Os Incels e o neo-machismo

Embora muitos Incels tenham distúrbios mentais graves, a maior parte são apenas o subproduto mais extremo da sexualidade sob o capitalismo. O sexo e as mulheres são pensados como mercadorias, e a sua acumulação eleva o estatuto do homem. Na mundivisão Incel, a posse da mulher é um direito do homem e estas são culpadas por a rejeitarem

Crónica de Constança Cardoso


Lembro-me de pensar que a internet se tornaria na salvação da humanidade. Se todos, independentemente da classe social, tivermos livre acesso a informação, seguramente caminharemos para uma sociedade mais desenvolvida, mais funcional e mais justa. Ainda que a premissa tenha a sua lógica, rapidamente aprendi que, como qualquer tecnologia, a internet é uma faca de dois gumes. Um deles, porém, parece bem mais afiado que o outro.


Ao contrário do que pensava há uns anos, uma pesquisa na internet nunca é arbitrária. É, sim, mediada por um algoritmo que afunila conteúdo de forma a priorizar aquilo que mais nos interessa, principalmente no que toca a redes socias. Este reflete os nossos gostos, interesses e ideais e transforma os nossos feeds pessoais numa espécie de eco solitário de nós próprios. Isto significa que é fácil encontrar na internet grupos de pessoas com quem partilhamos ideias e valores. O que, por um lado, pode ser altamente benéfico, por outro, significa que cada vez é mais fácil grupos violentos e extremistas se reunirem e alimentarem as suas visões desumanizantes. Um dos casos mais recentes é o nascimento da comunidade Incel, abreviatura de involuntary celibates (celibatários involuntários).


Os autodenominados Incels são homens ou rapazes héteros que não conseguem ter relações sexuais ou românticas e culpam as mulheres pelas suas frustrações. Reúnem-se principalmente em grupos de discussão de plataformas como o 4Chan e Reddit. onde dão vida a uma cosmologia própria que é, no mínimo, bizarra: o mundo divide-se entre machos e fêmeas, e ambos os grupos estão organizados por uma hierarquia interna. No topo, sempre extremamente atraentes, estão os e as alfas, no caso masculino o “Chad” – playboyestereotípico – e no caso feminino a “Stacy” – mulher promiscua.



Meme sobre a diferença entre um “Chad” e o comum Incel


O “Chad” é uma figura altamente venerada, sendo visto como o protótipo do macho perfeito. Paradoxalmente, é também alvo de grande ressentimento. Os Incel acreditam numa espécie de “marxismo sexual” no qual haveria uma distribuição justa de parceiras sexuais, no entanto, os Chads são responsáveis pela acumulação de femoids ou FHO (female humanoid organism) – termos usados na comunidade para descrever mulheres.


Abaixo dos alfas estão os normies que, no caso feminino, têm o nome de “Becky” – mulheres de aspecto “mediano” - sobre as quais cai a grande parte do ódio Incel.



Meme Incel sobre a diferença entre uma “Becky” e uma “Stacy"


Ironicamente, a comunidade Incel começou com uma mulher que criou um site para pessoas tímidas e solitárias partilharem as suas experiências de celibato involuntário. Hoje, o seu triste legado é uma comunidade virtual onde milhares, senão milhões, de homens incitam ódio e violência contra mulheres. Violência essa que não se fica pela internet. Nos últimos anos morreram cerca de 50 pessoas às mãos de Incels só nos Estados Unidos e no Canadá. Para melhor ilustrar a gravidade da situação, convido quem me estiver a ler a pesquisar sobre estes casos.


É de salientar que grande parte dos jovens que entram em fóruns de discussão Incel são altamente inseguros e com graves dificuldades sociais que os impedem de criar relações de amizade “na vida real”. Assim, partilham as suas inseguranças, frustrações e até desejos suicidas nestas plataformas, buscando ajuda, empatia e compreensão. Porém, em vez de serem encorajados a procurar apoio psicológico, estes rapazes encontram um grupo de pessoas altamente desequilibradas que lhes oferecem respostas simples para a sua miséria: a culpa é das mulheres que os rejeitam. Claro que, quando se vive num ambiente saudável com acesso a contranarrativas e onde há quem se preocupe connosco, é fácil problematizar este tipo de pensamento. Infelizmente, para a grande maioria dos Incel, essa não é uma realidade. São jovens perturbados, com graves problemas de autoestima, muitas vezes sem acesso a apoio psicológico e (des)enraizados num ambiente familiar e escolar tóxico.


Facilmente se cria, então, um nicho de misoginia (quase sempre aliada à supremacia branca) onde a violência é diretamente incentivada, principalmente na forma de cyberbullying, assédio e até mesmo violação. O mundo do gaming online é um espaço de constante assédio para as mulheres, que já resultou em suicídio e até mesmo homicídio. Bianca Devins, uma jovem de 17 anos, foi brutalmente assassinada por um rapaz que a perseguia no Discord (plataforma de gamers) depois de este a ter visto beijar outra pessoa. As fotografias do homicídio foram publicadas pelo assassino nas suas redes sociais. Por mais que custe acreditar, este foi apenas um entre muitos casos semelhantes.


Ainda que estes casos pareçam surreais, extremismos nunca surgem no vácuo. Há sempre um terreno fértil que permite que nasçam. Neste caso, o patriarcado, aliado às relações sociais capitalistas, parece-me ser o principal responsável.


Embora muitos Incels tenham distúrbios mentais graves, a maior parte são apenas o subproduto mais extremo da sexualidade sob o capitalismo. O sexo e as mulheres são pensados como mercadorias, e a sua acumulação eleva o estatuto do homem. Na mundivisão Incel, a posse da mulher é um direito do homem e estas são culpadas por a rejeitarem. Se o capitalismo económico visa a acumulação de capital, a sexualidade sob este sistema entende o sexo como capital acumulável.


Assim, o feminismo é pensado como o maior inimigo dos Incels, mas, ironicamente, estes nunca questionam o sistema patriarcal e capitalista que os classifica como “falhados” e os desumaniza, colocando-os no fim da “cadeia alimentar”. Estes homens e rapazes não sentiriam tamanha frustração se não houvesse uma cultura patriarcal que os pressionasse a ter certa aparência, a agir de certa maneira e a ser sexualmente ativos desde muito cedo. A grande ironia é que estes homens que odeiam o feminismo não seriam miseráveis como são se o patriarcado não reinasse. É precisamente este que lhes impõe as normas sociais que são incapazes de cumprir. É triste, e quase cómico, que a “ideologia” misógina que pregam seja a grande razão da sua desgraça. Mais uma vez, estas ideias não surgem do nada. Os Incel obviamente não foram os primeiros a acreditar terem direito de posse sob o corpo feminino. A sua cosmologia doentia bebe do machismo e da cultura de violação que sempre existiu na sociedade ocidental.


É interessante refletir também sobre a forma como mulheres sexualmente marginalizadas lidam com a rejeição em comparação com os Incel. Escreve a filósofa americana Amia Srinivasan: “It is striking, though unsurprising, that while men tend to respond to sexual marginalization with a sense of entitlement to women’s bodies, women who experience sexual marginalization typically respond with talk not of entitlement but empowerment. Or, insofar as they do speak of entitlement, it is entitlement to respect, not to other people’s bodies”.


Assim, mulheres classificadas como indesejáveis devido à sua aparência não procuram por norma reivindicar um suposto direito ao corpo masculino, mas sim desconstruir o sistema responsável pela hierarquização dos corpos. Reivindicam empatia, compreensão e espírito critico, o que é precisamente o que falta à maior parte dos Incels e que os impede de encontrar parceiras sexuais e românticas. Para além de, claro, terem normalmente expectativas absurdas sobre a aparência e comportamento das mulheres.

Não devemos olhar para o comum Incel nem como mera vítima, nem como total aberração. Devemos, sim, entender que este é fruto da sociedade capitalista e patriarcal e sintoma da sua decadência. Não quer isto dizer que estes homens não devam ser responsabilizados pelos seus atos. Não deve nunca haver impunidade no que toca a violência misógina, seja de que tipo for.


Há que refletir sobre este fenómeno, pois é um perfeito exemplo de como é urgente reestruturar a nossa sociedade e caminhar para um mundo mais empático, feminista e alternativo ao capitalismo. Enquanto as mulheres forem vistas como propriedade, enquanto o sexo for um direito e um dever dos homens, enquanto as relações humanas forem pensadas à luz do mercado, enquanto a educação sexual não for uma prioridade, enquanto a saúde mental não for um direito universal, grupos como os Incel não deixarão de crescer.