Ortodoxia, uma velha novidade

Era uma vez o habitante do país dos contos de fadas que não cessou de procurar um lugar onde coubessem o respeito pela Razão, mas não a subjugação à mesma. Era uma vez o herói que desejou um sítio encantado onde pudessem conviver o pessimismo e o optimismo, o desprezo pelo mundano e o amor pelo mundo, a coragem e mansidão, o celibato e o matrimónio, a revolta e a aceitação, a vida e o martírio.


Crónica de Francisco Costal

Estudante de Medicina, NOVA Medical School



Era uma vez


Sabemo-lo desde o momento que pomos os pés neste mundo. Não há história fantástica, aventura miraculosa ou profecia fascinante que não comece com as três palavras mágicas. Era uma vez, e à frente dos nossos olhos se abre o universo de dragões malvados, princesas frágeis, cavaleiros corajosos e reis comovidos.


A expressão épica poderia ser o ponto de partida para Ortodoxia, um tratado de filosofia que não é sobre filosofia, um livro de apologética que não versa sobre apologética, um relato de uma vida que só tangencialmente fala dela.


Era uma vez G. K. Chesterton, o escritor londrino em busca de um sentido. Não era cristão, nem nutria especial empatia por nenhuma das ideologias do seu tempo, mas de uma coisa Chesterton estava certo: era, nas suas palavras, um habitante do país dos contos de fadas. Tudo o que sabia com algum grau de certeza sobre o mundo tinha aprendido da boca da sua mãe, com o Rei Artur, Lancelote e Galaad, com São Jorge e o dragão, com Ariadne, Teseu e o Minotauro.


Era uma vez um homem para quem o mundo não se explicava a si próprio, para quem o nascer do Sol não implicava a sua eterna e diária repetição, e para quem a queda de uma maçã ao solo não tinha como corolário a gravidade. Sim, o mundo era uma obra de arte e, por isso, deveria ter um criador que lhe desse um sentido. Além disso, era belo e admirável, apesar de todos os seus defeitos e, assim, a melhor forma de agradecermos a nossa existência passava pela humildade.


Este cidadão do fantástico considerava a vida como uma oportunidade, uma aventura e um êxtase. Por cada dragão, há uma princesa por detrás e um herói pronto a derrotá-lo. Para o poeta, não era estranho que se apresentassem restrições à nossa existência ou à nossa razão. Como poderia pensar de outra forma se, afinal, uma caixa aberta significava a disseminação dos males do mundo, um olhar para trás de um homem podia matar a sua esposa, e uma maçã comida podia levar ao desaparecimento de Deus? Não havia motivo para se questionar por que motivo as coisas não eram de outra forma; mas ficava assombrado por elas serem como são!


Era uma vez uma criança que se fez homem e, conhecendo tudo isto, foi em busca de uma Verdade que acolhesse aquelas verdades. Como habitante do país dos contos de fadas, aprendera que a Razão é geralmente um guia de confiança nesse caminho, mas sabia também que a Razão, por si só, não pode alcançar as questões fundamentais da vida. Chesterton tinha a convicta certeza aprendida dos seus pais que precisamos de algum tipo de fé (inclusive na própria Razão) que ilumine o nosso caminho.


O escritor sabia que outros já tinham empreendido o mesmo caminho que ele e, portanto, começou por percorrer as grandes correntes de pensamento do seu tempo. Foi enorme o seu espanto ao verificar que todas estavam erradas. Encontrou os cépticos académicos e o seu absurdo de que deveríamos desconfiar de tudo, apenas porque a Razão não se consegue provar a si mesma. Deparou-se com os pragmáticos, mas recusou a crença de que apenas poderíamos corresponder àquilo que é alcançável pela racionalidade, como a satisfação de necessidades fisiológicas ou a diminuição do sofrimento. Olhou ainda para Nietzsche, mas torceu o nariz à ideia de espíritos superiores que subjugassem os fracos, e para o misticismo, mas não acreditou que fosse possível viver abdicando da Razão.


Era uma vez Chesterton, o poeta que, depois de ter conhecido estes e outros caminhos, apontou agulhas em direcção ao Cristianismo. Ali estava Ele, majestoso, mas escarnecido por tantos, tão velho como o Velho Continente, carregado de vícios e contradições. Então, curioso, pegou no seu “manual agnóstico” e procedeu à revisão das acusações que eram feitas a este credo. Qual não foi o seu espanto ao concluir que eram irreconciliáveis os crimes apontados ao réu.


Que doutrina estranha seria aquela, à qual uns atiravam pedras pelo seu pessimismo (que impedia os cristãos de seguir os prazeres do mundo), enquanto outros apontavam o dedo ao seu suposto optimismo pateta, que apregoava a acção da Providência Divina e que proclamava a vida eterna? Que religião poderia ser tão disforme ao ponto de ser confortável para o maior dos cobardes, e, simultaneamente, para um louco temerário?


