Palmela: A singularidade de uma vila pintada sobre o Sado


Um povo que tem, em si, a tradição do pão, do queijo e do tão famoso vinho, não tem muito por onde se queixar

Crónica de Duarte Fortuna

Autor convidado da rubrica Pela Estrada Fora


Muito poderá dizer-se acerca desta vila de onde pertenço. A sua história recente não enganará quem venha à descoberta de um recanto de pacatez conjugado com um estilo de vida um tanto ou quanto semelhante à vida citadina, algo que poderá ser de estranhar pese embora a denominação de vila a esta terra a que chamamos Palmela.


Palmela, como o historiador local António Matos Fortuna outrora havia descrito, “a par da cidade de Setúbal, seria um dos concelhos mais antigo a sul do Tejo”, encontrando-se, ao longo do tempo, em confrontos pela paternidade dos restantes concelhos. Dessa forma, encontra-se documentado, e sendo celebrado, um feriado da carta foral a Palmela que não mais celebra senão a extinção do concelho, o que poderá ser visto como um absurdo, mas decisões autárquicas estarão noutro plano neste breve comentário acerca da vila a que pertenço.


Assim sendo, Palmela, outrora como aldeias vizinhas, como Quinta do Anjo, que crescem com a revolução industrial, vivia na serra e a sua população tinha na serra do Louro e de São Luís o seu habitat natural.


Outrora esculpida no seio da Serra da Arrábida, como já referido, actualmente Palmela vive da mesma, tendo nela o seu ex-líbris constituindo a mais bela tela vista do Castelo de Palmela. Sendo um dos vários pontos de observação do Sado e sua vasta e bela área circundante, a visão chega a alcançar Lisboa.


Um povo que tem, em si, a tradição do pão, do queijo e do tão famoso vinho, não tem muito por onde se queixar, encontrando-se, nesses três monumentos gastronómicos, as obras máximas do concelho que recentemente têm posto o nome da vila e do concelho no mapa. Consequentemente, encontramos uma mesa composta sempre que os três elementos se encontram em sintonia, nunca esquecendo os moleiros que, dos moinhos da Serra do Louro desde as origens desta singela vila, se dignam ao trabalho de produzir a farinha que servirá de molde para o nosso pão, dos vinhateiros que produzem e não esquecem as raízes dos que outrora produziram vinho a nível de “vinho do lavrador”, o chamado “vinho a granel” e que hoje colocam o Vinho e o saudoso moscatel de Palmela num patamar elevadíssimo. Por fim, os queijeiros que a partir do que a terra e a serra nos ofereceram. Sim, muitos dos elementos fulcrais destes famosos queijos provêm da nossa serra e dão origem a obras de arte que se desfazem na boca.


Os três reunidos trarão ao seu povo, aos seus conterrâneos, a festividade que é em parte o sangue que pulsa nas veias de quem aqui mora e que celebra o culminar da fase mais importante do ano, as Vindimas. A tão famosa festa das Vindimas, tanto para mais jovens, como eu, como para mais velhos, traz uma sensação de pertença a uma comunidade, a uma união de orgulhos que se brinda com o copo - ou a garrafa -, em riste, saudando todos aqueles que ajudaram e fazem da vila e da vindima o seu nome, carregando-a por todos os cantos do mundo. Pois, como o ditado local diz “onde quer que vás haverá um palmelão”. As palavras não enganam, aqui ou na China existirá sempre alguém que falará e levará a vila de Palmela consigo.



Portanto - e saudosismos de parte - quem quer sair de casa à descoberta de algo único e não ficar apenas pelas nossas praias - sim porque não só de Setúbal serão as praias da Arrábida, esse opus magnum de um distrito (deixo aqui essa farpa) -, tem em Palmela um diamante em bruto para explorar, tradições com a serra agora nas costas, mas sempre no pensamento; uma população que acolhe e que sabe celebrar a vida de uma forma que só bebendo um bom vinho se poderá explicar, fundindo-se tudo com a gastronomia e qualidade que só estando presente se consegue comprovar. Pão, queijo e vinho, os três irmãos que fazem deste concelho um concelho a viver, a estar, e que criaram a fibra dos que hoje vivem de olhos postos no passado dispostos a produzir para o futuro, levando essa bela palavra que é Palmela aos quatro cantos do mundo. Essa será a singularidade desta terra pintada sobre a tela que é o Sado, águas azuis rodeadas de verdes serras e planaltos, com gentes singelas e humildes.


Encontramo-nos no castelo para um bom vinho e uma boa vista. Até lá!