O clube dos poetas vivos

Ser leitor tem vindo a tornar-se sinónimo de fazer parte de uma classe específica, de uma elite erudita e superior. Um ambiente restrito e oligárquico instalou-se, graças ao qual as pessoas comuns se sentem alienadas daquele que é o propósito da leitura.

Crónica de Raquel Moreiras


Há uns dias, o debate público fervilhou com um estudo que demonstra que mais de metade dos portugueses não leu um único livro no ano de 2020. Os humildes intelectuais lá se apressaram a descer dos seus tronos forrados com capas duras para estabelecer a sua hegemonia face ao povo ignorante que os rodeia. Ora, quem me conhece, sabe que sou uma leitora ávida, uma daquelas pessoas irritantes a quem tudo lembra uma passagem de um qualquer livro obscuro cujo nome, ironicamente, provavelmente nem me recordo. Uma daquelas pessoas que leva um livro consigo para todo o lado, desde hospitais a discotecas (porque nunca se sabe quando vais perder os teus amigos no Bairro e é sempre bom ter um livro que te faça companhia à porta de um bar aleatório enquanto ignoras um estranho a urinar em público). Por isso, podia ter sido fácil colar-me a essa elite tão letrada e cerebral que sabe mais da vida do que os restantes mortais porque leu três vezes aquele livro com as palavras “que se f*da” no título (perdoem-me, não me lembro do nome). Todavia, talvez por ter o azar de ser uma pessoa também dotada de empatia, e que lê por um rol de razões que não incluem ter do que me gabar à mesa de jantar, fiquei-me pelo outro lado da barricada. A verdade é que esta lengalenga não é nova, e sempre me fez comichão. Tanto porque sei que o mundo não gira à minha volta e que a minha maneira de ser não é (nem devia ser, acreditem) o suprassumo modelo de ser humano, mas também porque me lembra sempre uma das pessoas mais chatas que conheço (e, vá, também de quem mais gosto): o meu irmão mais novo.


Para dar algum contexto, cresci rodeada de livros. Tive o privilégio de ter pais que tinham tempo para ler para mim e para me apresentarem o mundo extraordinário da literatura, que tinham a possibilidade de me levar a feiras do livro e livrarias. Travei amizades com bibliotecárias e funcionários pacientes, que me desafiavam a terminar todos os livros infantis antes de partir para as categorias “dos crescidos”. Aprendi a ler antes de entrar para a escola primária porque ouvir a poesia e a prosa através de um intermediário não me chegava e teimei que queria ser eu mesma (mulher independente desde nova) a transformar as letras numa página na qualquer substância intocável que ali estava por decifrar. Conseguem imaginar ser a pessoa com a chave para todo e qualquer reino encantado?


O meu irmão mais novo foi criado no mesmo ambiente, mas nunca se tornou exatamente numa bookworm. Numa biblioteca, é mais fácil encontrá-lo a jogar num computador com os amigos do que a devorar poemas do séx. XIX, o que não me incomoda. O que me aborrece seriamente são todas as pessoas, desde amigos da família a professores, que, ao longo das nossas vidas, se sentiram confortáveis para fazer comentários que visavam inferiorizá-lo por isso. O que vale é que constantemente fiz questão de estar lá para discordar: mesmo enquanto criança, nunca tive problemas em enfrentar adultos que diziam que o meu irmão devia “ser mais como eu” apenas por preferir ler bandas desenhadas a Jane Austen. Inúmeras vezes o impedi de se deixar afetar por esse tipo de afirmações – ele é a sua própria pessoa, e eu sou a minha, e isso nunca me pareceu algo difícil de compreender. Livros são a minha perpétua paixão, e fiz questão de partilhar isso com ele, até porque, obviamente, ler é importante. Para além de trazer conhecimento e impulso para a imaginação, ajuda ao desenvolvimento do pensamento crítico e da empatia (ou devia, para um leitor que se preze). Não vou listar os benefícios da leitura porque acredito que estejam já bem assentes. Irei, sim, frisar que sou apologista de que existem livros para todos os gostos, e não levei muito tempo a perceber que eu e o meu irmão tínhamos gostos diferentes. Não me interessava forçá-lo a ler o que eu lia (até porque – surpresa! – isso não resulta), por isso, decidi ir ao seu encontro. Desde sempre que lhe ofereço livros, mas livros que ele queira ler. Sejam sobre temas específicos que eu sei que lhe interessam ou géneros que o puxam mais que outros, o meu irmão pode não ler ao quilo ou sair sozinho da sua zona de conforto, mas sempre leu com gosto o que lhe ofereci, e depois conversamos sobre o que quer que tenha sido. Recebi já muito louvor (acho que era suposto sê-lo) sobre como o meu irmão só lia “aquilo que eu lhe dava”, mas nunca consegui retirar daí qualquer mérito. Não era porque era eu a fazê-lo - sempre foi, sim, a forma como o fiz. As pessoas agem como se fosse difícil, um feito quase inatingível, mas, na verdade, é muito simples: bastou ouvi-lo, compreendê-lo e aceitá-lo. Hoje, já com dezoito anos, orgulho-me de declarar que é das pessoas mais inteligentes e seguras de si e das suas capacidades que alguma vez conheci. Só não lhe vou dizer para ler este artigo porque não quero subir-lhe o ego. Piadas à parte, a verdade é que, infelizmente, nem todas as crianças têm figuras nas suas vidas que as aceitem por quem são, que se disponham a ouvi-las e a falar a sua língua. Da mesma forma que nem todas têm pais com a disponibilidade para lhes incutir o gosto pela leitura, com tempo para as levarem à biblioteca ou com dinheiro para lhes comprar os livros que querem. E é sobre isto que precisamos de falar.


Ser leitor tem vindo a tornar-se sinónimo de fazer parte de uma classe específica, de uma elite erudita e superior. A autora Sally Rooney disse-o bem quando afirmou que “todo o dinheiro que muda de mãos na indústria livreira são pessoas a pagar para pertencer a uma classe de pessoas que lê”. Um ambiente restrito e oligárquico instalou-se, graças ao qual as pessoas comuns se sentem alienadas daquele que é o propósito da leitura, por inúmeras razões. Nem toda a gente cresceu num ambiente em que a leitura era incentivada, e nem todas as pessoas têm disponibilidade para ganhar esse gosto quando crescem. Quer seja porque não têm energia depois de passarem o dia a serem exploradas para criar lucro para o patrão, ou mesmo porque livros podem ser caros e “sobra mês depois do fim do salário”. Para além disso, ainda que existam bibliotecas públicas em quase todos os municípios do nosso país, nem sempre são de fácil acesso. Se há freguesias sem eletricidade, acham que a primeira exigência dos seus habitantes vai ser o novo livro da Isabel Allende?


Livros, em vez de fonte de conhecimento, reduzem-se, cada vez mais, a produtos, comodidades. Tornam-se acessórios com que podemos decorar as nossas estantes, tirar fotos com filtros bonitos para o Instagram ou algo com que podemos comprar um lugar à mesa das pessoas “intelectuais”. Perdem, assim, não só o seu potencial educativo, mas também revolucionário – até porque pouco importa ler só por ler. Na minha modesta opinião, mais vale ler menos livros e compreender e questionar o seu conteúdo do que ler imensos só para adicionar títulos ao perfil do Goodreads. Assim, estes portais para mundos e experiências que não as nossas perdem a sua substância para se tornarem apenas mercadoria, alcançável somente para aqueles que têm o capital necessário.


Ao contrário do que possam dizer-nos, a arte já existia nas vidas dos nossos antepassados da classe trabalhadora. Mineiros criavam grupos de teatro amadores; sapateiros e costureiras também eram pintores e poetas, muitos deles autodidatas. Havia floristas e cientistas amadores que tocavam instrumentos, porque frequentemente tinham de criar a sua própria música. As pessoas sempre tiveram paixões e pensamentos e vida a transbordar – não eram apenas parte da máquina que se contentava só com “pão e circo”, NPCs que existiram algures no passado para nos carregar até ao ilustre presente. É tão frustrante ver a arte e a leitura pintadas como algo que as pessoas comuns nunca fazem. Não passa de uma desculpa dada pelos ricos para colocarem a educação fora do alcance do trabalhador comum; dada por políticos iluminados que fingem ser “homens do povo” enquanto retiram o financiamento aos teatros, às iniciativas musicais, às galerias, às bibliotecas públicas e escolares, porque “ninguém se interessa” e “o povo só quer futebol e Big Brother”. A quem serve que se normalize a intransitabilidade do conhecimento?


Saiamos do nosso pedestal e devolvamos ao povo as histórias que são suas por direito, para que vejam que, mais que leitores, são protagonistas e autores. Aprendamos a ir ao encontro daqueles que são diferentes de nós, a falar a sua língua. Como canta José Jorge Letria, “só assim será poema / só assim terá razão / só assim te vale a pena / passá-lo de mão em mão”.