O que é a liberdade?

Ser livre significa estar consciente das convenções e normas que me são impostas diariamente, significa reconhecer e compreender quais as formas sociais de opressão existentes. Isto só é possível se não estivermos dispostos a aceitar as normas e os princípios que nos são impostos sem primeiro os questionarmos.

Crónica de Cecília Faria


Frequento o terceiro ano da faculdade, estudo Sociologia há dois anos. Ao longo destes dois anos, tenho aprendido o que significa viver em sociedade e qual o papel dos indivíduos na construção e transformação da realidade que os rodeia. Desde cedo compreendi que a sociedade não se constrói nem organiza sozinha e que, ao mesmo tempo, os indivíduos não são autómatos, programados para agir e pensar apenas segundo as normas e os valores que a sociedade em que vivem lhes impõe. É certo que os indivíduos são socializados de acordo com determinada estrutura normativa e organizacional, que determina, em grande medida, a sua maneira de pensar e agir. No entanto, eles são capazes de questionar e interpretar o mundo à sua volta, de procurar respostas para os fenómenos que observam, respostas diferentes daquelas que a sociedade em que vivem lhes oferece. Assim, os indivíduos podem transformar e ajudar a (re)construir a realidade social que os rodeia.


Estudar Sociologia levou-me a um enorme processo de reaprendizagem do mundo à minha volta e da interpretação que faço dele, da maneira como olho para as pessoas com quem me cruzo e com quem interajo. Hoje, procuro apreender o mundo na sua complexidade, percebendo que existe sempre uma determinada realidade social que influencia e determina o que vemos e o que sentimos. Compreender o quão importante é distanciarmo-nos e emanciparmo-nos do contexto estrutural e normativo em que vivemos ajudou-me a desenvolver empatia para com os outros. Aprendi que nem todos veem o mundo e os seus fenómenos da mesma forma que eu. Aprendi que isso não tem mal nenhum, desde que estes diferentes critérios para entender e julgar o mundo se baseiem em premissas de tolerância e respeito.a deó


Nas primeiras aulas do curso, os professores falaram-nos da necessidade de rutura com os nossos preconceitos e pré-noções, e explicaram-nos que este era um processo fundamental no nosso desenvolvimento enquanto bons sociólogos. Temos de ser capazes de nos dissociar da nossa própria cultura e crenças interiorizadas, de maneira a conseguirmos ter uma visão justa e objetiva do mundo e das diferentes sociedades que nos rodeiam. Todos nós, desde o momento em que nascemos, nos encontramos imersos numa cultura específica que nos impõe certos valores, princípios e normas. Esse quadro coletivo de valores e de normas é adotado quotidianamente pela maioria das pessoas, quase sempre de maneira inconsciente. E este é um dos aspetos mais importantes acerca dos preconceitos e das pré-noções: eles estão inconscientemente presentes na nossa maneira de agir, pensar e fazer e, por isso, não sabemos que eles existem até começarmos a questionar as nossas escolhas, a nossa maneira de pensar, a nossa maneira de interagir com os outros. Deste modo, para nos podermos ver livres dos nossos preconceitos e pré-noções, precisamos de implementar na nossa vida um intenso e constante trabalho de autoanálise e de autoquestionamento.


No documentário Creating Freedom: The Lottery of Birth (2013), o narrador começa por nos recordar que o país em que vivemos, as tradições e as convenções que aceitamos e os símbolos que dão significado à nossa vida quotidiana dependem totalmente do acaso. Assim, o momento em que nascemos está completamente dependente da sorte, trata-se de um verdadeiro sorteio (tal como nos indica o título do filme). Ao mesmo tempo, porém, o narrador explica-nos que, embora o lugar e a cultura onde nascemos sejam fruto do acaso, a estrutura social e a organização normativa que nos acolhem e socializam não o são. Há todo um trabalho de manutenção e transmissão da cultura e da ordem vigentes que nos precede e nos acolhe muito antes sequer de nós termos consciência.


Isto é, enquanto crescemos, somos ensinados a acreditar que a realidade social em que vivemos e interagimos representa a maneira correta de funcionar, as maneiras corretas de pensar e agir. Começamos a acreditar que o que vemos ao nosso redor são as formas «normais» de pensar, agir, viver a vida, tomar decisões. Principalmente, à medida que crescemos e nos envolvemos cada vez mais com o mundo institucional e normativo que nos cerca, vamo-nos convencendo aos poucos de que não existem outras formas de organização e estruturação da vida social além daquelas em que vivemos.


Ao longo do documentário, o narrador explica que a maior ameaça à nossa liberdade é esta inconsciência relativamente aos preconceitos e às conceções que fomos interiorizando. Aliás, muitas vezes nem chegamos a perceber que determinadas ideias e opiniões que temos são efetivamente preconceitos e princípios coletivos, para nós considerados normais por nos terem sido incutidos desde a infância. Desenvolvemos uma inconsciência, quase um automatismo, em relação a esse quadro social valorativo segundo o qual regemos a nossa vida. Esta inconsciência pode revelar-se perigosa. A nossa incapacidade de reconhecer as restrições e regras através das quais aprendemos, desde pequenos, a fazer escolhas quotidianas e a tomar decisões faz-nos pensar que desfrutamos de total liberdade. Daí que, de facto, este seja o primeiro grande obstáculo à liberdade. Porque a nossa incapacidade de desobedecer a estas normas e princípios estabelecidos só contribui para perpetuar um estado de «normalidade» e inconsciência no qual não são consideradas ou pensadas alternativas. Não há espaço para imaginarmos e concebermos outro tipo de crenças e convenções. Principalmente, tornamo-nos intolerantes com outras formas de olhar para a vida e de pensar o mundo.


