Quando uma moeda cai na Fonte de Trevi

O respigador não trabalha, no sentido capitalista do termo, porque não gasta o seu tempo a produzir coisas inúteis e descartáveis. Não contribui, assim, para esta loucura, para esta produção incessante e massificada. Ele não é, por isso, um escravo do tempo.

Ensaio de Cecília Faria

Ilustrações de Francisca Faria



Roma, 19 de Maio de 2021. Eu e a minha irmã gémea procuramos um espaço algures diante da Fontana di Trevi para nos podermos sentar. Finalmente conseguimos e à nossa frente, ao nosso lado, atrás de nós, rapazes e raparigas posam de costas para a fonte e são fotografados por amigos e amigas, namorados e namoradas. Depois trocam. «Agora é a tua vez». Há também fotos de casal e fotos de família, que chegam a incluir cinco pessoas ou mais. Reina a confusão. Há ainda as selfies com os já bem conhecidos selfie sticks.


Há tanta gente a tirar fotografias que vi pela primeira vez neste lugar algo que nunca tinha visto antes em nenhuma das minhas viagens. Homens circulam pela praça, com máquinas fotográficas que lhes pendem do pescoço. Perseguem os turistas na tentativa de os convencer a serem fotografados pelas suas máquinas profissionais em troca de algumas moedas.


Há um grupo de três raparigas que me chama a atenção. Durante os cerca de dez minutos que permanecem na praça, estão sempre de costas para a fonte e para as esculturas que a ornamentam. Primeiro uma delas deixa-se fotografar pelas outras em todas as poses e posturas possíveis. Depois, é a vez da segunda. Vestem roupas muito semelhantes, num estilo instagrammer. Depois da segunda, vem a terceira. Sempre as mesmas poses, na mesma posição. Todas iguais. A pose mais recorrente é aquela em que olham para baixo.


Pergunto-me quantos mais sítios irão visitar e se em todos eles procederão a este ritual.

Alguns casais que querem tirar fotos lado a lado, mas que, ao contrário das jovens, não se podem revezar enquanto modelos e fotógrafos, nem têm rojo para pedir a alguém que os fotografe, contentando-se com uma selfie manhosa. Normalmente, estes casais (ou também os indivíduos que passeiam sozinhos) acabam por olhar para a fonte apenas através do ecrã do seu telemóvel. As caras em primeiro plano, as estátuas e a fonte em segundo.


Há ainda um outro ritual que estes grupos insistem em cumprir depois de tirarem a foto da praxe: posicionarem-se de costas para a fonte (sempre de costas) e atirarem três moedas. Se a primeira acertar na fonte, significa que voltarão a Itália. Se a segunda mergulhar na água da fonte significa que irão apaixonar-se por um italiano/italiana. Se a terceira tiver o mesmo destino das anteriores, significa que se irão casar com o seu namorado/namorada. Depois, vão-se embora. Fim do rito.


As palavras de Guy Debord acerca da transformação das noções de espaço e de distância nas sociedades modernas nunca como hoje me pareceram tão certeiras: «Esta sociedade que suprime a distância geográfica recolhe interiormente a distância, enquanto separação espetacular. Subproduto da circulação das mercadorias, a circulação humana considerada como um consumo, o turismo, reduz-se fundamentalmente à distração de ir ver o que se tornou banal. A ordenação económica da frequentação de lugares diferentes é já por si mesma a garantia da sua equivalência. A mesma modernização que retirou da viagem o tempo retirou-lhe também a realidade do espaço».


Guy Debord explica que a comercialização dos espaços e a atribuição de um valor monetário aos mesmos implicam a anulação do seu valor artístico, histórico e cultural que é, na verdade, o que os torna incomparáveis. Estes lugares tornam-se, assim, todos iguais, no sentido em que a sua sujeição aos valores de mercado os torna comparáveis economicamente. O mercado de destinos turísticos que surge com esta ideia da comercialização do património, por meio da competição de mercado, hierarquiza económica e culturalmente os lugares, promovendo uns e despromovendo outros, valorizando e desvalorizando regiões e «culturas». Mas não é só a cotação monetária dos lugares que os torna iguais (à luz de um só critério). Estes rituais descontextualizados dos espaços, e que funcionam como uma forma de atração turística pela dimensão mitológica que conferem aos monumentos também significam a «banalização» dos lugares de que Debord fala. Da mesmo forma que atiram moedas à Fontana di Trevi, os turistas atiram também outras tantas a centenas de fontes que visitam noutros países do mundo, locais distantes e culturalmente distintos. Este hábito não tem nada que ver com a Fontana di Trevi, com a sua construção ou sequer com a sua história. Esta tradição surgiu depois do sucesso do filme americano «Three Coins in the Fountain», de 1954, filmado neste lugar.


