O Fio da Navalha

Somerset disseca a essência dos personagens com um jeito de tal forma extraordinário, que o leitor é capaz de se transportar para um dos jantares narrados, e, mesmo em momentos de silêncio e não atentando às características físicas, identificar plenamente as personagens apenas pela observação dos seus gestos, sem, no entanto, cair no erro de se tornar previsível

Crónica de Inês Moreira


O “Fio da navalha” é um romance de Somerset que não é verdadeiramente um romance, mas um relato verídico onde o escritor se inclui como personagem secundária - o próprio, como escritor - que entra e sai da vida das personagens principais.


A ação é leve enquanto o desenvolvimento das personagens não é visivelmente aparente, no entanto, cada uma vai adquirindo carácter com a subtileza e o engenho que apenas um grande escritor (ou um talentoso observador de pessoas) domina. Há, no entanto, personagens mais interessantes do que outras, nomeadamente Larry, um jovem veterano da Primeira Guerra Mundial que regressa da guerra absorvido pela morte de um amigo e mergulhado numa profunda crise existencial.


O narrador, o próprio Maugham, passa a relatar o que vai sabendo de Larry, da sua busca interminável pela paz de espírito, ou por algo que amenize a dor que nem o próprio sabe localizar, precisar, ou definir, mas que serve como motor de uma vida no mínimo interessante. Larry, jovem boémio, inteligente, genuíno e modesto, de uma classe social abastada, age impulsivamente, pulando de sítio em sítio, passando pela Índia, numa jornada que lembra Siddhartha, de Hermann Hesse.


Surgem outras personagens - Elliott, Isabel, Gray e Sophie - com percursos totalmente distintos. As suas viagens, contadas pelos olhos de Maugham como amigo dos participantes, fornecem ao leitor amplas ideias sobre o que a verdadeira felicidade envolve. Material ou espiritual, todos procuram alguma forma de satisfação. As formas que assumem são exclusivamente pessoais.


Por breves e repetidas observações, apanha-se a essência de uma pessoa. Conferimos-lhe um retrato emocional e passamos a distingui-la das restantes, por vezes por tão modestos traços que nem nós mesmos sabemos precisá-los. Aquela pessoa é C, inconfundível, mas impossível de descrever com exatidão, faltam as palavras para sequer chegar perto, o que, felizmente, permite preservar um mistério inerente à individualidade de cada um.


Somerset disseca a essência dos personagens com um jeito de tal forma extraordinário, que o leitor é capaz de se transportar para um dos jantares narrados, e, mesmo em momentos de silêncio e não atentando às características físicas, identificar plenamente as personagens apenas pela observação dos seus gestos, sem, no entanto, cair no erro de se tornar previsível ou maçador, o que castraria o interesse de todo e qualquer personagem. O resultado final é um romance exuberante que gira em torno da busca pela felicidade e o que essa busca significa para pessoas diferentes. Uma viagem interessante.