Para quem nasce o infinito?


Numa altura em que o significado histórico e religioso do Natal se desvanece de ano para ano, há uma pergunta que se torna necessária colocar. Afinal, para quem ainda nasce este Menino?


Crónica de Francisco Costal

Estudante de Medicina, NOVA Medical School




Ei-Lo, nos braços da Mãe, debaixo do olhar atento do Pai, rodeado de animais de estábulo. Ei-Lo, sereno e ternurento, nas palhinhas deitado, debaixo do céu estrelado, o Menino que havia de mudar a História.


Há 2020 anos que se repete a cena central da nossa civilização. Desde então que o Homem não consegue desviar a sua admiração da discreta beleza do Presépio, nem deixar de ser atraído para a força que irradia do cenário natalício.


Dois milénios volvidos, continuamos sem entender totalmente o amor imensurável deste acto. Como pôde o Infinito tornar-Se finito? Como pôde o Rei dos Reis abdicar da Sua majestade para nascer entre os mais pobres do Seu tempo? Como pôde o Todo-poderoso fazer-Se todo-pequeno: uma criança frágil, desprotegida, vulnerável? É extraordinário e miraculoso: no culminar dos tempos, o assentimento absolutamente livre de uma Virgem pôs em marcha o plano de Deus – uma estrela brilhou no firmamento, o Filho fez-se Homem, o Verbo encarnou em Belém.


No entanto, numa altura em que o significado histórico e religioso do Natal se desvanece de ano para ano, há uma pergunta que se torna necessária colocar.


Afinal, para quem ainda nasce este Menino?


Nasce para os pobres, pois como eles nasceu: numa gruta, ao frio, sem um tecto que fosse Seu. Haviam de ser os pobres os primeiros a ouvir a notícia esperada por toda a humanidade: nos campos, fora das muralhas da cidade, foram os pastores que escutaram o cantar celestial dos anjos.


Nasce para os refugiados, os desvalidos e os remendados, porque ainda no seio de Maria Se viu obrigado a sair de Nazaré, Sua casa, em direcção a Belém, para logo de seguida fugir para o Egipto, correndo contra a sede sanguinária de Herodes. Assim, o Salvador deu os primeiros passos e pronunciou as primeiras palavras numa terra que não era a Sua.


Nasce para os desesperados, pois foi Ele a luz que brilhou no meio da escuridão da noite. Foi por este Menino que esperou Adão, que caminhou Moisés e que chorou David. Foi Ele a glória prometida aos olhos de Simeão que, enfim, se fez carne e osso.


Nasce para os cativos, porque foi pela Liberdade de uma mulher que Deus veio ao mundo; foi pela Liberdade de um homem que foi protegido de um rei tirano; e foi a Liberdade de ambos que venceu as circunstâncias adversas que se lhes colocaram.


Nasce para os poderosos deste mundo, para que se recordem que nasceram para servir e não para ser servidos. Memorem, ao olhar para esta criança, que o garante da Liberdade, da Justiça e da Verdade é a Vida, e é esta que devem proteger acima de tudo o resto.


Nasce para os sábios, já que foi ao observar as estrelas que os Reis Magos se puseram a caminho de Belém. Surge, pois, para todos aqueles que admiram a Beleza do mundo em volta e que se propõe a desvendar os seus mistérios físicos e naturais.


O Deus Menino nasce para todos e cada um de nós. Neste ano de 2020, repleto de trevas e momentos de escuridão, Ele é a luz que mostra o caminho.

Ei-Lo, dormindo descansado, a pedir-nos que tomemos acções concretas e eficazes para ajudar os mais pobres e esquecidos da sociedade e, neste ano de modo particular, os que tudo perderam às mãos das medidas restritivas.

Ei-Lo, nos braços de Maria, a lembrar-nos que, embora o vírus nos domine o pensamento, há muito que fazer fora do conforto das nossas casas: velhos abandonados em lares, crianças sozinhas em instituições, refugiados em campos incendiados, pessoas em botes de borracha no meio do mar.


Ei-Lo, debaixo do olhar de José, a sussurrar-nos que a pandemia deixou muitos sós e abandonados, e outros tantos tristes, combalidos e deprimidos, e que é nossa obrigação grave não os deixar cair no buraco negro do desespero.


Ei-Lo, deitado entre os animais, a recordar-nos que foi a Liberdade o motor da História da Salvação, desde Abraão até Maria, e que, por isso, devemos combater por este valor. O verdadeiro Amor só existe com verdadeira Liberdade.


Ei-Lo, fugindo da morte certa, a ensinar os governantes de que a vida humana deve ser protegida durante todo o seu curso, desde a sua concepção até à sua morte natural. A verdadeira compaixão está em acompanhar e proteger toda a vida, em especial os fracos e inocentes.


Ei-Lo, tendo os Magos como convidados, a mostrar-nos que a Ciência deve estar ao serviço da Verdade, que até os produtores de conhecimento devem ter a humildade de admitir as suas limitações, e que, por isso, nem tudo o que é tecnicamente possível é eticamente desejável.


O Verbo fez-se carne para que nós, os cegos, vejamos; para que nós, os doentes, fiquemos curados; para que nós, os coxos, dancemos de alegria; para que nós, os mortos, despertemos do nosso profundo sono.


Jesus nasce para nos lembrar de uma verdade evidente: que até num ano como este, em que a noite prevaleceu, há sempre uma estrela que brilha no céu e aponta o caminho. O Menino vive e dorme, feliz e ternurento, porque a seguir à noite vem sempre o dia, e porque é no escuro que brilha mais forte a luz.


Portanto, abramos as janelas de par em par, saiamos de casa cheios de esperança, corramos pelas ruas anunciando a boa notícia, e brindemos alegremente com os que nos são queridos.


Eis a noite mais extraordinária do ano, em que Cristo nasce para todos!