O Elogio da Espera

Atualizado: Jul 6

Progressivamente, a Espera decresce desvalorizada, a cada dia que passa.
Tanto a semente que se torna árvore-abrigo-sombra como a Mãe que é a casa primordial são imagens cada vez mais descartadas, face à velocidade das nossas agendas, da ânsia inexoravelmente insatisfeita, da sede de um saber mais volumoso, mas oco.

Texto de Isabel Maria Mónica



Parece que tudo nos tem dito que o caminho se faz pelo acumular: mais cursos, mais viagens, mais relações, mais dinheiro, mais, mais, mais, mais. A Espera tem vindo, assim, a definir-se como o tempo desperdiçado entre o estado em que me encontro e aquele onde pretendo chegar. Ignora-se, portanto, que o tempo é adubo enriquecedor, fermento avolumador que exalta a qualidade antes da quantidade.

Contudo, essa qualidade reside na Espera vivida em plenitude, não disfarçada. Implica contrariar o preconceito de que a Espera é uma atitude passiva, um estagnar asfixiante, que aniquila a fertilidade. Isso é a promíscua inversão do valor da Espera, porque se baseia na fuga e no medo. Estes traiçoeiros alicerces impingem-nos a ideia de que esperar é perder tempo e desaproveitar oportunidades, quando, na verdade, a fuga e o medo apenas nos querem distrair de nós próprios, da nossa verdade, ofuscando-nos com brilhos atraentemente superficiais. Nessa desenfreada correria para a qual nos empurram, perdemos a capacidade de contemplar os momentos vividos. Estes convidam-nos a permanecer e saborear, mas nós ultrapassamo-los, cegos e surdos ao chamamento, do qual só tarde e irremediavelmente tomamos consciência.

Esperar é, efectivamente, uma atitude activa. Quem espera nutre dedicadamente o presente, reconhecendo a importância dos caminhos cuidados para melhor peregrinar. Esperar não é o mesmo que ficar à espera, porque nos implica e nos compromete na construção de algo, não tolerando conformismos desistentes.

Apesar da importância do caminho, ele de nada vale se os nossos esforços se limitarem à busca de um propósito inflexível. Esperar é-nos custoso, porque tendemos a esperar por um determinado acontecimento, insuflados com um teimoso orgulho, como se tivéssemos a certeza daquilo que saciará a nossa sede e nos tornará realmente felizes. O sábio da Espera é aquele que, tendo plantado uma semente, lavra diariamente a terra, com ternura e esmero, sabendo que, independentemente do que brotará, haverá alimento e adorno. Quantas vezes, só depois de relativizarmos os nossos esquemas e objectivos, de nos libertarmos das nossas ardilosas artimanhas, encontramos aquilo pelo qual esperávamos. Só nessa atitude experienciamos a nobre paciência e a alentadora Esperança.

Por fim, é útil reconhecer que a Espera será sempre uma presença constante nas nossas vidas, porque, a cada meta alcançada, haverá sempre algo mais pelo qual esperar. Daí a importância de valorizarmos esta atitude. Há tanta beleza no agricultor que rega a semente para que se torne árvore, na mãe que contempla a crescente barriga ansiando dar colo, no cozinheiro que admira a transformação progressiva que o calor faz no alimento, nos namorados que edificam uma relação passo-a-passo, no sofredor que vê na tristeza instrumento de aprendizagem, no peregrino que reconhece os pés feridos como parte integrante do caminho.

Não esperemos por aprender a esperar.