Os russos não são todos filhos de Putin

Ao abrir o computador para começar a escrever esta crónica estava na esperança de conseguir que esta não fosse dedicada ao conflito que estamos a assistir no leste da Europa. Não por o desconsiderar (muito pelo contrário), mas por sentir que pessoas mais bem informadas do que eu já têm vindo a contribuir para o debate, informando competentemente o público.

de Francisco Lemos Araújo




Acabei, assim, confrontado pelo medo de escrever de forma insuficiente sobre o tema, correndo o risco de contribuir para a desinformação ou de serem apenas mais umas linhas escritas, sem real acrescento. No entanto, é difícil ignorar a invasão de um país soberano por outro, tal como é difícil ignorar as consequências que daí advieram e advêm todos os dias.



Na Europa, principalmente na União Europeia, vivíamos numa bolha de paz que decidimos que queríamos preservar. E mesmo quando essa bolha sofreu golpes ao longo dos últimos anos, considerámos que seria melhor fingir que nada se tinha passado. Quisemos acreditar que o estado de guerra é que é a exceção, quando na verdade, a exceção é a paz.



A invasão da Ucrânia pela Rússia, feita de forma deliberada, é um ato altamente condenável. Como se foi provando com o passar dos dias, todas as justificações avançadas pelo Kremlin não passaram de desculpas esfarrapadas e eu não tenho qualquer tipo de dúvida de que devemos estar ao lado e apoiar a Ucrânia nesta luta.



Não obstante, é impossível ignorar que estamos perante uma situação crítica no panorama geopolítico. As sanções aplicadas à Rússia demorarão tempo a surtir efeito e uma intervenção direta de alguns dos países da União Europeia e/ou da NATO levará a uma globalização do conflito que me parece que todos queremos evitar. Ao mesmo tempo, assistir de forma passiva à tomada de Kyiv pelas forças armadas da Rússia seria passar a mensagem de que não temos verdadeira resposta para combater ímpetos imperialistas, sendo que nada impediria a Rússia de continuar a avançar para outros países, quer para os anexar, quer para fazer deles estados-satélite à imagem da Bielorrússia.



Se olharmos para a forma como têm sido encaradas as negociações entre a Ucrânia e a Rússia, vemos que a probabilidade de termos um acordo de paz num futuro próximo é muito reduzida (para não dizer nula). Por outro lado, também não se vislumbra um fim do conflito armado.



Por todo o mundo, incluindo na Rússia (apesar de muitas vezes silenciados e reprimidos pelas forças policiais locais), surgiram apelos ao fim da guerra e manifestações de apoio ao povo ucraniano, tendo já sido organizadas várias recolhas para ajudar os refugiados que fogem do país, demonstrando o lado bom da humanidade.


Acontece que temos também tido conhecimento de alguns relatos preocupantes que dão conta de comunidades de cidadãos russos, nomeadamente em Portugal, que têm sido alvo de represálias, recebendo ameaças e mensagens agressivas, incluindo crianças. Algo que me parece claro e que se foi tornando evidente ao longo das últimas semanas é que a guerra foi provocada por Putin e não colhe o apoio de todos os russos, tendo surgido já várias manifestações nesse sentido. Ser a favor do fim da guerra e apoiar o povo ucraniano nesta dura e longa batalha não é, nem poderá ser, equivalente a ser contra os cidadãos russos.



Temos de, nestes momentos, saber separar e perceber que um conflito armado impulsionado por Putin não é um conflito impulsionado por todos os russos. Por isso, as comunidades de cidadãos russos que vivem no estrangeiro, neste caso em Portugal, que também estão a sofrer, não devem ser alvo de ataques. Muito menos o devem ser as pessoas mais inocentes de toda esta situação, as crianças.



Se não soubermos fazer essa distinção estaremos a contribuir para a bipolarização de um mundo que, assim, estará sempre mais longe de terminar de vez com estes conflitos armados e cada vez mais longe da paz.