Porque não podemos fechar as faculdades

Ao longo dos últimos sete meses, assisti na primeira pessoa aos impactos das aulas à distância nos estudantes, enquanto dirigente da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa. Apesar de não ser fã de relatos autobiográficos, acho importante contar esta “história da covid-19” para todos percebermos o que acontece quando se fecha uma Faculdade

Crónica de João Moreira da Silva

Estudante de Direito, FDUL



Os impactos negativos de fechar as Faculdades e tornar o ensino online já são bem conhecidos entre todos nós - as desigualdades no acesso ao ensino digital, a degradação da saúde mental dos estudantes ou a maior dificuldade em aprender. Apesar disso, a empatia perde-se nos números das estatísticas. Por essa razão, acho importante fazer um relato na primeira pessoa do que vi enquanto dirigente associativo responsável pelo acompanhamento direto dos estudantes, agora que termino a minha estadia na associação de estudantes. Aqui vai.


No dia 10 de março, a direção da Faculdade de Direito de Lisboa anunciou a suspensão das atividades letivas presenciais. Na altura, todos nos preparámos para umas pequenas férias até “isto da covid-19 passar” - mas não passou. Ficámos o semestre inteiro fechados em casa. Todas as aulas passaram a ser realizadas por Zoom e os exames do final do semestre foram realizados online. A Faculdade ficou praticamente deserta até finalmente reabrir em setembro.


Não criemos a ilusão de que, até chegar a pandemia, corria tudo bem no Ensino Superior. Até ao dia 10 de março, recebíamos pedidos de ajuda de estudantes com alguma regularidade - não conseguiam pagar as propinas, a renda da casa, a alimentação ou os livros para estudar. Já existia muita miséria. Mas, infelizmente, o cenário pré-pandemia quase parece “positivo” quando comparado com o que aconteceu quando todos foram mandados para casa.


A partir de março, quando todas as aulas passaram a ser online por tempo indefinido, os pedidos de ajuda passaram a ser diários. Agora, já não eram “apenas” as dificuldades económicas que colocavam um entrave à continuidade dos estudantes no Ensino Superior - tivemos centenas de alunos com acesso limitado (ou nulo) às aulas, que nos contactaram em desespero ao longo do semestre.


Por um lado, tivemos os casos mais flagrantes de desigualdade. Estudantes - na sua maioria, internacionais - que viviam sozinhos em Lisboa e que não tinham ninguém na cidade que os pudesse ajudar. Nem pais, nem tios, nem amigos. Se já viviam isolados antes da pandemia, imagine-se quando foram todos obrigados a ficar em casa, sem computador e internet. Em muitos casos, até sem saldo no telemóvel. Muitas vezes, o desafio já não era apenas ajudar estes estudantes, mas sim conseguir contactá-los.


Quando distribuímos algumas dezenas de computadores e routers em maio, com a ajuda da Faculdade, pude falar com algumas das pessoas nesta situação. A grande maioria já não ia a uma única aula há dois meses. Não tinham quaisquer livros em casa - de pouco lhes servia ter livros disponíveis online, se não tinham computador. Por isso, também já não estudavam desde o fecho da Faculdade. Em maio, aqueles que conseguiram finalmente aceder às aulas à distância estavam a entrar com dois meses de atraso no segundo semestre, em comparação com seus colegas. Mas, no final, iam todos ser avaliados da mesma forma. A balança estava desnivelada e as probabilidades de sucesso estavam contra eles.


Por outro lado, tivemos os casos mais “leves” (mas não menos sérios), que talvez representem a maioria dos alunos prejudicados pelo ensino à distância. Estes estudantes não estão numa posição tão desfavorável como a referida nos parágrafos anteriores. A sua maioria tinha família e amigos a quem recorrer em Lisboa e não estavam totalmente infoexcluídos, mas foram igualmente prejudicados pelo fecho da faculdade.


As dificuldades destes alunos eram mais subtis. Alguns deles, apesar de terem um computador, tinham de partilhá-lo com mais pessoas; outros dividiam a casa com muita gente e, por essa razão, só conseguiam estudar a altas horas da madrugada, quando tudo estava mais calmo em casa.. São cenários que, embora pareçam triviais, os deixaram numa posição de desigualdade perante os colegas que tinham um quarto próprio para estudar, um computador pessoal, uma ligação à internet estável e os materiais de estudo necessários.



Impacto desigual


Perante este contexto, tivemos toda uma parcela dos estudantes que se viu total ou parcialmente excluída do ensino. Temos de ter em conta que estes estudantes, na sua maioria, eram os mesmos que já precisavam de apoio económico para continuar a estudar. Agora, à dificuldade em pagar o ensino acresceu-se o seu acesso ao mesmo, vedado por condições externas.


Escusado será dizer que esta conjuntura teve efeitos devastadores na saúde mental destes estudantes. Os pedidos de informação e ajuda para o gabinete de apoio psicológico da faculdade subiram progressivamente e a Universidade de Lisboa criou uma linha de apoio psicológico. Relembro, no entanto, que no caso dos infoexcluídos estas medidas tiveram pouco impacto: de nada serve criar mecanismos online se a pessoa não tem forma de os utilizar. Continua isolada, angustiada e excluída do ensino.


Bem sei que este relato pode soar dramático, mas foi esta a realidade a que estive exposto durante vários meses. Todos os dias, tinha um novo email na caixa de correio a alertar para mais uma situação de exclusão. Mais uma aluna que não tinha forma de consultar os livros necessários. Mais um aluno que tinha ficado sem internet a meio do exame. Mais uma aluna que não tinha microfone no computador para poder participar nas aulas online. Mais um estudante que estava prestes a abandonar o Ensino Superior.


Há situações mais e menos graves, ou mais e menos urgentes. Mas todas elas são um resultado direto do fecho das faculdades e do confinamento. Quando as faculdades encerram as suas portas, um largo número de alunos fica automaticamente excluído do Ensino Superior. Enquanto aluno e antigo dirigente associativo, recuso-me a compactuar com essa realidade.


Não esqueçamos que, para muitos destes estudantes em dificuldades, a Faculdade é muito mais do que o sítio onde estudam e têm aulas. A biblioteca, os bares, as salas de estudo, são todos espaços onde não estão isolados. Não estão sozinhos nas suas casas, sem amigos e família, à espera de que lhes digam que podem voltar a sair. Na faculdade, não passam despercebidos aos olhos de todos os que estão confortáveis em casa, preocupados com a nota que vão ter no final do semestre e alheios a essa situação. A faculdade é uma garantia de humanidade para estes estudantes - não consigo conceber que esta lhes seja retirada.


E se as faculdades tiverem de fechar?


Dito isto, não pretendo de alguma forma branquear as narrativas negacionistas da Covid-19 e as teorias da conspiração que as sustentam - que são tão perigosas para a sociedade como o fecho das faculdades é para estes estudantes. Na verdade, é possível que aconteça uma situação de emergência, em que não há qualquer solução alternativa para manter a faculdade aberta, como um sistema de aulas mistas. Podemos chegar a um ponto em que manter as faculdades abertas se torna insustentável - seja por um aumento dramático do número de casos infetados, seja pelo colapso do Serviço Nacional de Saúde, seja por qualquer outra razão.

Tendo em conta toda esta minha experiência (que, admito, pode fazer com que veja as coisas de uma face da moeda apenas) fico muito preocupado que isso possa acontecer. Não venho pregar pelo uso de máscaras, distâncias sociais e limites de pessoas em grupos - deixo isso a quem percebe do assunto. Mas deixo um pedido: que as histórias destes estudantes sejam uma motivação para adotarmos comportamentos que mantenham as faculdades abertas. E que, se tivermos de ir para casa, não nos esqueçamos de todos estes estudantes. Não tendo referido o nome de nenhum, não deixam de ser pessoas com quem nos cruzamos diariamente nos corredores e com quem falamos nas aulas e nos bares. Apesar de conhecermos alguns destes colegas, muitas vez não nos apercebemos de que, quando a faculdade fecha, eles seguirão num barco muito diferente de muitos de nós.