Seguindo esta rota, Chesterton estranhou ainda este ideal que exaltava os mansos monges, mas honrava os valentes cruzados e santos guerreiros da sua História; que, supostamente, atacava a família, por forçar as mulheres a um hábito que não era seu, mas defendia-as, ao implementar energeciamente o matrimónio; que tudo fazia com pompa e circunstância, mas incentivava a austeridade, o sacrifício e o jejum. Por fim, diante de tantos oxímoros, perguntou-se se seria verdade que esta era, somente, uma religião como outra qualquer, com valores morais universais; no entanto, voltou a estacar no paradoxo de aquela ser, de acordo com os seus detractores, uma doutrina obsoleta e ultrapassada.


Assim, o que é o Cristianismo? Chesterton entendeu que apenas lhe restavam duas hipóteses: ou estava perante uma doutrina tão peculiar que permanecia enganada de formas diferentes e opostas, ou os seus críticos eram eles próprios invulgares.


Era uma vez um homem encantado com o mundo, desiludido com as ideologias e intrigado pelo Cristianismo, e que procurava uma chave para todas as suas perguntas. Não desistiu da sua cruzada. Na doutrina cristã, encontrou uma fórmula com evidência empírica que conduzia à libertação dos oprimidos e ao progresso da sociedade.


Eis o Cristianismo a desvendar o mistério do pecado original, permitindo-nos duvidar da razão de uns poucos e colocar os poderosos das oligarquias ao nível dos mais pobres. Veja-se, com todo o esplendor, a defesa acérrima da transcendência divina, indicando que o Homem não é Deus, nem Deus é o Homem e, por isso, podem amar-se. Não, não é verdade que o Cristianismo seja apenas mais uma religião que promove a mera procura de si mesmo.


Olhe-se, com um assustando espanto, para a verdade do Inferno. Chesterton, o habitante do mundo dos contos de fadas, sabia-o real. Afinal, o herói não tem de perecer para que a aventura seja emocionante; mas é necessário o perigo da morte para que seja verdadeira a emoção. Por fim, contemple-se a divindade de Cristo, a ousadia primária, final e absoluta do Cristianismo, a afirmação extraordinariamente revolucionária deste credo. Deus é rei e rebelde, provido de uma coragem tal que se dispôs a ultrapassar o ponto de ruptura sem nunca quebrar. Mostrem as outras religiões um Deus que se revoltou consigo mesmo; indiquem, os ateus, um outro Deus que, por instantes, até duvidou de Si.


Era uma vez o caminhante que devia responder a uma última questão. Aceitando como certas estas verdades, porque não guardá-las apenas, largando a doutrina? Este homem, sentindo-se interpelado, colocou a sua nova chave nas restantes fechaduras. Descobriu, para seu assombro, que todas as portas eram abertas. O Cristianismo mostrava que o Homem, nas sua excentricidade e diferença, não era apenas mais um animal. Ao mesmo tempo, era nos países de implementação católica que sobrevivia uma velha noção de felicidade e uma alegria quase pagã pelas coisas.


E porquê? Que relação têm a humanidade e a alegria? Para Chesterton, a resposta era óbvia: o Céu encontrara a Terra uma primeira vez com o selo da imagem de Deus, o Homem, que tomou controlo da natureza; e, numa segunda vez, o Céu tomou a forma de um homem para salvar a humanidade.


Era uma vez… Não há uma inaudita aventura que não comece desta forma, e esta não é excepção.


Era uma vez um homem que saiu de casa em busca de uma chave. Loucura: queria abrir todas as portas do mundo! Encontrou-a. Tinha um aspecto particular, era desprezada por muitos.


Era uma vez o genial escritor que, na busca por uma ideologia onde coubessem todas as verdades, encontrou a Verdade. Na Igreja, viu um professor vivo da sua alma. Certamente que Platão lhe contara verdades, que Shakspeare e Camões o haviam emocionado com belas palavras, mas morreram. A Igreja, pelo contrário, vive. As Suas palavras não são para ontem, mas para amanhã. Era uma vez o poeta que, ao procurar uma ou outra verdade, chocou com Aquela que diz a Verdade; e só as suas formulações, aparentemente estranhas, têm, no fim de contas, aplicação prática.


Era uma vez o habitante do país dos contos de fadas que não cessou de procurar um lugar onde coubessem o respeito pela Razão, mas não a subjugação à mesma. Era uma vez o herói que desejou um sítio encantado onde pudessem conviver o pessimismo e o optimismo, o desprezo pelo mundano e o amor pelo mundo, a coragem e mansidão, o celibato e o matrimónio, a revolta e a aceitação, a vida e o martírio.


Era uma vez G.K. Chesterton, o inglês que, no meio de ventos e tempestades, procurou uma tábua para não se afundar. No fim da sua epopeia, mais do que uma bóia de salvação, descobrira o único barco que alguma vez ousara navegar as águas deste mundo.


Era uma vez a criança que se fez homem e chegou à Terra Prometida. Percebeu que esse caminho já tinha sido marcado por outros, e que as flores das suas margens emanavam o perfume de um velho cheiro novo. Escreveu, num pergaminho, as pistas até ao tesouro. Chamou-lhe Ortodoxia.