Persepolis - Onde o que nos é pessoal é sempre político

O curioso desta animação é essencialmente a maneira como podemos ver a história de um país pelos olhos de uma criança - a revolta de uma nação que se ecoa nas suas próprias convulsões internas.

Crónica de Afonso Abecasis


"A liberdade tem sempre um preço", diz-nos Marjane (pela voz de Chiara Mastroianni), no final do filme Persepolis (2007), quando esta chega à Europa pela segunda vez. Estamos no início dos anos 90. Marjane - que conhecemos pela primeira vez em 1978 como uma rapariga determinada - é uma jovem mulher por esta altura, divorciada recentemente e sufocada sob os limites repressivos da vida na República Islâmica do Irão. Antes do seu breve casamento, havia sido presa por dar as mãos a um homem. O seu castigo: pagar uma multa ou ser chicoteada. Num momento pensativo, o seu pai paga a multa e comenta que quando ele e a mãe de Marjane eram adolescentes, podiam andar abertamente de mãos dadas. "Só de pensar que era o mesmo país..."


Persepolis é um filme de animação a preto e branco baseado no romance gráfico e autobiográfico de Marjane Satrapi com o mesmo nome (publicado pela primeira vez em 2000). As suas ilustrações simples e poderosas retratam o amadurecimento da protagonista, tendo como pano de fundo a sua vida, antes e durante a Revolução Iraniana e o seu cruel rescaldo.


Como o pai de Marjane sugere no filme - adaptado e realizado por Satrapi juntamente com Vincent Parronaud - o Irão parecia, de facto, dois países diferentes. Marji era uma criança quando a Revolução retirou o Xá do poder, e tornou-se uma mulher quando o regime islâmico recuou no progresso democrático. A família Satrapi é secular, moderada, intelectual e politicamente de esquerda. Antes da revolução, frequentavam festas onde as pessoas bebiam, fumavam e debatiam sobre política e sexo. Mas depois da revolução, estes eventos foram empurrados para a clandestinidade. Tornaram-se encontros ilegais com álcool transportado em latas de gasolina. Como explica Marji, continuar a conhecer amigos daquela maneira era arriscado, mas as festas "eram o nosso único espaço para respirar".


Quando Persepolis começa em 1978, as ruas de Teerão ecoam a gritos e manifestações para derrubar o Xá. A família de Marji, como muitos, está cheia de esperança e alegria na perspetiva de uma mudança política. Como o pai dela aponta, "este regime está condenado. Um dia vai cair." E assim foi. O Xá abandonou o Irão no exílio em Janeiro de 1979, e Ayatollah Khomeini tornou-se o líder supremo no final desse ano. Mas a nova democracia que se esperava não passava de uma miragem.


Em vez disso, a sociedade iraniana fechou-se sobre si mesma, quando os fundamentalistas islâmicos ganharam a maioria no referendo posterior. Estabeleceu-se um Estado teocrático, a República Islâmica do Irão, e com ele um período de brutal opressão. Àqueles que se opunham à nova ordem, esperava-lhes a prisão ou a tortura. Os direitos e liberdades, especialmente os das mulheres, foram totalmente reduzidos. As universidades foram expurgadas de dissidentes. Os jornais foram monitorizados e fechados. Delitos relacionados com droga ou de algum teor sexual eram puníveis com a morte. Como Marji explica: "Todos nós vivíamos com medo."


Embora o regime do Xá fosse considerado corrupto, era também um tempo de alguma abertura cultural. Persepolis realça os contrastes entre o antes e o depois da Revolução duma forma tão nítida como as imagens a preto e branco. Em pequena, Marji era de uma natureza animada e atrevida, curiosa sobre tudo e propensa a todos as fantasias da juventude – até acreditava ser uma profeta nomeada por Deus. Marji adorava a cultura ocidental, especialmente Bruce Lee e os Bee Gees, mais tarde proibida pela nova teocracia. A música pop e rock só podia agora ser obtida no mercado negro. Lançando a sua própria rebelião e protesto, Marji susbtitui então os Bee Gees pelos Iron Maiden.


O curioso desta animação é essencialmente a maneira como podemos ver a história de um país pelos olhos de uma criança - a revolta de uma nação que se ecoa nas suas próprias convulsões internas. Marjane mostra-nos o que foi viver, tanto para ela como para muitos iranianos, um período turbulento da sua vida. Persepolis é demasiado subjetivo para ser um documentário, mas a verdade é que é um documento da época. A política do Irão é-nos explicada através duma experiência profundamente pessoal, mas onde a história se torna um registo de memórias, individuais e coletivas."Lembro-me", começa a narrativa de Marji, enquanto ela nos guia pelas suas crónicas. Persepolis é simultaneamente um livro de memórias de Marjane Satrapi e um livro de história das agitações políticas, sociais e culturais do Irão desde o final dos anos 1970.


Persepolis também oferece uma introspeção sobre a política de género, talvez sem pretender fazê-lo. É explicitamente a experiência de uma mulher que chega à maioridade no Irão, numa altura em que o que significava ser mulher no país mudou drasticamente. Satrapi disse que Persepolis não se destinava a fazer uma declaração política, mas uma declaração é inevitável quando a redução predominante da liberdade que testemunhamos é um limite da liberdade corporal e sexual de Marji por ser mulher. Isto torna-se claro numa sequência marcante em que os dias trágicos da guerra terminam com uma cortina a fechar-se sobre o passado, que se dissolve e prossegue para uma sala de aula repleta de raparigas, incluindo Marji, todas agora de véu. As professoras usam o chador. O véu é defendido como "um símbolo de liberdade" e os corpos das mulheres são policiados por todo o lado. O espaço negro e opaco do chador das professoras parece uma ameaça prestes a engolir Marji por inteiro.


Atos de rebelião feminista são comuns no cinema iraniano. Ver as mulheres iranianas desafiarem a autoridade é também vê-las desafiar a visão convencional sobre elas no Ocidente enquanto subservientes, exploradas e pouco mais. Marjane luta com a forma como o mundo procura catalogá-la, destemidamente. Persepolis mostra-nos que a realidade da experiência das mulheres é muito mais interessante do que sugerem os estereótipos.


À medida que Marji cresce, a forca da opressão aperta. É então que é enviada para o estrangeiro para estudar, visto que a família receia que o seu temperamento lhe dificulte a vida no Irão. Longe de casa, passa por momentos difíceis e sente-se deslocada quando regressa. Mas há muito humor no meio de tudo isto, sobretudo numa cena emblemática em que Marji tenta reavivar a sua paixão pela vida ao som do "Eye of the Tiger". Ao longo das convulsões sociais e pessoais, Marjane apoia-se na estreita relação que tem com a sua avó, que lhe lembra: "Mantém a tua dignidade e mantém-te fiel a ti mesma." Desta forma, Persepolis é um ato de lembrança e perdão pelo passado.


Marjane relembra a sua vida a preto e branco, mas a sua força, paixão e vivacidade lembram-nos que é tudo menos isso - preto no branco.