O futuro das novas gerações


Este é um problema que deve ser tratado com urgência e os partidos não se podem demitir dessa tarefa, pois, quer se goste ou não, a política e a resolução de grande parte dos problemas sociais fazem-se através deles.

Crónica de Francisco Lemos Araújo


Muitas vezes lemos e ouvimos falar sobre a desconexão existente entre os jovens e a política, sobre como esta nova geração demonstra desinteresse pela vida pública, sem querer saber dos problemas locais e globais, quase que egoísta no seu próprio mundo.

Não se pode ignorar que existe uma dificuldade de mobilização e que isso leva inevitavelmente a uma fraca representatividade das gerações mais novas no seio dos partidos e, consequentemente, na política. Este é um problema que deve ser tratado com urgência e os partidos não se podem demitir dessa tarefa, pois, quer se goste ou não, a política e a resolução de grande parte dos problemas sociais fazem-se através deles. Por isso, sendo parte do problema, são também parte da solução.


Saltam à vista as dificuldades que têm existido na comunicação entre as novas gerações, os partidos e instituições.


Neste ponto, penso que se cometeu o erro de se focar essencialmente na forma e pouco no conteúdo. Houve uma adaptação às novas formas de comunicar, pelas redes sociais, mas a mensagem continua a não chegar. Isto porque, temas que são, de uma forma generalizada, considerados importantes pelas novas gerações – como as alterações climáticas, a transição digital e a igualdade e mobilidade social – não passam, em alguns casos, de grandes chavões, sem que se consiga perceber quais os reais avanços nessas matérias. Isto contribui para uma ideia de incapacidade na resolução dos problemas, o que leva a uma desmotivação e desmobilização crescente.


Existe, por outro lado, uma ideia de inacessibilidade dos partidos, dos políticos e da própria atividade política em si, como se fossem parte de uma realidade paralela. Assim, criam-se barreiras que não devem, nem podem existir, pelo que é urgente eliminar este sentimento.


Há que recordar que os partidos não existem por si só, nem subsistem sozinhos, mas sim que são feitos de pessoas, como quaisquer outras, que colocam as suas capacidades ao serviço daquilo que entendem ser o melhor caminho para resolver os problemas sociais e económicos do país. É, por isso, necessário transmitir às novas gerações que a política e os partidos não se fazem de entidades superiores que se autogovernam, mas sim de pessoas, como eles.


É importante reconhecer a existência deste problema e têm de se dar passos concretos para a sua resolução:


Precisamos de reconhecer que se tem falhado na abordagem e demonstrar vontade de resolver esta questão. É altura de, nas escolas, universidades, associações, etc., abordar os jovens e perceber quais os problemas sociais que eles consideram que têm de ser resolvidos, a forma como olham para a vida pública, quais as dificuldades que sentem, o porquê de não se sentirem representados e ouvidos. Só junto das novas gerações é que vamos perceber o que, na sua perspetiva, está a correr mal.


Depois disso, não se pode meter os dados na gaveta e achar que as coisas se resolvem sozinhas. É preciso agir. Tem de se abrir diálogos com as novas gerações e fazer um acompanhamento constante, pois só assim se irá conseguir debater os problemas e desmistificar a política e o papel dos partidos.


Mas é também necessário que os jovens saibam responder ao desafio quando este surgir e demonstrem que, ao contrário do que se possa pensar, estão interessados em contribuir.


É preciso que esta geração demonstre estar interessada em resolver o problema. São precisas iniciativas, como os “Os 230”, que transmitam essa vontade de conhecer e participar.


Há que demonstrar que esta é uma geração que se preocupa com o próximo e com a sociedade, que é uma geração capaz de dialogar, chegar a entendimentos e que percebe a necessidade de fazer cedências sem que isso signifique abandonar os seus ideais, que lida bem com a pluralidade e, acima de tudo, percebe de forma muito clara, que não há espaço para climas de guerrilha e divisões sem sentido.


O futuro é sempre das novas gerações e é preciso consciencializar e chamá-las para a vida ativa.