Ser livre significa estar consciente das convenções e normas que me são impostas diariamente, significa reconhecer e compreender quais as formas sociais de opressão existentes. Isto só é possível se não estivermos dispostos a aceitar as normas e os princípios que nos são impostos sem primeiro os questionarmos.


O que mais me impressionou no documentário foi a conceção de liberdade enquanto algo que não existe fora de nós, que não pode nunca ser independente dos indivíduos. Desta maneira, a liberdade não é algo abstrato que existe num vazio, que é externo a nós e nos é oferecido no momento em que nascemos. A liberdade é algo extremamente pessoal, algo que cada um de nós deve tentar alcançar e desenvolver através de autorreflexão e da abertura aos outros. Não posso oferecer a liberdade a ninguém e ninguém me pode oferecer a liberdade a mim. Podemos unicamente pôr à disposição uns dos outros mecanismos e abordagens que nos ajudem a questionar os nossos próprios dogmas e valores, aqueles que escolhemos para nós mesmos, mas também aqueles que encontramos enraizados na sociedade de que fazemos parte e nas instituições em que nos integramos.


A liberdade é, assim, algo que construímos e tentamos alcançar durante toda a nossa vida. Mesmo nas sociedades ditas democráticas, ao contrário do que podemos pensar, a liberdade não é algo que nasce connosco e que faz inerentemente parte da nossa vida e da nossa maneira de pensar. O facto de podermos votar, por exemplo, não significa, de forma alguma, que gozemos de liberdade.


Na obra The Normal Chaos of Love (1995), Ulrich Beck e Elisabeth Beck-Gernsheim explicam que as regras e princípios que regem as relações amorosas e a própria vida de cada indivíduo, hoje em dia, seguem ainda uma retórica comum e universal, têm ainda por base um discurso que é socialmente aceite. Ou seja, atualmente continua a existir um imperativo geral em obediência ao qual todos sentimos que temos de reger as nossas vidas e fazer as nossas escolhas. Assim, nas sociedades capitalistas modernas, embora se verifique, segundo os autores, um individualismo crescente, continuam a existir valores e convenções socialmente aceites que nos pressionam a viver a nossa vida de certa maneira, a escolher determinadas coisas em detrimento de outras. O discurso individualista com que somos constantemente bombardeados hoje em dia é ele próprio a imposição de uma dada maneira de viver a vida. Somos constantemente incentivados a pensar sempre primeiro em nós, nas nossas vontades e nos nossos desejos. Todos os dias nos é dita a frase «Tu és a pessoa mais importante da tua vida!». Dizem-nos que os processos de autodescoberta e de realização individual devem constituir o elemento central das nossas vidas, devem ser os nossos principais objetivos. Não podemos nunca, dizem-nos, tomar decisões em função de mais ninguém a não ser de nós próprios.


Os imperativos gerais ainda existem, embora hoje em dia se possam encontrar camuflados sob uma aparente vivência totalmente independente e emancipada das normas e dos princípios coletivos. À primeira vista, podemos decidir como quisermos acerca do que quisermos. Dir-se-ia que todas as pequenas esferas da nossa vida estão nas nossas mãos e nas nossas mãos apenas. Dir-se-ia que não há quaisquer normas ou regras coletivas que nos digam que temos de nos comportar ou pensar de certa maneira. Somos levados a crer que vivemos num mundo verdadeiramente democrático e livre. Todavia, a própria noção individualista segundo a qual cada indivíduo deve reger a sua vida unicamente em função de si próprio é uma forma de condicionar as nossas escolhas e o nosso pensamento. Assim, atualmente, continuamos a sentir-nos pressionados a conformar a nossa vida e as nossas escolhas a determinadas normas e princípios vigentes.


Estudar Sociologia ensinou-me que a liberdade é algo que nunca nos é dado e, sobretudo, nunca é possível no contexto das organizações sociais, uma vez que elas implicam sempre a interiorização de determinadas convenções e preconceitos. Assim sendo, há sempre algum tipo de ditadura que temos de combater. Mesmo quando falamos das chamadas sociedades democráticas, temos de ter muito cuidado na forma como abordamos o problema da liberdade. Entendi que ser livre é sempre uma questão de estar consciente da realidade social que nos rodeia, de compreender que existe uma complexa e densa rede de valores e regras morais que nos limitam e nos levam a pensar que estamos sempre do lado certo das coisas. Às vezes, porém, não estamos. Se recusarmos ou, pelo menos, hesitarmos em olhar para o mundo e para as pessoas à nossa volta da maneira que sempre nos disseram que era a correta, estaremos, de certeza, mais perto de descobrir o que é a liberdade.