Portugal, Futebol e o Resto

As comunidades portuguesa e europeia deveriam focar-se nas dimensões que habitualmente não são consideradas como pertinentes no que respeita ao Desporto. Futebol é essencial, mas e o resto?

Crónica de Marta Dias e Francisco Araújo


Em Portugal, o futebol é considerado o desporto rei. Celebrado como aquele que incendia paixões, é capaz de mover uma população criando movimentos de adoração. Prestam-se cultos com hinos, gritos, rezas, vibrações e muito mais. No nosso dia-a-dia, somos bombardeados com notícias sobre jogadores da Liga Portuguesa e outros grandes nomes do futebol. A cobertura mediática e política cresce a nível exponencial. Contudo, no seguimento desta influência coloca-se uma questão essencial: e o resto?


Com os Jogos de Tóquio ouvimos falar de outros desportos e figuras distintas. A armada lusa contou com a participação de 91 atletas em 17 modalidades diferentes. Durante as últimas duas semanas, ouvimos incessantemente os nomes dos atletas que trouxeram medalhas para Portugal. Fernando Pimenta, Jorge Fonseca, Patrícia Mamona e Pedro Pichardo. Todavia, com a finalização dos Jogos, estes serão possivelmente esquecidos. Pedimos medalhas e reclamamos quando estas não são conquistadas, porém somos incapazes de seguir a evolução dos nossos atletas durante as suas carreiras. Esta não é uma situação isolada.


A cobertura mediática e a atenção pública são usualmente geradas aquando de grandes conquistas internacionais. Porém, nem todos os desportos a conseguem adquirir. Recentemente, o par feminino composto por Rita Ferreira e Ana Teixeira conquistou o primeiro lugar no Campeonato do Mundo de Ginástica Acrobática. No Campeonato Mundial de Atletismo para Deficiência Intelectual, Portugal alcançou 29 medalhas, cinco das quais de ouro. Ambos estes eventos dispuseram de uma cobertura altamente limitada.


O Desporto em Portugal não tem sido encarado como uma prioridade pelos sucessivos governos e isso tem um natural reflexo na apreciação que a sociedade faz dele. Existe um entusiasmo maior da população com o futebol e os políticos, ao invés de chamarem à atenção para as outras modalidades, focam-se naquele que é já o maior esquecendo-se do resto. A pandemia veio pôr a nu esse facto e a resposta destinada à recuperação do Desporto no âmbito da pandemia é sintomática disso mesmo.


O problema é que nem todos os clubes têm a capacidade de suportar as enormes perdas sofridas neste último ano e meio. Para termos uma ideia do impacto, segundo dados do INE, o número de clubes desportivos em Portugal - que vinha a crescer desde 2015 (com uma ligeira redução em 2017) - era de 11.429 em 2019. Os números preliminares referentes a 2020 dão conta de apenas 8.303, ou seja, menos 3.126 clubes para os quais a pandemia terá sido a machadada final.


A ajuda extraordinária ao sector apenas foi anunciada em março de 2021, um ano depois da pandemia ter fechado o país, e está a tardar a ser implementada - as candidaturas ao programa “Reativar Desporto” só abriram no passado dia 9 de julho e decorrem até 16 de agosto, o que significa que, na prática, os clubes apenas verão a ajuda chegar em setembro.

Por outro lado, podemos questionar se os valores anunciados no âmbito deste programa - 30 milhões de euros a fundo perdido, para apoio direto a clubes desportivos - são efetivamente suficientes. Naturalmente, nem todos os clubes terão direito a algum montante, quer por não precisarem, quer por não serem elegíveis por uma dita razão. Mas se tomarmos em consideração o número de clubes existentes em 2020, ainda que apenas metade (cerca de 4.000) venha a ter direito a qualquer verba, estamos a falar de um apoio no montante de € 7.500,00 para cada. € 7.500,00 para fazer face a dois confinamentos que paralisaram totalmente o setor. Não se pode considerar isto suficiente.


No início deste ano, a União Europeia (UE) deu um sinal claro aos Estados-Membros de que a ajuda à recuperação do Desporto é essencial para a atenuar os impactos sociais e económicos da pandemia. Falamos de um setor que representa cerca de 2,1% do PIB europeu e 2,7% do total de empregos da UE (aproximadamente 5,6 milhões de empregos). Mas Portugal parece querer manter a política de despreocupação e fraco investimento, esperando uns resultados positivos de tempos a tempos.


O futebol é, na actualidade, um fenómeno de elevada repercussão no panorama social, económico e político. Como efeito, outras modalidades têm uma menor cobertura mediática e financiamento público. Os dados apresentados acima demonstram parcialmente as repercussões geradas pela influência futebolística no território. Em última análise, as comunidades portuguesa e europeia deveriam focar-se nas dimensões que habitualmente não são consideradas como pertinentes no que respeita ao Desporto. Futebol é essencial, mas e o resto?