Quanto vale uma vida?

No mercado livre, quanto vale uma vida? Será que podemos diferenciar uma vida baseando-nos na nacionalidade ou cultura? Será o seu valor intrínseco o mesmo? A verdade é que se olharmos à produtividade destas pessoas, à esperança média de vida e outras tantas métricas, o seu valor tem de ser diferente. Tudo tem um preço nos nossos dias. E até o valor mais básico, que é o da vida em si mesma, também tem.

de Francisco Paupério




Uma observação para sustentar esta afirmação que destaco é o caso dos refugiados da Ucrânia. A ajuda internacional, assim como a entreajuda entre povos europeus tem sido quase exemplar (sempre à excepção de grupos de extrema-direita que aterrorizam a chegada destes migrantes). Cada vida perdida neste conflito é sentida ainda mais por todos nós. Parece um cenário único na história recente pela forma como é noticiado, comentado e próximo. Mas não é. Houve muitas vidas perdidas antes e durante este conflito. Vidas perdidas em situações idênticas e/ou geograficamente próximas. Vidas que, com os esforços actuais, podiam ter sido poupadas. Vidas que são efectivamente “perdidas”.



O que faz um decisor político investir nas pessoas que estão entre a vida e a morte? Será a economia? Será a religião? Será a proximidade cultural? Será a empatia? Será a vantagem eleitoral? Mas o que faz um decisor ignorar estes assuntos? Aí já é mais complexo como se vê no caso europeu. Uma vida ucraniana “europeia” merece todos os esforços, já uma vida africana ou do Médio Oriente, vítimas da guerra ou das alterações climáticas (sendo discutível a responsabilização da Europa neste assunto) merece parte desse esforço. Será a nossa empatia enviesada? Ou será mesmo consequência da nossa cultura, que se fecha em si mesma e é, portanto, egoísta? Tenho mais perguntas do que respostas, mas gostava que estes assuntos fossem amplamente discutidos na sociedade civil. A desvalorização de uma vida no panorama europeu não é algo de que nos possamos orgulhar. Pelo contrário, devia fazer-nos refletir.



É extremamente difícil convencer decisores políticos a mudar a política externa e interna. Como tal, temos de ter outro tipo de argumentação para tentar ganhar atenção. Aqui vai: Portugal tem vários problemas. O envelhecimento da população, salários baixos e pouco especializados, desertificação do interior, a famosa “sustentabilidade da segurança social” ou falta dela, entre tantos outros. O acolhimento de refugiados permite combater todos estes problemas, contribuir para uma maior inclusão, procurando diminuir estigmas ou preconceitos existentes. Como se gosta de dizer, isto é uma oportunidade! Com um bom marketing, uns bons outdoors e memes, vira tudo a vosso favor. A política faz-se de boas decisões e com bons planos. E a política não devia ser um meio para atingir o fim de salvar vidas? Começo a acreditar que não temos políticos competentes, ou então não é bem um objectivo de quem está na vida política. Devo estar a atingir a maioridade política.



Tenho de destacar o crescente nacionalismo na Europa e o paralelismo histórico. Até partidos liberais como o dos Países Baixos parecem estar reféns destes sentimentos. Recentemente, um membro do partido de Mark Rutte (primeiro-ministro) fez declarações onde assumia que era importante que os estrangeiros que esgotaram todos os recursos legais retornassem ao seu país de origem e que cada cama que ocupavam era uma cama onde nenhum verdadeiro refugiado ucraniano pudesse dormir.



Os refugiados de primeira e os refugiados de segunda. As vidas parecem ter mesmo valores diferentes e não é só para as pessoas de extrema-direita. Também o é para pessoas que gostam do sistema e que se aproveitam dele.


É difícil escrever sobre uma realidade que nos ultrapassa, mas mais difícil é não fazer nada sobre esta realidade tão presente que não vai acabar com o fim da guerra. É preciso humanizar as vidas humanas. E que triste ser preciso ainda dizer isto.