O poder (não corruptor) do ouro


Crónica de Beatriz Viana

Estudante de Economia na Faculdade de Economia do Porto



Tenho raízes em Viana do Castelo, apesar do meu berço tripeiro. Não houve Romaria, mas a Senhora da Agonia não fica esquecida. Viana saía trajada, com adornos de bordados e carregava o peso do ouro.


O ouro é acessório obrigatório no desfile da Mordomia. A segurança da cidade leva anos de história familiar a deslumbrar a rua. Segredos de bisavós, madrinhas, tias revelam-se nas orelhas e no pescoço de cada minhota, que caminha emocionada e orgulhosa.


Não houve Romaria, não houve desfile. Mesmo assim, o ouro “está em alta”. No dia 07/09, em que escrevo, 1 grama de ouro vale *52.44€. Com crise pandémica instalada, desemprego que dispara e clima pessimista ao investimento, surge-me o impulso para explicação económica e posterior analogia pessoal, sobre o poder (não corruptor) do ouro.


Os metais preciosos, em mercados financeiros, são considerados ativos de refúgio. Os investidores utilizam-nos para diversificar e minimizar o risco dos seus portefólios, pois funcionam como “safe haven” em tempos incertos de crise. Ao contrário de outras commodities, como o petróleo e o carvão, o ouro nunca é consumido: armazena-se, pode ficar intacto ao longo de milhares de anos. Além disso, tem boa liquidez - a qualquer momento pode ser derretido, e reintroduzido na economia com convertibilidade em moeda.


Quando abrandam as economias, os bancos federais optam por produzir mais moeda, aumentando a circulação monetária. Isto provoca excesso de liquidez no mercado, desvalorizando o valor da própria moeda. O ouro é, então, reserva de valor, mantendo um poder superior de compra. Acrescente-se a isto o facto das transações particulares de compra e venda desta cor amarela pesada serem livres de impostos (shhhh….).


Podia continuar a aula de mercados financeiros e explicar o lado histórico da questão, como o padrão-ouro do dólar e o acordo de Bretton Woods mas, em prol do desfecho romantizado que advém, opto por fazê-lo numa próxima crónica.


Todos temos ativos de refúgio. Não tenho portefólio de investimentos (ainda), nem barras de ouro (novamente, ainda). Mesmo assim, sei exatamente ao que irei recorrer em tempos de crise pessoal.


Tenho em Vila Nova de Anha um ativo de refúgio. Está lá há vários anos, construída pelos avós dos avós, que não sabiam ler nem escrever. Foi renovada e reintroduzida na família: a eira tornou-se piscina, o espigueiro ficou jardim de inverno, os animais são agora quatro e temos todas entre 16 e 22 anos. Uma casa de verão e de memórias, que reserva o valor do tempo.


Quando estou no Porto, atarefada com a agenda, nem me lembro que existe. Há planos, há reuniões, (havia) grandes festas. Restaurantes giros, noites animadas, o estudo faz-se com internet. Pouco falo com as minhas primas, quase não ligo à minha avó. Sou investidora de amigos e de sucessos académicos. Não me censuro por isto. Como os mercados, tudo em equilíbrio.


Mas nem sempre há azáfama produtiva. Estes últimos meses conseguiram provar isso. Os pais decretaram que as férias de família eram no Alto Minho e a bolinha de Berlim algarvia, na praia da Falésia, trocou-se pela Bola de Berlim da confeitaria Manel Natário.


Não foram as melhores férias que já tive. Choveu uma semana em pleno agosto. Saí de casaco todas as noites. Ainda assim, são semanas que guardo como ouro. A casa que só nos via em escassas ocasiões por ano ganhou valor: pais, filhas, tios, primas, os amigos que se juntaram na piscina. Também dia 07/09, 1 grama de ouro vale 52.44 de bolas de Berlim.


Para o ano vou desfilar nas Festas da Agonia, convido quem quiser. Quais são os ativos de refúgio que levam ao pescoço?


notas do autor:

*o ouro é cotado em dólar: conversão realizada para melhor contexto no caso português