Pedro Lains, um nome para a História

Pedro Lains, professor, investigador e economista, é licenciado em Economia pela Universidade Nova de Lisboa e doutorado em História pelo Instituto Universitário Europeu. Aos 62 anos, Portugal perdeu um dos maiores conhecedores natos da História da Economia Portuguesa e Ibérica até à atualidade.

Texto de Joana Garrido Amorim

Testemunho de Afonso Madeira Alves, ex-aluno de Pedro Lains



Em Florença, com uma passagem por Oxford anteriormente, o professor impulsionou a sua carreira enquanto economista com a de doutoramento sobre se “Portugal tinha ou não beneficiado da globalização do século XIX e porquê.”Com passagem pela Carlos III de Madrid e pela Universidade de Brown, volta a Portugal, começando um percurso que viria a ser revelador de uma carreira académica exemplar, sempre ligada à produção de variados livros e artigos.

Publicou artigos de grande destaque em revistas internacionais de renome, escreveu sobre a História da Caixa Geral de Depósitos, livro que lhe reconheceu um distintivo mérito académico. Publicou várias obras como “A História Económica de Portugal, 1142-2010”, “A História Económica da Península Ibérica desde o ano de 711 até à atualidade”.

“No ano de 1945... havia em Portugal um certo optimismo sobre as perspectivas de recuperação da economia e o papel que o Estado poderia desempenhar para alcançar uma maior prosperidade do país. (...) um sentimento generalizado de que a economia portuguesa havia avançado alguns passos na direção das economias mais desenvolvidas do Norte da Europa.” (Lains, P. (1994), o Estado e a industrialização em Portugal, 1945-1990, Análise Social, vol.xxix (128), 923-958) (pág.924).

Reconhecido pela extensa e minuciosa investigação sobre a Economia Portuguesa, Pedro Lains deixou-nos um legado de muitos anos dedicados ao trabalho de investigação. Inteiramente académico, o professor viu muitas vezes os seus artigos serem mais valorizados internacionalmente do que nacionalmente, o que o torna desconhecido para muitos. Sem percurso e perfil político, Pedro Lains escreveu o que nenhum economista português conseguiu escrever até à data. Sobre factos histórico-económicos do seu país que explicam a condição económico-social que Portugal atravessou ao longo dos séculos. Pedro Lains esclarece, cientificamente e factualmente, o percurso da economia portuguesa no passado, os benefícios da globalização ainda por colher e os reflexos que permitem compreender a Economia Portuguesa de hoje.


Testemunho:

O Professor Pedro Lains, um intelectual que não seguia o jogo da moda. Nas aulas de História Económica, uma das últimas cadeiras da licenciatura de Economia na Universidade Católica, era notória a sua desilusão se, chegados ao final da aula, ninguém tivesse perguntas a colocar. Tudo porque, apesar da sua aura de docente clássico, estávamos perante alguém que entendia o que era ser aluno de Economia. Sabia que, entre tantas curvas e modelos macroeconómicos leccionados, era fácil terem-se esquecido de fomentar o espírito crítico de jovens que não deveriam estar ali só para ouvir.


Talvez ainda seja contraditório afirmar que o historiador é dos que mais se preocupa com o futuro. No caso de Pedro Lains, essa posição era incontestável. Um aliado das novas gerações, dedicou-se a relembrar-nos que toda a Economia tem um contexto histórico de interpretações mil. Consideremos os números, mas nunca nos confinemos neles. A Economia é, como todo o ser, social; e tem, também como todo o ser, a sua História.


Recordo que, numa sala sem cadeiras suficientes para todos os estudantes, doava a sua ao primeiro que temia ter de ficar uma hora e meia sentado no chão. Assim ensinava, sempre de pé e com um livro na mão. Ocasionalmente, interrompia o seu discurso de um inglês perfeito (consequência de uma vida académica diferenciada), para indagar-se ante uma plateia silenciosa composta por estudantes dos quatro cantos do mundo: "Alguém ainda me está a ouvir?".


Hoje respondo-lhe, por entre as várias homenagens que lhe são feitas, à pergunta carregada não só de fino humor, mas também de uma genuína preocupação com a eficácia da transmissão de tanto conhecimento: Sim Professor, estávamos a ouvir. E tal como à História, valerá sempre a pena recordá-lo.