Ode ao acordar

Afigura-se necessário um método, método este que passa pelo raciocínio próprio, pela instrução política, pelo pensamento crítico; mas, principalmente, pela consciência de que há uma luta por manter viva.

Fonte: Sic Notícias

Crónica de leitor

David Balseiro, estudante de Direito, Lisboa



Volvidos 47 anos da Revolução, a pátria está em sono profundo. Quais os desafios que encaramos e, mais importante, como vamos acordar?


Os tempos são diferentes, os ideais são os mesmos. O povo soberano encontra-se adormecido, perdido na sua ilusão de conforto que a abundância lhe traz. Devemos acordar deste sono, demasiado permissivo da intrusão do radicalismo e da irresponsabilidade na máquina democrática a que os Capitães deram início, depois de 41 anos de ditadura.


Faço parte de uma geração que, indiscutivelmente, se encontra mergulhada numa onda de informação que vem de todas as frentes, e que a deixa sem saber como dela tirar proveito. Sentindo-nos ameaçados com tanta opinião provinda dos meios de comunicação social, escolhemos a via hostil e da reserva como mecanismo de defesa. O individualismo que o pós-modernismo trouxe fez-nos acreditar que a vida coletiva morreu, e que os nossos gritos não são ouvidos, como eram antes.


Acreditamos que a nossa participação na vida política portuguesa é de diminuta importância, e que a nossa palavra, conquistada com Abril, nenhum efeito tem no funcionamento da máquina. A cisão entre nós, portugueses, é absurdamente notável. Demos permissão ao germinar de uma era em que, cada um perdido na sua ilusão, vive absorto pela rivalidade entre fações políticas e se esquece que há uma luta em curso. A luta por manter a liberdade inscrita nos nossos corações, uma luta bem nossa, como sempre foi.


Camus disse um dia: “proclamo que não creio em nada e que tudo é absurdo, mas não posso duvidar da minha própria proclamação e tenho de, no mínimo, acreditar no meu protesto”. Ora, a revolta, em Camus, não ocorre sem o sentimento de que algo nosso foi ferido, que os nossos ideais foram traídos ou injustiçados. O absurdista argelino ensina-nos a nós, portugueses, que há que encarar o absurdo de frente: apenas com a revolta e com o (re)nascimento de ideais conseguimos fazer frente à absurdez que a vida constitui.

Ora, a lição de Camus deve ser interpretada adequadamente: a vida absurda é uma realidade, é certo, mas a revolta não o deve ser. O fio condutor desta deve ter limites claros, com vista a alcançar o fim da coletividade. É facto de que a revolta tratada não é uma guerra aberta no meio da sociedade, mas passa, antes, pelo sufrágio popular, pelo protesto, pela instrução política. E hoje, principalmente, a presa dos que querem infetar a democracia são aqueles que, não tendo descoberto ainda uma direção por onde ir, escolhem uma via aleatória, por regra a que menos esforço individual e dedicação implica.


Assim, afigura-se necessário um método, método este que passa pelo raciocínio próprio, pela instrução política, pelo pensamento crítico; mas, principalmente, pela consciência de que há uma luta por manter viva. A enfermidade do comodismo infiltra-se cada vez mais na nossa mente, sem que o percebamos. Ocupados com a individualidade e com a monotonia da vida diária, esquecemos que a máquina continua a trabalhar, e que a participação consciente e coletiva faz toda a diferença no funcionamento desta.


Os nossos corações têm, necessariamente, de ter uma direção: a da liberdade. É urgente acordar, que há uma luta por ganhar. Os tempos são diferentes, mas os ideais são os mesmos. E Grândola não pode morrer.