soluções pouco críveis. De um lado fingem que pouco ou nada sabem, deixando a culpa sozinha no seu canto. Do outro, insurgem-se contra o que não interessa e focam-se no irrelevante. Há ainda quem transforme isto num jogo infeliz de feira popular.


Um dos erros que vem sendo cometido é o de encarar a política como uma atividade “superior”, desconexa da vida real, o que leva a dois problemas.


O primeiro é que deixam de existir erros, ou seja, nunca se assume ter errado em momento algum – o que leva inevitavelmente à inexistência de responsabilidades, pois como seria possível alguém ser responsável se não cometeu nenhuma falha?


O segundo é a falta de atenção para os problemas do dia a dia, que impede que boa parte das medidas tenham um resultado positivo prático na vida das pessoas. As grandes reformas são precisas e demoram tempo – o que é perfeitamente compreensível –, mas se o foco for exclusivamente esse, ficamos sem implementar pequenas mudanças que vão ter impacto imediato e “palpável” na vida das pessoas.


Não podemos continuar a ter uma política desligada dos cidadãos a quem ela é dirigida, que não lhes oferece o que precisam, que não os ouve para tomar decisões e não se responsabiliza perante eles.


Ouço muitas vezes dizer que é preciso renovar a política e que para isso são precisas caras novas. Concordo plenamente com a primeira parte da frase, mas não com a segunda.


A renovação é precisa, sim. Mas não creio que tenha de ser necessariamente através de caras novas, mas sim da mentalidade. Tendencialmente, a mudança de mentalidade estará ligada às novas pessoas que entrem na política, mas sinceramente pouco me importa que quem comece essa mudança seja um político novo ou antigo, que tenha 20, 30, 40 ou 50 anos. O que é preciso é que a mudança aconteça.


Precisamos de quem esteja disposto a deixar esta mentalidade de clubismo e guerrilha de lado e assuma a responsabilidade do cargo que ocupa. De quem desenterre a cabeça do buraco e fale com a pessoa do lado para saber em que podem convergir e onde divergem.

É possível encontrarmo-nos a meio caminho e acordar em alguma coisa que melhore a vida do resto do país? Conseguimos explicar, ouvir e discutir sem atirarmos pedras e a falar só para os “nossos”? Somos capazes de conviver uns com uns outros sem ser num insuportável ambiente de guerra inútil, onde cada um só olha para a sua sobrevivência política?


Gostava que um dia a resposta a estas perguntas fosse “sim”, sem grande hesitação. Mas como disse, sou novo. Se calhar estou a pedir demais.