Os movimentos matam-se a si próprios.

Assim, Portugal encontra-se num ciclo constante de discussões que estagnam e não contribuem para qualquer tipo de evolução ideológica e social.

Texo de Maria Madalena Freire

Mestrado em Jornalismo NOVA FCSH


Pela maneira como apresentam o que defendem, um discurso sempre conduzido ao extremismo por alguns, sendo os que ganham mais visibilidade porque o jornalismo do nosso país, hoje em dia, assim o promove. Também, pela maneira como operam as redes sociais com os retweets e a partilha apenas daquilo que é “escandaloso”, “juicy”, e as opiniões coerentes e racionais (que deveriam estar na linha da frente destes) ficam perdidas entre estas discussões de caps locks.


Igualmente se matam pela maneira como se identificam, primeiro distanciando-se logo de certas ideologias políticas e aproximando-se de outras. Quem defende certas coisas é certamente de esquerda, quem defende outras é sem dúvida de direita. Os partidos políticos apropriam-se de causas sociais e humanitárias, como uma criança que não partilha os seus berlindes no recreio. Tanto de um lado, como de outro, adoptam um regime de exclusividade que só os prejudica. Pensemos no quão contraproducente essa estratégia é: eu, sendo hipoteticamente de esquerda, defendo a igualdade salarial do homem e da mulher, coisa que a direita patriarcal e corporativista não faz.


Com esta atitude, coloco, de imediato, o outro lado como meu opositor em vez de como meu colaborador, companheiro. Ao invés de demonstrar a minha ideia e apelar ao bom senso da minha causa para que se juntem a ela e lutem por ela, vou contrapor-me meramente por ideias pré-concebidas das classes políticas instituídas há 50 anos. Pede-se que a direita evolua, mas também não dão espaço para que isso acontença quando o ataque é rápido quando a palavras “sou de direita” jorram da boca de alguém (atenção, antes de me cancelarem, o mesmo se aplica quando a direita encara a esquerda). Ainda antes de ouvir o que defendem, já há certos preconceitos a surgir na cabeça quando se depara com alguém de um partido opositor.


Assim, Portugal encontra-se num ciclo constante de discussões que estagnam e não contribuem para qualquer tipo de evolução ideológica e social.


E é assim que se criam cisões, lados que não se ouvem e apenas querem berrar mais alto do que o outro. Muitos destes movimentos partem de dilemas sociais e históricos, sendo que vivemos numa sociedade totalmente diferente da que já foi. Porém, ainda tem em esplendor uma história considerada esclavagista e racista. MAS, sabem quem é que intervém para falar destes assuntos nos nossos canais? Nem mais que quatro pessoas caucasianas, uns que nem carreira têm ligada à sociologia e à história. E é assim que se tratam os assuntos da praça pública transferidos para a comunicação social. Querem representar o assunto “da berra” para audiências e para se sentirem no centro da discussão.


No entanto, acabam apenas por promover um lado, uma visão, sem conteúdo, sem conhecimento, sem substância e o movimento é deixado, novamente, às guerras de comentários das redes sociais. Não é que eu seja totalmente contra o facto de pessoas qualificadas, hoje em dia, só conseguirem ter voz nas redes sociais, mas essa é uma pequena percentagem de quem comenta todo e qualquer assunto da esfera pública.


Se eu conjugar o meu conhecimento superficial (via wikipédia) sobre um assunto com uma piada bastante cínica e irônica tenho o meu sucesso concretizado no twitter e no espaço de poucos meses estou nos estúdios da TVI a comentar os jogos olímpicos (que equivale ao Sebastião Bugalho a comentar o caso do Padrão).


Se não é a televisão a dar palco a quem conhece e estuda sobre os assuntos fracturantes que vão surgindo, certamente não serão as redes sociais a fazê-lo. Daqui a um mês, o padrão dos descobrimentos continuará erguido e já toda a gente se esqueceu da discussão.


É pelo tratamento com imediatismo destas discussões que os movimentos concretos, reais e mais importantes ficam abafados pela descredibilidade de discussões anteriores afiliadas a lados políticos.


Quem cria movimentos como posição política cria, à partida, a sua própria sentença. Aguardo o dia em que vejo Cristas e Catarina Martins de mão dada no dia da mulher.


Isso sim seria bonito.