O poder não vale de nada sem a confiança da nação

Crónica de João Moreira da Silva

Direção do Crónico


Biden vai ter de governar homens e mulheres que seguem fontes de informação diferentes, que não se cruzam nas ruas, que se odeiam sem saber bem porquê. No fundo, que vivem em países diferentes dentro do mesmo país - mas governados pelo mesmo Presidente. Vai ter de unir as duas narrativas opostas.





Às 16h28, a Associated Press (AP) anunciou o fim do impasse que já durava desde terça-feira: Biden wins. O candidato Democrata garantiu o Estado da Pensilvânia. Joe Biden é o novo Presidente e Kamala Harris a nova Vice-Presidente dos EUA - a primeira mulher a ocupar o cargo.


Ao longo dos próximos dias, vamos ter análises para todos os gostos: Quem é que Biden vai levar para o Gabinete? Porque é que as sondagens falharam? Trump vai aceitar a derrota? Quem é que o vai avisar que tem de voltar para a Trump Tower? Quantos processos em tribunal é que vão ser intentados através do Twitter?


Fora de brincadeiras - vêm aí tempos complicados (sim, os últimos quatro anos também não foram particularmente simples). Os cidadãos dos EUA vivem em duas narrativas opostas, cada uma defendida de forma irracional pelos respetivos apoiantes. Metade diz que há fraude eleitoral, a outra metade diz que o processo foi limpo. Cada uma profere o que o seu candidato defende, de forma irracional.


O problema é este: no caso da eleição, uma das narrativas está necessariamente errada. Não há duas verdades para algo tão objetivo como uma contagem de votos. Contudo, a narrativa das teorias da conspiração e factos alternativos não se derrota com insultos e violência mútua. Muito menos com paternalismos com os “menos educados”. Esta narrativa derrota-se com factos.


Neste caso, os factos são os votos. Por muita ginástica argumentativa que se faça, não se pode alterar um “X” no boletim eleitoral. Em vez de se perder tempo a tentar contrariar narrativas falsas, deixemos que contem os votos - as vezes que quiserem. A cada nova recontagem, o candidato vencedor só ganha mais legitimidade.


No dia 20 de janeiro, Biden vai tomar posse como Presidente dos EUA. Aí, terá de governar homens e mulheres que seguem fontes de informação diferentes, que não se cruzam nas ruas, que se odeiam sem saber bem porquê. No fundo, que vivem em países diferentes dentro do mesmo país - mas governados pelo mesmo Presidente. Vai ter de unir as duas narrativas opostas.


“O poder não vale de nada sem a confiança da nação”, dizia Catarina, a Grande, Imperatriz da Rússia. No seu reinado, Trump provou que é possível governar sem a confiança de metade dos seus súbditos - mas é isso que queremos durante mais quatro anos?