O que não falta são dilemas sociais


Crónica de Maria Leonor Carapuço

Estudante de Ciências da Comunicação na NOVA-FCSH

O documentário The Social Dilemma tem dado que falar nos últimos tempos. É sobre o fenómeno da polarização - abordado no documentário - que eu gostava de refletir um pouco.


Uma das primeiras coisas que aprendi nas aulas de Filosofia da Comunicação, na faculdade, foi que um diálogo entre duas ou mais pessoas só é possível se estas partilharem um conjunto de conhecimento comum, um common ground a partir do qual a conversa se pode desenrolar. É preciso que certos conceitos sejam compreendidos de forma idêntica - quando eu digo “pato”, a outra pessoa tem de ter em mente o mesmo que eu. Senão, em bom português, confundem-se alhos com bugalhos e ninguém se entende.


Outro dos ensinamentos dessa útil cadeira foi o seguinte: a diferença entre persuasão e manipulação está na transparência da intenção. Isto é, se eu apresento um argumento e a minha intenção de persuadir é clara, os meus interesses na conversa são óbvios e não os disfarço, então entro no diálogo de boa-fé. A pessoa à minha frente tem a liberdade para avaliar o que eu digo criticamente e tirar as suas conclusões. Mas se eu tento persuadir alguém, estrategicamente, sem demonstrar que o estou a fazer; ou se mostro a minha intenção de convencer mas não sou sincera em relação aos meus interesses, então já não é um diálogo de igual para igual, mas sim manipulação.


Estas duas ideias são essenciais para compreender o efeito das redes sociais na forma como comunicamos hoje em dia, especialmente como debatemos política. O antigo especialista em ética da Google, Tristan Harris, diz no início do documentário: «Quando olhas à tua volta, parece que o mundo está a enlouquecer. Tens de te perguntar: “Isto é normal? Ou caímos todos numa espécie de feitiço?”». É um sentimento com o qual acho que facilmente nos identificarmos todos. Algo se passa na forma como comunicamos que torna cada vez mais difícil dialogar com pessoas com quem não concordamos. Sem dúvida que as estruturas da internet têm a sua quota parte de responsabilidade.


Em primeiro lugar, porque já não temos todos uma base comum de conhecimento. Aquela primeira regra que eu aprendi nas aulas de Filosofia da Comunicação já não se aplica. Todos os dias, nas redes sociais, temos acesso a uma quantidade enorme de informação - mas aquela que nos é apresentada é escolhida especificamente para nós, para agradar aos nossos gostos, às nossas opiniões, para confirmar as nossas crenças. A nossa visão do mundo é reforçada e quando olhamos para “o outro lado da bancada”, pensamos “Como é que estas pessoas podem ser tão burras? Como é que não vêem o que eu vejo?”. Isso é porque literalmente não vêem o mesmo, lêem o mesmo ou têm acesso à mesma informação que nós, explica o ex-presidente do Pinterest Tim Kendall.


Este fenómeno complexifica-se quando acrescentamos o efeito de manipulação das próprias plataformas online. O objetivo das redes sociais é manter-nos online a maior quantidade de tempo possível. Para isso não olham a meios: mexem com as nossas emoções, até com os nossos pensamentos e perceção de verdade, para que a nossa relação com estas plataformas seja o mais envolvente e absorvente possível. A professora universitária Shoshana Zuboff, no The Social Dilemma, relata que “uma das coisas que eles concluíram é que conseguem agora afetar o comportamento e as emoções na vida real sem em algum momento despertar a consciência do utilizador.”. Isto é o que manipular significa exatamente. E as consequências são desastrosas.


Temos de tomar consciência da forma como comunicamos hoje em dia. O apelo do documentário é para a união da vontade coletiva e para a regulamentação das redes sociais. Sem menosprezar a importância dessa regulamentação, o meu apelo é este. É reconhecermos que hoje a ideia que parece reinar - não deve ser nova, mas imagino que nunca foi assim antes - é que não faz sentido falar com pessoas que com as quais discordamos. E não sobrevivemos em democracia desta forma.

É necessário ouvir o outro. Cresci e continuo a “crescer” rodeando-me de pessoas que pensam de formas completamente diferentes. E, sinceramente, não seria quem sou hoje se não tivesse ouvido todos esses pontos de vista. Se não me tivesse colocado nos pés de quem está a falar comigo. Se não tivesse tido a possibilidade de me aperceber das injustiças que me partem o coração, tanto como do racional e da inconsciência de quem tira partido de um sistema que nem sequer compreende. Sinceramente, no final de tudo, fico só cansada e ansiosa. Mas tiro pelo menos uma conclusão: que não existem pessoas intrinsecamente más. E eu quero e preciso de partir desse princípio para entrar nesta discussão, tal como preciso que partam deste princípio comigo.


Se o nosso diálogo sobre o futuro da sociedade continuar a ser nestes moldes, onde é que nos vai levar? Se o grande fórum onde construímos as nossas opiniões e a nossa visão do mundo são as redes sociais, pudera que a cada dia que passa o que nos separa cresce e o que nos une diminui. O que puxa pela emoção ganha ao que analisa e usa a razão. A forma mais fogosa de dar a nossa opinião é a que chega mais longe, mesmo que seja demagoga. Chocar é a melhor ferramenta e a mais usada para nos fazermos ouvir, porque de outra forma ninguém quer saber. Perdoem-me, se não quero assumir um tipo de discurso que faz com que quem mais quero que me oiça é quem menos quererá saber.


Já mudei de opinião no passado e voltarei a mudar no futuro, portanto não quero por um momento achar-me dona da verdade absoluta, aí sei que desisti da democracia e do diálogo. Quero que me dêem uma oportunidade a mim de falar e quero ouvir quando não é a minha vez. Quero lutar pelo que acredito, mas escutar as pessoas com quem discordo e não apenas para poder contra-argumentar. Porque acredito piamente, e se calhar sou ingénua por isso, que ainda é possível viver numa democracia deliberativa, em que procuramos construtivamente perceber qual o melhor caminho a seguir. E que para isso falta sim afirmar os direitos dos oprimidos e reconhecer os privilégios, para que todos tenham uma voz igual nesse debate. Mas quero que todos percebamos isso e tenhamos a oportunidade de ser educados sobre esse sistema opressivo, para que juntos possamos derrubá-lo. Porque não consigo acreditar que, numa sociedade onde toda a gente tem o mesmo conhecimento sobre as desigualdades sociais e injustiças do mundo, tudo permaneça igual a como está agora.


Portanto gostava que lutássemos, todos, para provar que há esperança num futuro brilhante e risonho. Que temos a capacidade de discutir os assuntos, de ouvir o outro, deliberar e debater com a melhor das intenções. Que não perdemos a paciência à primeira tentativa de dialogar com alguém que não fala a mesma "língua" que nós. Temos de provar que não nos odiamos todos uns aos outros, mas que estamos só fartos de não ser ouvidos.


A luta é importante, a reivindicação é importante, são fulcrais, mas também é o diálogo.

Eu não sei o caminho certo e acho que nenhum de nós sabe, mas podemos procurá-lo juntos.