Política à mesa, receita para o desastre?

(...) se, mesmo sem anúncios de noivados, souberes que a tensão vai subir e rebentar egos, espera pela sobremesa - pior do que perdigotos do tio Pedro na tarte de maçã? Perdigotos do tio Pedro no queijo da serra

Crónica de Teresa Brito e Faro

Estudante de Direito na Faculdade de Direito do Porto


Olhando para trás e contemplando o meu histórico de gritos trocados à mesa em jantares de família, visualizo um percurso interessante e digno de análise - desde alguns bons momentos como incendiária a outros menos entusiasmantes como mediadora de conflitos. Por pouco agradável que se tenha revelado submeter-me a esta espécie de exame de consciência (coletiva, porque, para já, não grito com as paredes), sinto, agora, o peso de uma responsabilidade cívica que me obriga a partilhar o conhecimento amealhado nestes 19 anos, como membro de uma família opinativa - sobrevive quem é opinativo.


Antes de me aventurar a expor as verdades - há tantos séculos ocultas - sobre esta estranha realidade, gostava de avisar que a política, para bem da minha sanidade, não é um tema que chegue a ocupar metade do tempo passado em disputas familiares. Ainda assim, estou confiante de que as guerrilhas suscitadas por um polémico copo fora do sítio, ou por um saco do lixo que se recusa a deslocar-se sozinho até ao ecoponto, se poderão revelar surpreendentemente conclusivas para efeitos deste estudo.


Passemos, então, sem mais demoras, às conclusões:


Ao longo dos anos, fui aprendendo com alguns familiares mais sensatos a saber “ler a sala”, ou, se preferirem, “to read the room”. Este mandamento exige pouco mais do que bom senso, mas, no calor do momento, da feijoada e do vinho, poderá ser preciso fazer um exercício consciente de regulação de temperatura. A prima Marta acabou de anunciar que está noiva do Francisco, dá-lhe um desconto, tens até ao casamento para lhe perguntar porque é que se apaixonou por um socialista. Por outro lado, se, mesmo sem anúncios de noivados, souberes que a tensão vai subir e rebentar egos, espera pela sobremesa - pior do que perdigotos do tio Pedro na tarte de maçã? Perdigotos do tio Pedro no queijo da serra, onde vão repousar mais horas e fazer mais estragos. - Assim, apesar de reconhecer que cada família tem o seu próprio horário de ovulação de discussões frutíferas, acredito que o mais seguro será esperar pela altura em que o tédio e a má-disposição tomarem conta e já não houver nada a perder.


Depois de apalpado o terreno e assumido o desafio, importa perceber qual a finalidade do debate, onde nos leva um tão bonito e cívico momento de partilha? Isto traduz-se em decidirmos, a priori, se intervimos por verdadeiramente tencionarmos convencer o nosso tio de que o André Ventura não deixou tudo para resgatar o país (nem a Finparter, veja lá), ou, porque é divertido e uma boa desculpa para não vermos Harry Potter e o Cálice do Fogo pela 17º vez com os nossos primos. Não questiono a legitimidade das razões, mas saliento a importância da existência de uma. Atribuir uma finalidade à discussão permite-nos avaliar o quanto de nós queremos deixar naquela mesa, quiçá controlando a tentação de bater a porta do quarto e só aparecer no Natal.


A terceira e última lição é um angustiante, mas necessário, banho de realidade. Para todos vocês, leitores patologicamente inconformados, tenho notícias tristes. Por muitos berros trocados, copos de vinho do porto entornados, ou ritmos cardíacos acelerados, qualquer discussão que se assemelhe às que serviram de objeto no meu estudo será tão educativa e enriquecedora como a caixa de comentários de um algo controverso post de Facebook. Na verdade, cada vez encontro mais semelhanças entre este tipo de debate familiar e uma troca nervosa de tweets zangados - diz-se o que se quer sem filtros e sem necessidade de fundamentação, porque o espaço descontraído o permite. - Se os utilizadores do Twitter não pensam duas vezes antes de partilharem com o mundo que a francesinha do jantar de ontem deixou a desejar, também não o fazem antes de retweetarem um desabafo do Diogo Faro face ao último escândalo da direita portuguesa.


De igual modo, se, à mesa, minutos antes, as tias jogavam, sem pudor, ao “Que duquesa envelheceu pior” (vem grátis com a revista ¡HOLA!, para os mais curiosos), porque é que haverias de refletir, entre garfada de farinheira e gole de vinho, antes de nos elucidares sobre o que está por detrás da crise humanitária do Iémen?


Num mundo perfeito, mais pessoas seriam dotadas daquela tão rara e subvalorizada proeza de não responder sempre, não comentar sempre, não falar sempre. Infelizmente, esperar tal milagre, em 2020, faria menos sentido do que uma candidatura do Kanye West à presidência dos EUA. Percebo, é difícil estar calado, quando o que se glorifica é fazer barulho por fazer. Opiniões são factos e factos servem quando dão jeito, portanto, o que é que importa? Na minha (mera) opinião, importa valorizarmos a nossa liberdade de expressão como direito, mas também como dever.


Beneficiamos de viver num tempo que nos dá microfone e público - desde os nossos primos mais novos aos utilizadores do Twitter que não conhecemos - o mínimo que podemos fazer é passar o microfone quando sabemos que vamos desafinar. Acreditem, a vida continua e a plateia agradece.