O próximo desafio global de saúde pública

Se de todos os males se pode tirar um lado positivo, a necessidade de reagir globalmente a esta pandemia pode dotar-nos das ferramentas apropriadas para responder a este outro problema global de saúde pública.


Crónica de Maria Leonor Carapuço

Licenciada em Ciências da Comunicação, NOVA-FCSH



Por razões óbvias, a saúde pública está hoje na ordem do dia, mais do que nunca: procuram-se motivos e explicações, curas e respostas conforme vivemos o “olho do furacão” desta pandemia mundial, o COVID-19. Mas este momento vai passar, e vai-nos deixar com um medo em forma de interrogação: pode algo assim voltar a acontecer?


Em 2017, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Ghebreyesus, referia duas ameaças à segurança de gravidade enorme e equivalente: a primeira tratava-se de um surto repentino de uma doença mortal, neste momento uma realidade que nos é muito cara e que nos alerta para a necessidade de prevenir situações deste género. No entanto, neste texto procuro elucidar sobre a segunda ameaça enunciada por Ghebreyesus.


Desde a descoberta do primeiro antibiótico, a penicilina, em 1928, que este tipo de medicamento tem salvado milhões de vidas e tratado doenças infeciosas como a varíola, a cólera, a difteria, a pneumonia, a febre tifóide, a tuberculose e a sífilis. As bactérias estão em todo o lado e são vitais para o funcionamento do corpo humano, no entanto algumas são maliciosas e podem causar doenças graves, levando inclusivamente à morte.


Quando bactérias são continuamente expostas a doses baixas de antibiótico, as resistentes ao medicamento sobrevivem e reproduzem-se, formando uma nova população de bactéria mais vigorosa. O abuso de antibióticos na medicina humana - como a prescrição de antibióticos para tratar doenças causadas por vírus, como a gripe ou a constipação, que não podem ser tratados desta forma - é um fator conhecido como causa comum desta resistência. Mas há outro motivo, o abuso de antibióticos na produção animal, que é menos conhecido e apresenta-se como uma séria ameaça.


A 7 de novembro de 2017 a OMS alertava para a prática da indústria agroalimentar de dar antibióticos a animais saudáveis. Na produção animal, esta administração é comum como forma de fazer os animais crescerem mais depressa e torná-los mais saudáveis e resistentes a doenças. Os antibióticos são administrados aos animais através da sua alimentação rotineiramente, o que cria um problema grave a longo prazo: o aparecimento de bactérias multirresistentes, para os quais os antibióticos são ineficazes.


Muitas das bactérias aos quais os animais estão suscetíveis - Salmonella, Campylobacter, E. coli - são doenças também comuns aos humanos. Quando estas doenças evoluem e conseguem tornar-se resistentes aos antibióticos que os animais consomem, isso significa que também os seres humanos estão expostos, sendo que muitos dos antibióticos utilizados na produção animal são também usados para tratar pessoas. Há hoje muitas bactérias que causam infeções sérias nos humanos para as quais os antibióticos disponíveis são já ineficazes. Um estudo de 2014 pelo consórcio Review on Antimicrobial Resistance, convocado pelo primeiro-ministro britânico à data, estima que, se nada for feito até 2050 para controlar o abuso de antibióticos, bactérias resistentes passarão a matar 10 milhões de pessoas por ano, mais do que as que morrem de cancro atualmente.


Com a publicação de um estudo pela The Lancet Planetary Health que concluía que reduzir a administração de antibióticos a animais continha em 39% o desenvolvimento de bactérias resistentes a antibióticos, a OMS publica, no mesmo dia, novas diretrizes para a redução do uso de antibióticos na produção animal - estas incluíam a restrição, por completo, para propósitos de promoção de crescimento dos animais e prevenção de doenças sem diagnóstico (animais saudáveis só poderiam ser administrados antibióticos para a prevenção de doenças se outro animal do seu grupo fosse diagnosticado). Já vários países tinham tomado providências nesta direção: desde 2006 que na União Europeia já estava banida a administração de antibióticos para aceleração do crescimento animal. Algumas empresas de produção alimentar, por pressão dos consumidores, também já tinham adotado medidas neste sentido.


