Porquê ser anticapitalista no século XXI?

Porque é que ninguém chega ao fim da vida a dizer que adorava ter dado mais horas extra no trabalho, se é algo que tanto nos realiza, e que preferia ter passado mais tempo a ler, a passear, a desenhar, a rir?

Crónica de Inês Tielas

Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais, NOVA-FCSH


Houve várias alturas em que a supremacia da ideologia capitalista parecia estar por um fio. No século XIX, ainda mal este sistema havia atingido a adolescência, já se antecipava o seu fim. No século XX, antes da eclosão do nazismo, Berlim era o solo fértil em que as mais revolucionárias teorias eram levadas à prática, a solidariedade entre trabalhadoras era ensaiada em várias espécies de comunas onde procuravam sobreviver à selvajaria do capital, artistas de toda a espécie experimentavam com identidades fluídas, alucinogénias, degeneradas. O algodão-doce technicolor da segunda metade do século passado foi sendo pontuada por momentos de verdadeira rutura. Por todo o mundo os movimentos anticoloniais e decoloniais foram-se livrando do monstro do colonialismo, trazendo consigo o sonho de substituir a tirania de umas pelas utopias todas. Líderes democráticos socialistas foram eleitos para pôr fim a eternos monopólios. No país mais capitalista do mundo, não há tanto tempo, foram movimentos inspirados pelos vários sonhos socialistas que se opuseram ao apartheid, desafiando a sociedade a ser verdadeiramente de todas.


No entanto, de então para hoje tornou-se quase impensável ser-se anticapitalista. O fim da história triunfou, se não nos acontecimentos, no discurso. Já não conquistámos que chegue? Já não temos máquinas em casa, e roupa a transbordar de todas as gavetas, e tanta comida no frigorífico como no caixote do lixo? Não temos programas de televisão e concertos e o black Friday e iphones novos todos os anos para provar que é impossível vivermos melhor do que vivemos hoje? E se assim é, então porque quereríamos ser anticapitalistas?


Não vou fingir que sou capaz de dar uma resposta à altura da pergunta, mas acho que consigo redesenhar o ponto-de-fuga neste quadro complicado, começando por definir o que é o capitalismo. A maior parte das definições enfatiza uma de duas coisas: o capitalismo como um sistema económico que opera através de mercados descentralizados; e o capitalismo como um sistema político em que a propriedade privada de capital determina a diferencial alocação de poder na sociedade. O capitalismo pode definir-se, portanto, como um sistema político e económico de organização social, assente na desigual distribuição de poder na sociedade, através do mecanismo dos mercados mais, ou menos, regulados, e da propriedade privada de capital.


Mas porque é os mercados e a posse de capital serem mecanismos de criação e manutenção de assimetrias de poder é algo errado? Porque é que haveríamos de querer procurar uma alternativa, quando sabemos o que aconteceu quando a Rússia tentou uma alternativa com a URSS, ou a China com o Mao?


Uma resposta é o facto do capitalismo, por ser fundado numa distribuição desigual de poder, implicar, inevitavelmente, uma distribuição desigual de recursos. Esta desigualdade, por si só, não teria de ser necessariamente injusta, não fosse o facto de se tratar de uma iniquidade radical: o capitalismo é o sistema que gera a maior miséria no meio da maior abundância. O contra-argumento fácil é dizer que uma coisa nada tem a ver com a outra, que a miséria de uns em nada se deve à abundância mórbida de outros, mas… Todos nós sabemos que a roupa que enche o nosso armário vem de sweatshops, onde as mais miseráveis pessoas trabalham sem direitos ou condições até morrerem tão ou mais pobres quanto começaram; todos nós sabemos que o açúcar que nos chega na forma de alimentos processados não só nos mata a nós, como é obtido através da brutalidade e da coerção; o mesmo se passa com o café; e com os metais que dão bateria aos nossos telemóveis; e com virtualmente tudo o resto que nos chega a casa, ao escritório, ao carro.


Todos nós sabemos que para que haja lucros brutais no sector imobiliário, inúmeras pessoas precisam de ficar sem casa, e de ser enxotadas para cada vez mais longe. Todos nós sabemos que o crescimento ilimitado é completamente antagónico a tudo o que é preciso ser feito para pararmos e, na medida do que ainda for possível, revertermos, as mudanças climáticas que já estão a ceifar vidas que pouco ou nada contribuíram para o problema. Estes acontecimentos não são coincidências, nem eventos separados um dos outros, mas antes pertencem às mesmas lógicas capitalistas de crescimento e acumulação infinitos.

Isto leva-nos ao segundo grande problema do capitalismo: mesmo aqueles de nós (não-capitalistas, no sentido de não possuirmos capital) que não vivem descalços, que até dispõem de rendimento para ir ao cinema ou às compras no fim-de-semana, vivemos manietados pela necessidade de vender grandes quantias de trabalho para sobreviver. Para quem começa sem capital, a liberdade de fazer o que se quer com a vida é apenas uma ficção; na melhor das hipóteses é uma aposta de alto risco que raramente leva à desejada estabilidade.


O capitalismo restringe, necessariamente, a liberdade da maior parte dos indivíduos de ter agência e de controlar o seu próprio destino, pois se tivéssemos a liberdade de fazer o que realmente quiséssemos da vida, por que motivo venderíamos o nosso corpo, intelecto e tempo à Jerónimo Martins? Por que razão as trabalhadoras das lojas Inditex se sujeitariam a poder ser chamadas, no seu dia de folga, conforme bem entenda a patroa? Porque é que a depressão é uma das maleitas mais recorrentes do século XXI, se aparentamos todas estar tão felizes e satisfeitas com o sistema? Se a vida é tão boa, porque é que tantas de nós se refugiam cronicamente no álcool? Porque é que ninguém chega ao fim da vida a dizer que adorava ter dado mais horas extra no trabalho, se é algo que tanto nos realiza, e que preferia ter passado mais tempo a ler, a passear, a desenhar, a rir? Se este é o único sistema que nos permite realizar os nossos sonhos, porque é que a maioria das pessoas que sonha com uma vida artística ou de contemplação, e até segue cursos superiores nesse sentido, acaba desempregada e a suplicar por qualquer emprego que os aceite em áreas que nada têm a ver com os seus sonhos?


Novamente, estamos perante o mesmo dilema: a total liberdade dos capitalistas e dos mercados de escolher, discricionariamente, a quanta liberdade é que o resto tem direito. Isto não invalida que haja pessoas que gostem efetivamente do seu trabalho: há quem seja genuinamente feliz, se sinta estimulado, desafiado e realizado ao ter encontrado um nicho para si, dentro ou fora dos mercados, conforme o capitalismo os conceptualiza. O objetivo não é acabar com a satisfação que essas pessoas sentem, mas garantir que a felicidade, que advém de viver uma vida com significado e agência, não está reservada a apenas uns quantos.

A história não se repete, mas às vezes rima. Se os últimos meses provaram alguma coisa, é que precisamos umas das outras, e que o egoísmo e avarícia cega não são capazes de enfrentar os desafios que nos esperam. Então, porque não começar por repensar os valores sobre os quais queremos construir a nossa sociedade? Tentativas passadas imaginaram que planificando tudo, a utopia se concretizaria, mas acabaram por realizar autênticos pesadelos. Nós não temos de cometer os mesmos erros para recuperar a capacidade de imaginar outros futuros. No fundo é isso que ser anticapitalista é: rasgar a ilusão de uma harmonia que nunca o foi, e querer conquistar a liberdade de tomar controlo sobre as nossas próprias vidas para irmos criando um mundo mais à medida de todas nós.