Enquanto pesquiso acerca deste monumento, descubro a história de Roberto Cercelletta, um italiano também conhecido por D’Artagnan. Este homem ia todas as noites à Fontana di Trevi e recolhia, «de forma industrial» segundo o The Guardian, as moedas atiradas pelos turistas durante o dia. Conseguia, deste modo, arrecadar quantias que chegavam a perfazer mil euros por noite. Em 2011, Roberto Cercelletta foi filmado por um jornalista a apoderar-se das moedas da fonte, em conjunto com dois «cúmplices», sob o olhar pacato de um agente da polícia. Rapidamente a situação foi noticiada pelos jornais italianos, e a polícia foi forçada a intervir, impedindo este homem de realizar as suas incursões noturnas até à fonte. Como forma de protesto, Roberto Cercelletta esfaqueou-se múltiplas vezes na barriga e, em pleno dia, deslocou-se até à Fontana di Trevi. Entrou dentro da fonte e exibiu-se perante os turistas. Cercelletta achava que recolher moedas da fonte era uma maneira totalmente legítima de obter o seu rendimento e que impedi-lo era ilegal.


Conto esta história ao meu pai, e ele diz-me, «Esse homem é um respigador». Mas pergunto-me, o que é que este homem respiga? Em todas as notícias e sites que encontro ele é apelidado de ladrão, «o ladrão das moedas da Fontana di Trevi». Mas a quem pertencem aquelas moedas, afinal? Havendo roubo, tem de haver uma ou mais vítimas. Quem são elas, neste caso?


Este homem morreu em 2013, e quase não dispomos de informações a seu respeito. Não sei o que ele pensava da vida e do mundo. Porém, o seu gesto diz-me qualquer coisa, toca-me e penso sobre ele.


No seu filme «Os respigadores e a respigadora», Agnès Varda explica que o ato de respigar é um ato do passado, porque se destina a combater o desperdício. Assim, é um gesto que, hoje em dia, de acordo com as leis capitalistas de sobreprodução, deixou de fazer sentido. A certa altura, no início do filme, uma mulher que Varda entrevista num café diz: «Agora, já ninguém respiga para comer». Porém, parece que Roberto Cercelletta respigava para comer. Estava desempregado há muitos anos e queria arranjar um trabalho, mas não conseguia.


Numa das cenas finais do filme, Varda entrevista um outro homem que vive totalmente da recuperação de comida do lixo. Tem um bom emprego e uma casa onde viver, não o faz por necessidade. «Recupero coisas unicamente pela preocupação ética, porque acho absolutamente escandaloso ver todo este desperdício nas ruas». Também me parece escandaloso verificar que, todos os anos, mais de um milhão e meio de euros acaba dentro da Fontana di Trevi. Estamos perante uma verdadeira comercialização deste lugar. O turismo, tal como explica Dubord, está reduzido à transação de mercadorias e à lógica do lucro.


Estas moedas são um desperdício, sim. É verdade que, pelo menos até 2016, as quantias arrecadadas dentro da fonte eram entregues à Caritas para projetos de ação social. Contudo, este modelo de «segurança social» segundo o qual algumas pessoas, para poderem comer e ter uma cama para dormir, estão dependentes das viagens de lazer que outras fazem e da sua vontade de atirar uma moeda para dentro de uma fonte parece-me doentio.


Roberto Cercelletta fazia o mesmo do que a Caritas, mas não tinha intermediários. Não se sujeitava à vergonha e à humilhação de ter de se dirigir à Caritas Roma para pedir ajuda para sobreviver. O que causou tanto alarido? Terá sido o facto de o próprio Cercelletta recolher as moedas, prescindindo da intermediação de uma organização dedicada à caridade, tomando o seu destino nas suas próprias mãos e não recorrendo à ajuda de terceiros?

Na verdade, este homem afigura-se-me como um respigador no sentido puro, curvando-se para apanhar do chão o desperdício dos outros. Assim, é capaz de viver fugindo ao sistema, escapando à lógica capitalista de monopolização do tempo para a produção em massa. Cercelletta não tem de investir, como todos nós, todo o tempo do seu dia na produção de bens e serviços que, na sua maioria, em nada contribuem para a felicidade humana e se revelam, na prática, completamente inúteis.


Já por muitas vezes conversei com as minhas irmãs sobre esta loucura consumista que nos rodeia e sobre como poderemos contorná-la no futuro. Chegamos sempre à conclusão que é impossível fugir ao sistema, que o hiperconsumo penetra todas as esferas da vida social, desde a religião às relações familiares. Na sua obra «A Felicidade Paradoxal», Lipovetski explica isto mesmo. O hiperconsumo passou a fazer parte da vida dos indivíduos de forma ininterrupta. Já não existem espaços e momentos próprios para o consumo, visto que em todos os espaços e a todo o momento é possível consumir.


Porém, o respigador não trabalha, no sentido capitalista do termo, porque não gasta o seu tempo a produzir coisas inúteis e descartáveis. Não contribui, assim, para esta loucura, para esta produção incessante e massificada. Ele não é, por isso, um escravo do tempo.


Cercelletta conseguiu libertar-se da tirania hiperconsumista que a sociedade capitalista nos impõe. Por isso, eu própria gostava de conseguir vir a ser, ao longo da minha vida, uma respigadora. No seu filme, Agnès Varda afirma que não é só possível respigar objectos, que também podemos respigar factos, gestos e informações. E são essas coisas que eu gostava de conseguir respigar.