A intensidade do problema não está distribuída igualmente por todo o planeta. Em 2019 é publicado na Science um estudo que resulta de quatro anos a analisar mais de 900 artigos publicados entre 2000 e 2018. Durante esse tempo, a proporção de bactérias que não reagiam aos medicamentos desenhados para as tratar triplicou. Essas bactérias foram colhidas de porcos e galinhas, animais cujo consumo tem vindo a crescer exponencialmente. É exatamente nas economias emergentes onde este consumo aumenta que também se identificam os focos globais da resistência a antibióticos: países como a China, a Índia, o Brasil e a Turquia, o Irão e o Quénia, entre outros. A crescente resistência dos animais a antibióticos (o que inclui antibióticos que foram desenvolvidos para substituir medicamentos anteriores que se tornaram obsoletos) parece estar mais presente em países em que a indústria animal se desenvolveu fenomenalmente, sem que houvesse o acompanhamento necessário da regulação.


Apesar da dificuldade em acompanhar a situação real no mundo inteiro, e de garantir que medidas são tomadas em todos os contextos, o grupo ReAct, criado em 2005 para o estudo e a advocacia com enfoque na resistência aos antibióticos, relata que em 2019 se viram os primeiros passos para o fortalecimento de uma governança global para a resolução deste problema, liderada maioritariamente pela ONU, mas com o desempenho essencial de governos, organizações e indivíduos. Segundo a ReAct, é necessário manter o diálogo entre as diferentes entidades, nacionais e internacionais, para uma ação coordenada e conjunta, de acordo com as indicações divulgadas o ano passado pelo Grupo de Coordenação Interagências (IACG) para a Resistência Antimicrobiana, criado pelo Secretário Geral das Nações Unidas em 2016. Entretanto, sem ainda haver grandes conclusões sobre o assunto, já se fala também no impacto que o próprio COVID-19 poderá ter em acelerar o avanço do problema da resistência microbial. Se de todos os males se pode tirar um lado positivo, a necessidade de reagir globalmente a esta pandemia pode dotar-nos das ferramentas apropriadas para responder a este outro problema global de saúde pública.


Um mundo sem antibióticos é um mundo onde doenças que não consideramos hoje ameaças sérias podem tornar-se mortais e sem cura. Infeções como a pneumonia podem matar milhões de pessoas por não terem um medicamento correspondente eficaz. Neste momento, a resistência a antibióticos aumenta a um ritmo mais veloz do que a capacidade que a investigação farmacêutica tem de fabricar novos antibióticos para estas doenças. Se a crise de saúde pública mundial, pela qual estamos a passar, nos ensinou alguma coisa, foi sobre a importância da prevenção e da antecipação dos problemas sanitários. Enquanto consumidores (em países ocidentais desenvolvidos), ao identificarmos a produção animal como uma das principais fontes da resistência microbial, a mais óbvia medida que podemos tomar é reduzir o consumo de carne e peixe. Podemos ainda ter em atenção a origem, tanto geográfica como empresarial, e exigir aos fornecedores que sejam transparentes e conscientes na forma como administram antibióticos aos animais que consumimos.


Enquanto cidadãos e cidadãs, o nosso poder é diferente, mas não menos importante, passando pelo escrutínio e pressão nos nossos governos para garantir que tomam medidas para resolver este problema: é necessário estarmos atentos e informados e exigir que a situação seja endereçada, que a regulação certa seja implementada. Ainda vamos a tempo de mitigar uma das maiores ameaças da sociedade contemporânea, que mesmo assim já mata 700 000 pessoas por ano. É necessário tomar as medidas enunciadas pela IACG e agir, agora.

Fontes: